ontem

3 mar

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Não conheci a Juliana. Mas quando chego à Praça d@ Ciclista, logo uma querida me abraça e chora tanto. Mostra: veja o poema que escreveram. Leio o poema e logo estou eu sem conseguir respirar direito. Aparece um daqueles amigos que te ensinaram tudo e dá um abraço sufocado, difícil. Reconheço alguns dos rostos – são companheiros das Pedalinas, do Bike Anjo, do Cru, do Pedal Verde, do Vá de Dyke, da Bicicletada da Zona Oeste, do Mão na Roda e tantos outros coletivos, projetos e ações, conhecidos de paradinhas em faróis, de acenos de bom dia, de respostas firmes “se vc vai descer pra Pinheiros, já formou: vamo junto”. Aparece uma que não tem bicicleta ainda e aprendeu a dar as primeiras pedaladas com as Pedalinas. Uma outra pedestre, bem alta, traz um imenso girassol, um sol à tira-colo. Saem para buscar flores, chegam flores. Há tantas outras pessoas desconhecidas, mas conhecidas ante o mesmo amor, a mesma pedra

: em fazer das ruas de São Paulo um lugar. Um lugar de escala humana.

Comentários sobre a agonia na demora de sabermos o nome da Juliana. Mulher, com 33 anos, ali naquele horário, são muitas. Alguns telefonaram para a própria Juliana, perguntando se não era ela. Nunca respondeu. A menção ao nome “Julie” rasga em abraços seus mais próximos. O calor denso da noite que se adentra, suor misturado a lágrimas dos homens, aos lamentos das mulheres.

Plantam uma árvore na Praça d@ Ciclista. Juliana era do Pedal Verde. E outra árvore. E aplaudem com estapidos duros, não é uma celebração, é uma memória que se planta.

Muitos fotógrafos e jornalistas. Entrevistam. “Quantas pessoas temos aqui?”, não para de gritar uma jornalista para desespero de um dos membros do BikeAnjo. Mais de mil. Na realidade, ali estavam esses mais-de-mil e os que estão sempre no pensamento: seus pais, seus amigos, seus colegas, ciclistas de toda grande São Paulo, ciclistas de todo o país. “É uma fatalidade”, diz outra jornalista emocionada, que recebe logo o comentário ríspido de quem está no asfalto sempre: “Fatalidade se fosse imprevisível. Neste caso é muito previsível: a CET não multa quem infringe a norma do Código de manter a distância de 1,5m do ciclista”. A rispidez logo se dissolve na fala embargada, complicado manter o discurso aprumado nessa hora. Um jornalista ainda me cochicha sentido, “acho que vou começar a pedalar”.

Troveja. E a mãe das tempestades se anuncia à Avenida Paulista. Cai o céu. As cores dos faróis são borradas, as guias desaparecem em corredeiras. Alguns manifestantes procuram abrigo embaixo do Cervantes, na lan house. A força da água não arreda. A chuva não vai passar. Assim, lentamente, sob rajadas de vento forte, os mais-de-mil iniciam a caminhada penosa da Praça d@ Ciclista até o cruzamento da Pamplona. Vão a pé, arrastando a bicicleta, vão montados e pedalando com pesar, vão em duplas pedestres sob os guarda-chuvas que nada seguram. Aos que assistem a manifestação, apinhada nos toldos, entregam flores, panfletos, palavras.

A força da chuva e do vento tira o que vai adentro dos caminhantes: um misto de raiva com grande tristeza. Um frio inacreditável e ali se caminha. “Mais amor, menos motor”. Alguém ainda lembrou, no dia em que a Márcia Prado faleceu, também chovia à noite. Tão perto uma da outra: a Márcia e agora a Juliana.

O local. Abraçam-se. Não há uma única peça de roupa, coração ou olhar seco ali no asfalto. Todos deitam na avenida durante incontáveis minutos. A bicicleta branca é trazida. Flores são partilhadas por tantas mãos e aplausos molhados pelas rajadas de vento. Há ainda muitos silêncios. Na entrada da Estação Trianon Masp, entregam-se panfletos aos espectadores. Ouço um, com a roupa completamente seca, comentando: “não sabia que tinha tanta mulher andando de bicicleta”.

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ATUALIZAÇÃO: alguns links

Homenagem à nossa Amiga Julie Dias – Pedal Verde de Luto

Cobertura fotográfica do protesto | Coletivo Fora do Eixo

Uma vida ceifada | as bicicletas

A ciclista morreu na contramão, atrapalhando o tráfego | Sakamoto

A morte da menina que plantava árvores em São Paulo | o ((o)) eco

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13 Respostas to “ontem”

  1. Vivian Souza 03/03/2012 at 11:40 AM #

    Lindo relato Ana, com suas palavras revejo cada segundo passado na Paulista ontém… Não foi acidente!!!

  2. ana rüsche 03/03/2012 at 11:50 AM #

    oi, vivian,
    (que rápido o teu comentário – ainda estava editando o post, rs)
    puxa, nem sei, fiquei tão destroçada. muito triste tudo.
    um beijo

  3. Paula Pedrosa 03/03/2012 at 11:58 AM #

    Oi Pedalinas.
    Pedalo nessas ruas há mais de 20 anos. Quando vi as características da Julie, fiquei pasma. Sou bióloga, 33 anos, ciclista e moro nas redondezas da Paulista. Impossível não me reconhecer nela. Liguei pra minha mãe na hora avisando que não era eu.
    Ontem na manifestação encontrei muita gente que não via há tempos, devo ter visto vcs por lá, mas não conheço nenhuma pessoalmente. Todas sentimos muito, mas eu não me abalarei e continuarei a pedalar… pq amo… pq é liberdade… e tenho esperança que um dia as ruas serão mais seguras pra nós.
    beijos a todas pedalinas.

  4. Arie Storch 03/03/2012 at 12:12 PM #

    Arrepiei de ler. Não pude ir ontem, mas arrepiei mais ainda por saber que nos conhecemos de um Pedal Verde.

  5. Camila Oliveira 03/03/2012 at 12:20 PM #

    Emoção.. pedalo por ela, por nós.

  6. Anderson 03/03/2012 at 12:38 PM #

    Triste…quando acontece sempre penso podia ser eu,medo e revolta invadem a mente e o pesamento se transforma desta vez não fui eu,não foi acidente…foi crime, foi um igual a mim,será que conheço é um amigo uma amiga.. desespero medo…. corro em descobrir desta vez não é dos que conheço, porém ainda assim o coração dói porquê ? Por que é igual a mim, um “ousado” que resolveu pedalar no meio dos carros, e pagou com a vida, justamente por que acreditava num jeito diferente de se ver a vida! Hoje vou pedalar em silêncio e a lembrança que vou ter é , eu não conhecia a Juliana,o Antonio, o Manoel,o Fernando ,o Antonio,e a Marcia, mais que sei é eles acreditavam num jeito diferente de se viver, ver a cidade, de ser o trânsito.
    Juliana hoje você vai estar nas minhas orações, assim como todos os outros que ousarão a serem humanos, numa cidade que não nós quer aceitar……
    Não foi acidente !!!!!!!

  7. ogum777 03/03/2012 at 1:34 PM #

    belo post, sobre um motivo tão triste. é, ana, é tudo tão “quase” que às vezes o “quase” se esquece de aparecer no início da frase. descreveu bem o gosto amargo na boca. a noite insone. os olhos ainda vermelhos. é.. não há o que dizer, só descrever. tsc. hoje quantos não quase viraram notícia, como ela virou? é…

  8. Alvaro Sanção 03/03/2012 at 2:08 PM #

    Só para reconhecer lindo o relato, eu tb estava lá

  9. Anderson Prates 03/03/2012 at 2:27 PM #

    Mesmo sem conhecer a Juliana ao ler os textos e ver os videos me acabei em choros, Juh foi além de nossas pedaladas martinais, de fim de semana, ela foi pedalar no céu juntinho da Marcia Prado e deixar um milhao de pessoas com saudades

  10. Oswaldo Tobal 03/03/2012 at 2:50 PM #

    Conheci, Julie em 29/01/12, no Pedal Verde, que foi feito No Jardim Botanico. Poucos minutos que conversei com ela, notei no seu linguajar simples as suas perspectivas em relação ao meio ambiente, bem como a sustentabilidade como um todo. Tinha em seu projeto de vida, em função do Pedal Verde, grandes propositos com relação ao plantio de arvores em várias praças da cidade de São Paulo, como que um incentivo a nós leigos, que a unica salvação do meio ambiente são essas propostas a qual ela sempre foi uma ferrenha entusiasta.

    Enfim, mas, eis que num piscar de olhos sua vida foi tolhida de maneira brusca, deixando por concluir todos os projetos que ela sempre almejou, como uma biologa, que era.

    Para aquilo, que chamamos de “autoridades, ou poder público”, deste país, é simplesmente mais um numero que se agrega a quantidade de acidentes fatais, sem que se veja qualquer atitude.

    Para mim, que a conheci, bem pouco tempo, simplesmente saudades. Para seus familiares, que busquem em Deus o conforto que necessitam para superar tamanha a dor da perda

    Adeus Julie.

  11. Fabricio 03/03/2012 at 11:33 PM #

    Vamos continuar na luta pessoal. Nossos netos não terão que passar por isso.

    Descanse em paz, Julie.

  12. dododecdospedais 05/03/2012 at 6:59 PM #

    ……”Não sabia q havia mulheres andando de bicicleta!” Q comentário deprimente, lamento a morte desta jovem e bela moça! Mas ouvir este comentário idiota de um traseunte otário é D+! Espero q medidas sejam tomadas á favor de bós ciclistas!!!

Trackbacks/Pingbacks

  1. Mais um ciclista morto em Sao Paulo. Desta vez foi Julie « Shall I spell it? - 04/03/2012

    […] ontem […]

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