Expectativa era o que me tomava na semana anterior à viagem. Será que eu chego? Será que eu caio? Será que eu empurro? Será que dói? Eu não achava de fato que nada de ruim ia acontecer, mas era muita lacuna pra preencher (com doses absurdas de imaginação) a ansiedade e a empolgação pela minha primeira cicloviagem. Ainda que dissessem que era perto, que era tranquilo… Só iniciante pra saber dos receios e da empolgação de iniciante.
“Respira” era tudo que eu pensava no primeiro trecho, encarando a tensão na saída da marginal e transformando todo o medo em coragem e adrenalina. Me impressionei com que rapidez chegamos em Alphaville, onde cresci e que eu tinha como um lugar tão longe e fora de mão. Logo ali, ao alcance quase sem esforço das minhas pernas!
Fui me familiarizando com a bike, com o ritmo do pedal, a respiração, a paisagem mudando… E principalmente, com o quanto coisas aparentemente sutis se impõem e influenciam o caminho. As alças de acesso da estrada que parecem muito maiores, os ângulos da estrada e da paisagem que enganam a percepção do que é subida ou descida, as microtartarugas (olho de gato?) pra desviar a todo momento, microvidros que tiramos com pinça mas que podem furar pneus… Fatores externos que me mantinham sempre em contato com o que eu estava fazendo, o olhar atento, o corpo fluindo junto com a bicicleta. A cada km mais ritmo e mais conexão com ela, com o chão, com a estrada, com as meninas, com a paisagem e comigo mesma. Durante horas de reflexão e silêncio (intercaladas por paradas cheias de conversa boa. e viva viajar entre mulheres! ahahah), a descoberta de quanto o cansaço vem muito mais da cabeça do que das pernas; depende menos de resistência física do que eu pensava, e muito mais de tranquilidade e confiança do que eu poderia imaginar sem passar pela experiência.
No fim, uma euforia muito diferente da que eu senti no primeiro passeio que fiz com as Pedalinas (e meu primeiro pela cidade). Daquela vez, deslumbrada por descobrir que a bicicleta tem sim sua maneira de se encaixar e fluir na intensidade de SP. Dessa vez, uma ampliação grande de um entendimento que tenho cada vez mais da vida: de que temos muito mais sensibilidade e conexão com tudo à nossa volta do que estamos acostumados a perceber. E que ter essa percepção ativada não é mais do que um exercício constante e simples, que acontece cada vez mais naturalmente e que te faz descobrir muita coisa boa logo ali na sua frente.
Obrigadíssima, meninas, pela companhia e estímulo e risadas e remendo de pneus e hospedagem e horas de silêncio e conversas frenéticas. Até já!


