O poema que segue é da argentina Cecilia Pavón, integra o livro Caramelos de Anís. Foi traduzido ao português pela Marília Garcia e publicado na revista Inimigo Rumor nº 20. Agora está disponível na revista eletrônica Modo de Usar & Co., onde você poderá ler mais sobre a escritora (e ler ainda tantas outras coisas!).
- Agradecimentos ciclistas pra Cecilia e Marília por autorizarem a publicação!
imagem: montrealgazette.com
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Bicicleta roubada sequestrada . Talvez a revolução esteja em seus corpos e eu não a veja . Essa é a história de uma bicicleta roubada Sei apenas que perto do canal está o dono ou a dona Perto do canal, perto de um canal Mas esqueci o nome das ruas . Uma madrugada saímos depois de beber em um bar revolucionário e minha bicicleta estava presa acidentalmente a outra uma corrente se enredava por entre os cabos do freio e a mantinha sujeita a um poste Todos iam embora em táxis em ônibus em carros que estavam cheios e eu não podia pegar minha bicicleta tive que deixá-la ali . Se alguém a encontrar ali vai quebrar o cadeado e levá-la embora mas de qualquer jeito era roubada comprada por um preço muito baixo no mercado de pulgas ou em um quintal de fundos suspeito de uma mulher imigrante não se entendia muito bem o que ela dizia mas de todo modo dizia: “esta ser bicicleta minha velha” “esta não ser roubo” . São três horas da tarde de um dia de verão com vento As árvores que até agora estavam secas movem-se extremamente carregadas de folhas transbordantes de vida Em vez de neve, fibras de pólen alongadas que voam como insetos Alguém prendeu sua bicicleta acidentalmente à minha não sei se é um acidente ou um roubo não sei se é um roubo ou se é a verdadeira dona que sei que existe porque um dia se aproximou de mim em um parque . Eu não sou a verdadeira dona, eu a comprei por este preço tão baixo neste quintal nos fundos ou mercado de pulgas de uma mulher com sotaque de estrangeira de cabelos compridos e jeans gastos que dizia “não perigo, esta ser bicicleta minha passado” . Depois de conhecer a felicidade da bicicleta Estar sem ela é como viver sem asas . Passavam os dias e a bicicleta seguia ali na ponte o dono não vinha desatá-la, era verão, voava o pólen manchado de sol eu pedia bebidas que me faziam mal como expresso café preto sem leite olhava para a bicicleta do outro lado da ponte e chorava . A bicicleta rosada presa através do cabo do freio por engano à bicicleta celeste, oxidada, de um desconhecido . O sequestro da bicicleta roubada acontece durante a única semana de sol do ano . As coisas grandes as coisas raras acontecem em momentos de decisão ou de loucura por exemplo: deixar seu país, cortar o cabo do freio com um alicate para liberar a bicicleta, desfrutar gozar com o crime quebrar a roda da outra bicicleta ou jogar ácido no banco Algo assim. . A bicicleta era a minha única fonte de diversão Agora que está chegando o verão e são poucas as horas de verdadeira noite a bicicleta era a minha melhor, minha única amiga Sei que parece besteira é até tão simples mas passeando de bicicleta pela cidade me sentia livre a cidade era como uma paisagem que eu podia ver de graça passando a toda velocidade pela janela de uma trem inter-city só que a janela não tinha caixilhos era uma janela sem limite e rosada uma janela com forma de bicicleta rosada roubada comprada de uma garota que dizia “não ser perigo, não roubado, minha antes bicicleta” . Eu sabia que era roubada mesmo assim comprei Um dia em um parque chegou para mim a verdadeira dona uma mulher de uns trinta anos e disse que aquela era sua bicicleta mas eu a defendi com unhas e dentes inventei uma história estranhíssima complicada com muitas etapas de como essa bicicleta tinha vindo de Paris de barco pelo correio, desmontada em uma caixa de papelão enviada como presente por um ex-amante . Se me tiram a bicicleta o que mais me resta aqui? Sim, há os cafés revolucionários onde se discute o futuro do mundo Mas nada nada pode se comparar a ela. . Continue lendo



























