Arquivos de etiquetas: audax

Indo mais longe…

18 jun

Sábado passado rolou a Oficina Indo mais longe: pedal de longa distância e cicloviagens.

No Espaço Contraponto, as pedalinas Jeanne e Verônica mostraram como se planejar para encarar uma pedalada de maior quilomentragem como o Audax (onde inclusive algumas pedalinas estão hoje!) e também das cicloviagens, contando suas experiências e dando diversas dicas incríveis num bate-papo super descontraído e acolhedor.

Também recebemos integrantes do Meninas ao Vento, um grupo de mulheres que se deslocam pra cima e pra baixo (literalmente!) em Salvador. Essa troca de experiências é fundamental e muito prazerosa pra nós!

Para quem estava presente rolou um desafio: colocar toda a “tralha” que a Verônica levou pra demonstração nos alforges e montar tudo em cima da bicicleta!

A tralha toda…

e bora colocar tudo em cima da magrela.

Missão cumprida!

 

 

 

 

 

 

 

 

Um dos objetivos desta oficina foi planejar a primeira cicloviagem as Pedalinas, pra fechar o ciclo de oficinas que nós deu oportunidade de falar para mais mulheres e perceber que tem muita gente interessada em colocar a bicicleta no seu dia-a-dia.

 O destino escolhido foi Sorocaba, uma cicloviagem por caminhos já conhecidos de muitas meninas, um pedal tranquilo, onde faremos algumas paradas pra recuperar forças e contemplar o caminho.

A cicloviagem está marcada para dia 02 de julho. Até lá, sugerimos alguns treinos e vamos marcar alguns pela nossa lista de discussão, apareçam por lá meninas. Também vamos fazer uma revisão nas bicicletas e checar todos os detalhes na semana do nosso grande dia!

Acho que o planejamento da viagem faz parte do prazer de viajar, eu já estou vivendo tudo isso desde aquele dia (meu checklist já está pronto, haha!)

 Bora cicloviajar mulherada!
 

Meus primeiros 300km (Parte 3)

15 set

A noite, a estrada, o frio…

A volta foi a parte mais dolorosa, ouso afirmar que até ali tinha sido um passeio agradável e os 150km da volta equivaleram a 300km de verdade. Enquanto o sol se punha estava ótimo, a lua nascendo foi deslumbrante, pena que a máquina de foto estava morta. O frio começou a dar as caras e em seguida o vento contra queria me intimidar, coloquei o corta-vento novamente. No meio da noite uma amiga me ligou, a Diana, havia esquecido que eu estava no Audax e provavelmente ia me convidar para algum rolê, quando eu disse que estava nos 150km da volta ela ficou contente e desejou sorte, foi bom falar com alguém naquele momento de breu e deu uma reanimada.

Cheguei no PC3, o cara que disse que minha bike era de velódromo, bem no começo, estava lá, mas havia sido resgatado pelo carro no meio do caminho porque seus joelhos doíam, ele pediu repetidamente para eu desistir, eu resisti, ele ficou apavorado e ao mesmo tempo deslumbrado. A senhora gentil que carregava minhas coisas no carro também estava lá e disse que seu marido estava a caminho, que desistiu de desistir quando me conheceu no PC2, achei isso muito bacana. Não senti vontade de comer nada a não ser algo bem quentinho, uma sopa seria divina, mas a única coisa de quente que tinha era café puro, tomei uns goles e comi uma banana. Essa foi a parada mais rápida que fiz, 20min., as outras eu tinha descansado por 1h, mas sabia que meu ritmo ia diminuir consideravelmente nos últimos 75km e cada minuto que se passasse seria crucial para atingir a meta de chegar antes das 3h. da manhã.

Quando a madrugada chegou, meus dentes batiam de frio, eu tremia, por dentro do corta-vento não suava mais, passei por várias nuvens de neblina e, quanto mais eu pedalava, parecia que eu estava numa velocidade de pedestre, pois olhava nas placas achando que haviam passado 10km e eu completava apenas mais um. Quando eu pedalava em pé, o movimento central fazia um barulhão de máquina de lavar velha e o pedal dava um pulinho pra trás, comecei a ficar apavorada, afinal de repente a questão nem seria apenas se eu aguentaria, mas se a bike me deixaria na mão. As subidas e descidas pareciam não fazer mais diferença, o esforço era tão grande que agora era impossível tirar o pé do pedal, porque se eu tirasse, a bike parava. Decidi não olhar mais as placas para não desanimar, só olharia os km que eu estava de hora em hora, a partir dali. Apareceu um posto e fiz uma parada rápida lá, quando voltei a pedalar, me arrependi demais de ter parado, porque pedalando estava sim doendo tudo, mas ter parado e voltado os movimentos acentuou bem mais as dores, a lei da inércia é tudo!

Nos últimos 20 e poucos km, percebi uma iluminação forte atrás de mim, olhei de relance e achei que era um motoqueiro parado no acostamento, mas a luz não parava de me seguir, olhei de novo e me perguntei: “que diabos estaria fazendo um motoqueiro tão devagar atrás de mim”, fiquei bem desconfiada e apesar de saber a capacidade de uma moto, comecei a pedalar muito mais rápido, tirando forças de não sei onde. Logo parou um carro à minha frente e pessoas saíram dele, como que me esperando, reconheci o pessoal da organização e fiquei aliviada, quando cheguei, disse a eles que achava que uma moto estava me seguindo e estava com medo, eles riram e disseram que era apenas um velho ciclista tentando me alcançar, aquele que tinha desistido de desistir. Enquanto esperava ele chegar, o pessoal da organização me informava terem decidido me dar o certificado mesmo sem eu ter feito a inscrição, (será que eu podia por isso aqui?) por eu ter feito um esforço maior com uma bike inapropriada, e blás, mas que não valeria para os brevets porque eu teria que ter o certificado dos 200km primeiro, no entanto, ficaria como uma lembrança. Perguntaram se eu queria voltar de carro, se precisava de água, foram muito incríveis mesmo. Assim que eles saíram, umas lagriminhas começaram a descer no meu rosto, porque começava a me dar conta de que estava tornando realidade os meus 300km, fiquei emocionada com o que eles disseram para mim, como se eu fosse uma heroína, e estava mesmo começando a sentir um certo orgulho do que estava fazendo, não iria desistir por nada nesse mundo naquele momento.

Realização transcendental

Pedalamos, eu e o senhor juntos até o final nesses últimos km, e agora sim eu comemorava quando completava cada km, de tão difícil que estava. Quase nos perdemos chegando na cidade e então apareceu um senhor da organização de carro e nos guiou até a praça. Chegamos, às 02h55, como sempre eu estava em cima da hora, ainda não assimilava que tinha completado, só no dia seguinte me dei conta, pois estava muito exausta. O pessoal da organização que esperava na praça, nos parabenizou, agradeci todos os auxílios, peguei o resto das minhas coisas com a Eliane, esposa do ciclista. Ouvi a seguinte frase de um deles da organização: “Fazer 300km de fixa é coisa de macho hein, foi foda, parabéns!”, sabia que era uma boa intenção, um elogio que ele queria fazer, mas não resisti e disse que não era só de “macho” e eu estava ali como prova disso.

>300km depois... (Foto: Facebook do Audax)

E ainda ganhei uma carona até o hotel, porque não sentia mais minhas pernas, parecia que estava com pés de pato para andar. Mal aguentei subir as escadas do hotel, entrei no quarto, estava imunda, as meninas estavam dormindo, mas acordaram, perguntaram se eu havia conseguido e me parabenizaram, logo tornaram a dormir, hehehe. Tomei um banho dos deuses, deitei na cama com um sorrisão, achei que ia dormir no mesmo milésimo de segundo, mas apesar de estar imensamente esgotada, minha mente rodava todo o percurso de novo na minha cabeça como se fosse um filme e o corpo gritava de dor em qualquer posição na cama, depois de muito tempo consegui dormir um pouco.

no hotel, metade pra cima: imunda! (Foto: Jeanne-sonâmbula)

Acordamos, estávamos todas muito felizes, satisfeitas, e compartilhando as dores no corpo. Chamamos os meninos para almoçar conosco e fomos embora tod@s no mesmo ônibus.

vergão pra quê te quero (Foto: Bruno Gola)

Sentia uma auto-suficiência, determinação e uma capacidade para acreditar em mim, inéditas. Liguei para minha mãe para contar o feito, ela não deu a mínima, ainda disse que preferia um diploma da faculdade, mas não me abati pela primeira vez, de tão segura que estava, (ela tinha sido contra eu viajar pra Boituva desde o começo, me deixando tão pra baixo que quase desisti de ir) não deixei de me sentir feliz dessa vez; depois ela percebeu que me fez bem significativamente. Ela costumava me dizer, antigamente, que precisamos apenas de 3 “a” para sobrevivência: água, ar e alimento, e eu acrescento mais um: afeto, o restante são valores que criamos. => to pensando em tirar isso, ou uma parte da frase, não sei, acho que dá uma discussão grande e tá simplificado demais…

Bom, a “ferramenta” Audax como um passo inicial em meu tratamento, me fez dar uma grande avançada e fui progredindo depois disso, as mudanças foram também intensas, não é fácil conhecer a si mesm@, até porque mudamos constantemente, e continuo conforme meu ritmo, meu limite, como foi no Audax. Quando voltei a SP, a repercussão d@s amig@s foi tão maluca que me deixou tímida, e feliz, claro. É lindo pedalar, é transgressor e sublime, é descobrir autonomia dentro de si, é emancipador, é inspirador para a vida ser experimentada de novas formas e conhecer pessoas, é se perceber forte e frágil ao mesmo tempo, é completamente familiar e novo, é perceber além, é singular como cada gênero musical, é sedutor e é tesão, é quebrar mitos, objetiva e subjetivamente nos traz outros ares, e raramente é entediante, mesmo sendo o mesmo trajeto.

a fixa bike fixa

Reparei que entre eu e a bicicleta existe um cordão umbilical invisível, por isso estando com e sem qualquer companhia, por quaisquer caminho é sempre muito bom pedalar! Quando não pedalo, (como estou há várias semanas, tal como diz Dostoiévski, em Crime e Castigo, endomingada, devido a uma fratura) parece que estou deixando de alimentar meu corpo-mente de alguma necessidade vital. Como pensava há muito tempo em tatuar uma bike, mas esperava um motivo especial, além dos já conhecidos, achei que esse era o momento ideal, pois foi marcante, e semanas depois tatuei uma bike fixa. E me atrevo a nomear esse feito como meus “primeiros” 300km, porque não pretendo que seja o único, quero repetir a dose e quem sabe superá-la mais e mais. Que venham os próximos Audax! E outras cicloviagens, passeios, amizades, caminhos, descobertas, lutas, façanhas, ventos que acariciam os cabelos, aromas, dilemas, paisagens, sons, sabores, saberes, gentilezas, cores, etc. Pronto, acabei o relato, plin.

Meus primeiros 300km (Parte 2)

14 set

PC 2

O sol do meio-dia fritava até o meu DNA, então peguei meus óculos de sol, porque já me doía enrugar tanto o rosto para enxergar e os óculos quebraram sem eu entender como, mas tudo bem, pensei, “bola pra frente”. Logo imaginei que esse seria um momento propício para me distrair com as músicas, afinal como o aparelho tinha poucas horas de capacidade, guardei o uso dele para um momento difícil, e misteriosamente o salvador da pátria não estava querendo ligar, oh céus! Comecei a tirar fotos e inicialmente me distraí assim, no entanto, muito mais misteriosamente ela parou de funcionar, acho que a bateria não aguentou o sol, não sei, mas ela estava carregadíssima e não tinha tirado nem dez fotos ainda, hunf. Com tantas surpresas chatas, cheguei a me perguntar se tudo isso não seria um “sinal” para eu deixar a minha tentativa pra outra era, em outra vida.

Depois de passar por vários postos e não haver mais nenhumzinho, começa a me surgir uma vontade brutal de fazer xixi, tive de me enfiar num matinho, deixei minha bike encostada numa árvore e lá fui eu, agora, sim, me sentindo corajosa. Engraçado é que todo o percurso foi assim, os postos pelos quais eu passei, nenhuma vontade e depois de muitos km à frente deles… matinhos aliviadores.

Encarando o sol e a solidão, fui que fui, contemplando a paisagem, refletindo sobre a vida e os momentos ali, admirando meu corpo e minha escolha, me perguntando se um dia haveria respostas a todas as dúvidas que já tive – incluindo essa, poderia dizer que meditei, se não fosse os mantras que as buzinas dos caminhões berravam, sem pudores à audição alheia.

Antes de chegar no PC2, um ciclista na estrada do outro lado gritou, fazendo gestos para eu parar. Achei no mínimo curioso uma pessoa que já está fazendo os seus 150km da volta querer ajuda de alguém que ainda está indo. Parei, esperei ele atravessar as duas pistas, me perguntou se eu tinha algum remendo, disse que sim e lhe dei junto com minhas ferramentas, ele abriu um sorrisão e se desculpou por estar me fazendo esperar, mas eu teria carregado em vão essas parafernalhas caso ele não existisse no meu caminho, porque não precisei delas do começo ao fim, aliás: #infitasanti-furoIbelieveforeverandever! Quando o perguntei sobre os seus 300km, veja que inusitado, o moço nem sabia a quê eu me referia, disse que treina todos os dias uns 50km naquela estrada, ele é da cidade vizinha e até havia reparado na quantidade incomum de ciclistas por ali essa tarde, mas, como todos estavam com pressa e nenhum tinha remendo para emprestá-lo, ele não tinha tido ainda a oportunidade de saber o que estava acontecendo.

Cheguei ao PC2 com as costas em pedaços e super cansada daquele sol, não sentia vontade de comer nem beber nada, mas me forcei a tomar uns goles para não desidratar. Uma senhora, esposa de um dos participantes que ainda não tinha chegado ali, reparou que minha mochila de hidratação estava absurdamente pesada, de tanto carregar já tinha me acostumado, achando normal, mas ela insistiu para eu esvaziar um pouco, pois ela deixaria no carro dela e me entregaria no final, aceitei a gentileza dela e, nooooooossa, que diferença maravilhosa quando voltei a pedalar! Estava carregando milhões de gramas de guloseimas à toa, porque não sentia vontade de comer nada daquilo desde o PC1, pois, inclusive, comi muito mais as frutas do pessoal, mas deixei uma ou duas comidas, para garantir alguma urgência no meio do caminho. O marido dela chegou quando eu estava pronta para sair, desanimado, disse que ia desistir porque pegou gripe uns dias antes do Audax e sentia-se mal, porém quando se deu conta do tipo de bicicleta que eu estava pretendendo completar os 300km, ficou perplexo e me aconselhou a desistir também, porque segundo ele, eu não iria aguentar, ainda mais com as minhas “perninhas mixurucas” – denominação dele (só porque eu não tenho master músculos ciclísticos nas coxas será?), então eu disse que ainda sentia energia para continuar e iria tentar até sentir o contrário.

Meus primeiros 300km (Parte 1)

13 set

Nunca sei por onde começar, por isso protelei tanto esse relato, mas não digo apenas por este relato, como tudo, em geral, na minha vida. Talvez por uma dificuldade enorme de acreditar em mim, talvez por “esperar” apoio de pessoas importantes (meus familiares principalmente) que raramente concordam com minhas ideias e meus ideais, ou simplesmente por pensar demais em 500 possibilidades, hehehe…Bom, este aqui deve ser um começo. Devo avisar que minha noção de síntese não coincide com o sentido do dicionário. E que em alguns momentos pode conter emoções singulares, no entanto, dentro do meu contexto, fica impossível omiti-las.

o horizonte

Pré-Audax

Também não soube por onde começar e não houve planejamento algum. Afinal, já havia lido algo sobre o Audax e sabia que aconteceria no segundo semestre, mas minha cabeça estava tão confusa com meus problemas pessoais que não pensei mais nisso, era algo que tinha em mente participar, porém não cheguei a me programar. Muito repentinamente, e cá entre nós, num momento mais que necessário, surgiu um email informando que o evento seria dentro de uma semana.

Definitivamente eu pirei, – e dessa vez, num bom sentido – fixei meus pensamentos, energias, dinheiros e até conversas no “planejamento” de última hora. Confesso que devo ter ficado um pouco insuportável, mas as pessoas percebiam o brilho da minha vontade, algumas outras desconfiadas, encararam como mais uma tentativa autodestrutiva. O mais importante nesse passo inicial foi ter percebido uma oportunidade de fazer desse desafio não apenas um teste físico de ciclismo ou de resistência. Além dessas intenções interessantes, vi no Audax uma possível ferramenta complementar para o meu processo e projeto de tratamento para a depressão desesperadora que estava mergulhada há meses e estava me afundando rápida e intensamente, por isso me referi ao tempo que fui informada sobre o Audax ser muito oportuno, pois estava mesmo seguindo em uma direção negativa.

Todos os meus pensamentos ruins ficaram “aguardando na sala de espera”, enquanto me ocupei integralmente com as correrias pré-Audax. Precisei de muitos acessórios que eu não tinha, fiz as contas e percebi que se eu comprasse tudo ficaria lesada e então, tive a magnífica ideia de pedir emprestado a pessoas generosas alguns deles e outros eu acabei comprando mesmo:

-pneu mais grosso (só deu pra colocar na roda da frente ¬¬)
-comidinhas (acabei não comendo quase nada no final das contas)
-fita de guidão (feia)
-velocímetro (falho)
-fita anti-furo (urru!)
-short de performance (vergões nas coxas)
-ferramenta decente (um dia usarei)
-câmaras reserva (ainda vou precisar)
-pastilha de freio (tá lá)
-pilhas (ok)

Sem contar os dinheiros do hotel, passagens, happy hour…

E emprestado:

-bomba de ar (Célia)
-mochila de hidratação (André)
-luz dianteira (André)
-luz traseira (Edu e Jeanne)
-colete e bolsa de hidratação (Verônica)
-protetor solar (mamis)
-ipod (titio)
-capa-de-chuva (Salada)

(tenho que dar os créditos né…)

As luzes eram obrigatórias apenas para quem faria os 300km, não era certo de que iria tentar esse percurso, não treinei com antecedência, mas a vontade de me desafiar a isso era pulsante. Daí me veio a ideia (de girico) de comprar um velocímetro, pois poderia perceber se agüentaria mais de 150km e menos de 300km, então faria 200km por minha conta e como não havia essa marcação nesse Audax, meu velocímetro me indicaria o momento de voltar (que bagunça, deu para entender?). No final das contas ainda bem que não precisei dele, pois falhou na volta.

Enfim, me atrapalhei demais nessa semana pré-Audax porque além de ter que comprar muitas coisas em lugares diferentes e pegar os emprestados nas casas diferentes, havia os afazeres cotidianos. Apesar da correria danada e tudo em cima da hora, deu certo. Não foi diferente na sexta-feira, dia que teríamos de viajar, deixei muitos compromissos para a pobre sexta e chegou um momento que estava tão atrasada que bloqueei. Por um tempo não consegui fazer nada de tantos múltiplos medos e ansiedades, minha cabeça repetia: “não vou conseguir, não vai dar certo, melhor desistir, etc…” Minha mochila ficou hiper pesada, mas lá fui eu pedalando, desajeitada para a bicicletada, encontrar a Aline que já me ligava ameaçando de ir sem mim, para completar a minha agonia, hahaha. Chegando na bicicletada ofegante, a Aline ainda me diz para esperar porque o namorado da Jeanne estava vindo nos entregar o capacete que ela esqueceu, quase mastiguei a cabeça da Aline nessa hora, hahaha. Fomos pedalando muito felizes para a Barra Funda e compartilhando as ansiedades. Chegamos antecipadas e de tão pilhadas que estávamos, colocamos as bikes no ônibus errado.

A largada

Quando chegamos em Boituva sentimos um friozinho na barriga (do tipo, pronto estamos aqui e agora?) e um sorriso largo abrimos quando nos olhamos, daí fomos pedalando até o hotel. Encontramos a Jeanne e por incrível que pareça ela estava ansiosa também, que coincidência, hahaha. Nenhuma estratégia nos ajudou a aliviar a ansiedade, nem “vaca-amarela”. Estávamos fora de controle e de tanto conversar, em alguma hora bem tarde da madrugada, acho que cochilamos finalmente.

Pela minha percepção se passaram apenas alguns míseros minutos esse cochilo e logo quando abri os olhos, a pilhada da Aline estava no banho! E do outro lado a companheira Je balbuciava algumas palavras que não entendi. Estava frio e deu preguicinha de levantar, nem estava clareando ainda. Mas me senti intimidada a levantar quando a Je levantou e em seguida começou a yogar, pensei: “preciso disso!”. Ela muito opostamente a Aline estava aparentemente calma e relaxada, claro que era só aparência, então nós decidimos imitar os movimentos dela e nos alongar. Foi muito precioso! Tomamos café-da-manhã, checamos se nada faltava e voamos até a praça.

Lá encontrei os outros amigos, mas como estávamos todos tão agitados, não deu para papear muito. Achei que a organização teria que checar os meus equipamentos mesmo sendo “pipoca”, ou seja, não inscrita, mas não precisou. Quando vi todo mundo saindo, pensei: “ih, caramba, já?”. Lenta até para pensar, como sempre, fui uma das últimas a sair. A Je me deu um isotônico e super inteligentemente coloquei no elástico da minha bolsinha de guidão, assim que comecei a pedalar, com ela e com o Márcio gentilmente dando algumas dicas, a garrafinha caiu e saiu rolando em outra direção. Pedalei em busca dela e quando me voltei para a rua: “oh-ow, cadê todo mundo?”. Nem sabia em qual pista foram, e os pedestres que passavam por mim comentavam sem piedade “Corre moça, todo mundo já passou faz tempo!”. Peguei o mapa, entendi errado, mas fui certo. De repente me dou conta de que estava indo errado pelo que eu havia entendido do mapa. A neblina era tão intensa que não dava para ver ciclista em lado algum da estrada. Então fiquei na paranóia de que precisava voltar porque estava errada. Voltando, parei num posto e perguntei se haviam visto ciclistas passarem por ali, disseram que sim, rezei muito para ser verdade isso e continuei pelo mesmo caminho que tinha voltado um pouco. Que confusão! Depois de um tempinho pedalando já me deparo com alguns ciclistas consertando seus pneus, ufa!

Mais a frente encontro a Je parada, colocando seus fones e contemplando a paisagem, parei, trocamos algumas palavras e segui em frente, o sol nascendo e eu pedalando-despertando, que sensação! Depois de um tempo, ouço um grito: “Sarinhaaaaa!”, quando olhei para o lado era a Aline num posto, dando tchauzinho, não sei como ela me reconheceu de longe. Continuei, o sol começava a apertar, assim que passei por um pedágio decidi fazer uma parada para tirar o corta-vento, nesse momento a Aline chegou e também decidiu fazer uma parada, comemos, conversamos e lubrificamos a corrente. Voltamos a pedalar e fomos juntas até o PC1 a partir disso, sem nos forçar a manter o mesmo ritmo, estávamos mesmo em sincronia, foi a parte mais gostosinha do meu percurso. Tiramos fotos, cantamos, gritamos, filmamos, interagimos com outros ciclistas, demos muitas risadas, tudo sem parar de pedalar.

eu e Aline (foto: Facebook do Audax)

Numa descida um speedeiro passou por mim e me informou: “Você não precisa ficar pedalando na descida mocinha, é melhor economizar suas energias.” Respondi: “No meu caso preciso sim, minha bicicleta não me dá outra opção, hehehe”, ele olhou com um ar de dúvida eu pedalando e depois de uns minutos, muito surpreso: “Nossa, a sua bike é de velódromo! Você é corajosa, não é boa pra esse tipo de coisa, porque não veio com uma de marcha?”, expliquei que gostava da minha bike assim, quando ele soube que estava cogitando tentar os 300km então… Mas de fato, comecei a não pedalar mais nas descidas e apoiava os pés no quadro.

Chegou uma subida árdua justamente quando o sol não estava mais nem um pouco carinhoso, era a primeira vez que estava usando a bermuda de performance e posso dizer que não me aliviou muito, a minha virílha parecia ter vontade de fugir do meu corpo!

Finalmente no PC1, por volta das 11h., a organização foi gigantescamente solícita, me ofereceram tudo como se eu fosse uma digna participante, mas a verdade é que eu era clandestina e eles sabiam. Encontramos o Gola, o Leandro e o Shadow num descontraído picnic. O Denis, da organização, ficou indignado por eu e o Gola estarmos de bicicleta fixa, perguntou onde costumo treinar e a Aline, muito bondosa, respondeu que no bar do Pedrão, hehehe.

Aline e eu

Enquanto ela enchia seu pneu, disse a ela: “Amiga, me sinto bem para tentar os 300km, acho que vamos ter que nos separar aqui, não quero voltar agora”. Nesse momento o caminho não seria mais o mesmo para quem faria cada tipo de percuso e ela estava inscrita para os 150km. Ela implorou para eu mudar de ideia, dizendo que era loucura, que ela ficaria preocupada e etc. O Gola falou com aquela calma dele: “_Deeeeixa ela, qualquer pepino a organização pega ela de carro, deixa ela tentar, de boa.” e a Aline ainda que com um ar de mãezona concordou. Apesar de ter tentado me ludibriar com um caminho hipotético, que seria o mesmo que o dela inclusive, eu já estava bem atenta com os mapas e realmente me separei da safadinha. Não me sentia completamente segura nesse novo rumo, mas me alegrava ao pensar na imensa ousadia que estava prestes a cometer, e muito mais se ela desse certo.

Audax das superações

17 ago

Depois de entender um pouco a dinâmica do Audax (desafio de longa distância), com ajuda do relato emocionante da Jeanne, vou falar como as coisas aconteceram pra mim!

Já tinha feito o desafio 100km em Holambra, não foi fácil, a altimetria era bem pesada e eu nunca tinha pedalado tanto tempo sem parar. Mas foi apaixonante e a grande lição que se pode tirar do audax é o auto conhecimento. Quando surgiu a oportunidade de fazer os 150km, a empolgação bateu e não pensei duas vezes: PÉ NA ESTRADA!

Controlar a ansiedade é a primeira grande chave. E não digo apenas às vésperas da prova. A semana que antecedeu o Audax foi assim, entre medos e alegrias, ansiedade e incerteza, noites mal dormidas e fome (ou falta dela) incontrolável.

Saber o que comprar pra bike, o que levar na viagem, revisar a magrela, enfim, tudo era decidido pensando na alta quilometragem que teriamos que enfrentar. E todas as escolhas influenciariam DIRETAMENTE na sua performance.

Não preciso nem falar como foi na véspera ne? Eu e Sarinha chegamos quase meia-noite em Boituva, na sexta, depois de curtir um pouco a bicicletada. Mesmo sabendo que no outro dia teríamos que estar pedalando lindas às 7h da matina.

Ao desembarcar em Boituva a primeira otima sensação foi de liberdade. Descer do onibus, pegar a bicicleta e sair pedalando foi SENSACIONAL. Autonomia, independencia!! Chegando no hotel tivemos a certeza de que aquela noite seria longa, longa, loooooooooonga… a Jeanne ainda estava acordada, empilhando roupas, arrumando as comidas!!!

Não dormimos quase nada. A ansiedade e nervosismo não deixaram. Às 4h da madrugada levantei e já tava no banho. Logo depois as outras meninas também levantaram e fizeram uma sessão incrivel de yoga, lá no quarto mesmo. Foi sensacional. Ajudou a alongar os músculos e preparar corpo/mente pra aquele dia que tinha tudo pra ser inesquecivel.

Na concentração sentimos um pouco mais de tranquilidade e conforto ao rever os amigos. A energia que emanava pedia pra pedalarmos logo. Até que finalmente partimos!! E aos poucos aquelas sensações do começo foram passando e dando lugar a outras. A magia das primeiras pedaladas anunciava a solidão que seguiria dali em diante.

Sim! Pedalamos sozinhas. Cada um no seu ritmo, sua pegada, sua velocidade, sua bicicleta!

Assim que foi dada a largada o frio na barriga se espalhou pro corpo inteiro. Mas não era psicológico, tava frio de verdade! Perfuramos uma neblina linda e passamos dentro dela por uns bons minutos… frio frio frio, fumacinha na boca e dedos congelando!

Cheguei a colocar até meu corta-vento mas logo tava pingando de suor. Alguns quilômetro pedalamos em grupo, conversando, filmando o caminho, tirando fotos do visual que era incrivel. Mas a solidão era o destino e foi assim grande parte do percurso.

Vez por outra trombava com algum ciclista consertando pneu e era impressionante ver a solidariedade das pessoas, ninguém negava ajuda. A estrada tinha muito restos de asfalto, pedrinhas e arames, um desafio pedalar assim.

Os 75km iniciais foram de reflexão, solidão, nostalgia e paisagens exuberantes. Pensava muito nos outros audaciosos. Onde estariam? Será que tava tudo bem? E a Jeanne, desistiu? Mandava mensagem no celular e ninguém respondia. Silêncio, silêncio, silêncio!

De repente eu e a Sarah estavamos pedalando juntas! Deu uma energia boa ter com que compartilhar as sensações. Chegamos no 1ºPC umas 11h da manhã, lá encontramos outros amigos e descansamos um pouco antes de partir rumo aos outros 75km de prova.

Até que Dona Sarah decidi não mais fazer 150km e sim os 300km!!! Fiquei assustada, pedi por tudo pra ela não ir. Em vão. A menina tava decidida e não tinha jeito de fazê-la voltar atras! E ela foi…. Foi com a Pantera (sua bicicleta de roda fixa).

Eu já estava na metade do Desafio, tranquila, mas mal sabia o que me esperava pela frente! As descidas viraram subidas, o sol rachava a cuca e o vento era adversário, pois assoprava contra a gente! A pedalada foi mais cansativa, mas nao menos legal. Sem a preocupação do tempo, eu e outros amigos pudemos apreciar a paisagem, parar pra tirar mais fotos e até um super picnic incrível.

Avistar a placa “Boituva 5km” deu um gás fenomenal. Na minha cabeça só pensava que aquela era a distância que fazia todos os dias, então ia chegar logo (isso não funciona sempre, pois esses 5km demoraram uma eternidade).

Concluir o Desafio 150km foi lindo, emocionante. Mas ver as amigas, Jeanne e Sarah, superando os próprios limites foi inexplicável. A primeira não pedala tanto depois que foi assaltada, ficou com trauma mas nao desistiu da bike. Completou o desafio no seu ritmo e com muito louvor! A segunda fez os 300km com uma bicicleta considerada ‘imprópria’ para o tipo de evento e mostrou que o limite está na cabeça de cada um. Chegou às 3h da manhã, dentro do tempo máximo e recebeu mil elogios (mesmo quem a chamou de maluca assumiu que isso também era um elogio, me incluo nessa).

Só sobraram ótimas histórias e muitos vídeos (em breve disponibilizo). Só tenho a agradecer aos organizadores pela disposição e aos amigos pela energia.

O próximo acontece nesse final de semana (dia 21/08) e terá o desafio 150km e os 400km - pra quem fez os 300km e tem brevet. Mais informações aqui

Eu ficarei esperando a etapa de 200km,super ansiosa e já com muito frio na barriga

Fotos minhas, do Bruno Gola e da Sarinha

.

Garotas audaciosas

16 ago

Ramona em seu primeiro Audax

Pedalar 150 km. A aventura parecia grande demais para mim. Afinal, não sou atleta; desde que retomei a bicicleta, há quase dois anos, que eu a associo a meio de transporte, e não a exercício físico. Sedentária a vida toda, se me perguntassem há dois anos se um dia eu estaria fazendo o Audax, que é uma prova não-competitiva de bicicletas, em que o objetivo é chegar dentro de um determinado tempo, eu diria que era loucura. Aliás, se me perguntassem isso há três meses, eu provavelmente ainda diria que era loucura, que não tinha preparo físico, que fico sem fôlego nas menores subidas… Nessa época, Audax já era algo que eu até pensava em fazer, mas sabe lá quando, se resolvesse treinar e tal.

Mas aí mudei pra Minas. Lá, comecei a fazer yoga, o que me rapidinho me deu mais flexibilidade, força, capacidade respiratória… E, principalmente, algum conhecimento do corpo (éramos quase ilustres desconhecidos até então). Eu estava me sentindo melhor, com mais capacidade física, e psicológica também (em longas distâncias, serenidade é o que importa; quem entende diz que a maior barreira é mental, e na prática a gente vê que é isso mesmo).

Aí, quando voltei a São Paulo para o emprego atual, a duas semanas do Audax, Odir começou a botar pilha, dizendo que fazer o Desafio 150 em Boituva, na Castelo, seria mais fácil que fazer o Desafio 100 em Holambra, na serra, o que alguns amigos já tinham feito. (Os Desafios são a parte mais fácil do Audax: são uma espécie de treino ou aperitivo para os brevets, que começam mesmo a partir de 200km, os quais são pré-requisito para os 300 km, que são requisito para os 400km, 600km…). Disse que a altimetria (leia-se: quantidade de subidas estafantes) seria bem mais fácil, que o trecho era praticamente plano, que o acostamento da Castelo era largo, os caminhões passavam lááá longe, e blá blá… Tanto ele disse que o negócio começou a parecer possível. E aí pensei: posso não dar conta de 150 km, mas 75 km, talvez… E pensei em ir com o objetivo de fazer metade da prova, para ver como era. Chegando na metade, eu avaliaria: se estivesse bem, voltaria de bici; se não, pegaria um ônibus para voltar até a cidade e abriria uma cerveja pra celebrar, pois o feito já estaria de bom tamanho para o meu preparo.

Paradinha no ponto de ônibus na Castelo

E aí, sabe a música dos Beatles, With a Little Help From My Friends? Foi assim. Márcio e sua confiança inabalável de que tudo daria certo; Odir sócio da Duracell, botando pilhas e pilhas pra animar; Gola imprimindo termo de compromisso, me emprestando a playlist para carregar o iPod, que foi emprestado pela Talita; Lê Biazon comprando o colete refletivo antes, e gente experiente como Mig e Silas dando dicas pra lá de preciosas; Edu levando capacete pra Aline trazer pra mim na Bicicletada, porque eu esqueci (!)… Até gente que eu nem conhecia muito foi incrível comigo, como Lucas, professor da academia que fez um treino emergencial de bike pra eu ganhar mais confiança em ir para a prova [eu passei muitas horas em cima da bicicleta da academia naquela semana]; o Gomes, taxista-ciclista indicado pelo Cleber Anderson, o qual aliás fez o bike fit e me recomendou colocar um pedal com clip, duas coisas salvadoras para a prova. Yes, I get by with a little help from my friends.

Cartaz

Tive pouco tempo para me preparar: uns 10 dias. Fiz o treino emergencial na academia, bike fit na bicicleta, para deixá-la com as medidas certinhas para mim, coloquei o pedal com clip de um lado e do outro normal, comprei as coisinhas que precisava, emprestei as outras… E foi isso.

Na semana da prova, dormi cada dia menos horas. Percebi que o lance do psicológico influenciar não é apenas na hora da prova, é antes também. Estava tão ansiosa que mal conseguia dormir. Na quinta-feira, dormi quatro horas. Na sexta, apenas três. De puro nervosismo.

Na véspera da viagem, me atrapalhei de várias formas diferentes. Ansiedade, ansiedade. Pouparei os detalhes. Basta dizer que eu deveria pegar o ônibus das 16h15 com o Márcio na rodoviária da Barra Funda, e que às 15h eu ainda estava na bicicletaria tentando desmontar a bicicleta para colocar em um mala-bike que o Lindóia muy gentilmente me emprestara, mas que era pequeno demais para a Ramona e eu não testara antes. Em vez de apenas tirar a roda e colocar no táxi… Mas nããão, eu tinha que tentar do jeito mais difícil. Rodei a cidade com o taxista-ciclista gente boa, perdi o ônibus das 17h e só consegui embarcar às 18h30. Sem capacete. [O bonezinho pra colocar embaixo e não suar o cabelo eu lembrei de pegar]. Três itens obrigatórios na prova: colete refletivo, pisca e CAPACETE. Fora a bicicleta. Enfim. Ele foi entregue pelo Edu para a Aline, na Bicicletada, e chegou em Boituva horas depois.

Depois da pizza de confraternização, já em Boituva, tentei dormir cedo, mas não deu. Ansiedade pulsando. Com o TOC que desenvolvo nessas horas, fiquei dobrando e arrumando as roupas, enfileirando as comidinhas, arrumando as coisas, enfim, até as meninas chegarem. Elas também estavam ansiosas, e fomos dormir por volta de uma da manhã, apenas. Às quatro e meia, uma delas levantou para ir ao banheiro, a outra achou que já era hora de acordar e aí já levantamos. Ninguém estava conseguindo dormir mesmo, afinal. Fizemos alongamentos de yoga, o que foi ótimo, tomamos café no hotel e fomos para a vistoria, que era às seis da manhã, na praça. Lá descobri a existência do bretelle, um dia inesquecível na minha vida. Agradeço ao Silas pela graça alcançada.

Finalmente, 7h20, partimos. Já na saída da cidade, uma neblina incrível, linda, emocionante. Eu pedalando ao lado de Márcio e vendo a emoção dele, me contagiando com o jeito dele de encarar a prova, uma coisa quase espiritual. Ele me avisou para não ficar nervosa se ficasse sozinha, que Audax é uma prova solitária, que cada um vai no seu ritmo. Mais um pouco de papo, ele viu que eu estava bem e foi num ritmo mais rápido, afinal, tinha 300 km para pedalar, enquanto eu ia devagar e sempre pedalando rumo aos meus 75, hehe.

Caminhão na Castelo. Acostamento era largo

Logo fiz a primeira paradinha, afinal, tinha esquecido de colocar o iPod. Aí tem que parar e colocar, na estrada não é quem na cidade, você vai pedalando e pedalando nonstop. Sem semáforos! Sem carros tirando finas de você! Uma delícia que só. Toda hora eu parava pra arrumar o fone que caía ou algo assim e alguém da organização parava pra perguntar se estava tudo bem; eles são super atenciosos. Logo no começo, fui ultrapassada pelos outros ciclistas. E minha prova foi se tornando solitária como Márcio previra: eu no meu ritmo, ouvindo as músicas (algumas escolhidas por mim, algumas “emprestadas” pelo Gola, que subiu sua playlist na véspera, já que eu não tivera tempo de uploadar tantas horas de trilha sonora).

De repente, olho para o céu azul, azul, azul (estava um dia besta de tão bonito), e o que vejo? Um balão! Colorido! Pensei: entrei em um cartão postal e não me avisaram, em um papel de carta, não é possível uma coisa dessas. Boituva é região de balonismo, e em um dia com tempo bom como aquele, não é difícil ver balões, descobri depois. Mas na hora, eu estava desbundada. Estava achando tudo lindo e maravilhoso. Fiz uma parada na ida, na beira da estrada mesmo, debaixo das árvores, uma espécie de piquenique. (As comidinhas eu levei na pochete, um sistema que copiei do Mig, com quem concordo em várias coisas, excetuando a beleza inerente dos capacetes).

O Odir tinha falado a verdade: acostamento largo, caminhões passando longe, altimetria fácil. A única subidinha maior para o pessoal do 150 era chegando ao PC, o ponto de parada na metade do caminho, mas eu estava esperando por ela, fui bem tranquila, sem pressa. [Odir só esqueceu de avisar que os caminhoneiros buzinam pra cumprimentar e a gente quase morre do coração. Até acostumar com aquilo... Vou lançar a campanha "Caminhoneiro, cumprimente mentalmente!" Ou com luzes. Sei lá]. Foi chatinha, mas subi. Cheguei no PC faltando um minuto pra ele fechar, segundo a moça. Eles estavam me esperando, pois o Gola tinha dito que eu demoraria mas chegaria – fui a última a chegar, no meu ritmo tartaruga ninja. Mas cheguei. Comi pãezinhos da organização, tomei gatorade, bebi água, conversei, recarreguei as baterias. Estava me sentindo ótima. E decidi voltar pedalando.

A volta não foi um passeio no parque como a ida. Para começar, apesar de ser descida, o vento estava contra, o que é sempre um inferno. Mas se na ida estava a favor, na volta provavelmente estaria contra, aprendi. Aliás, segundo The Complete Book of Long-Distance Cycling, o vento está atrapalhando o ciclista de alguma forma em 60% do tempo, então tem que acostumar, não tem jeito. Logo no começo, desregulei o ciclocomputador, achando que algo tinha entrado na roda (na verdade o barulho que eu estava ouvindo era a corrente seca chiando, faltou levar um finish line básico). Não consegui arrumar, ainda não sabia como, e fiz toda a segunda metade sem saber minha média de velocidade. Alta não foi, considerando que cheguei já era mais de 20h, que fui ultrapassada por um pedestre (hehe) e que o vento contra tornava até as descidas algo complicado. Mas fui indo.

Foto da estrada. Cortesia Audax Brasil

Em dado momento, minha segunda caramanhola vazou em cima da mochila no bagageiro. Mas não quis parar pra pegar água em nenhum posto. A razão: estava escurecendo muito rápido e eu já tinha percebido que meu frog, que era a única iluminação dianteira que eu tinha, não daria para iluminar a estrada. Como eu não tinha pensado que pedalaria à noite, não tinha providenciado uma lanterna potente, que nem as que eram obrigatórias para o pessoal do 300. Então eu queria pedalar o máximo que eu conseguisse enquanto houvesse luz.

Não que tudo fosse desvantagem nesse cenário. Em certo momento, apareceu a maior lua cheia que já vi na vida no topo de uma montanha. Parecia recortada no photoshop, uma coisa fabulosa. Eu olhava e pensava “waaal”. E tentando ir rápido… Quando completei 135 km, escureceu de vez. Não dava pra enxergar um palmo do chão. Com aquela lua estonteante, daria para ver o chão, mas como havia os carros passando com faróis ligados, o olho não tinha tempo de se acostumar à luz da lua apenas, de modo que era apenas o breu que se enxergava. Assim, liguei para a Aline – o papel com o telefone da organização derretera na mochila quando a caramanhola vazou –  e avisei que estava sem luz. Ela perguntou se eu queria que me buscassem. Respondi que não: eu queria que, se possível, alguém me levasse uma lanterna, porque agora que faltavam só 15 km eu queria completar aquela p****. [É, gastei meu mais refinado francês naquele momento, heh]. “E aproveita e manda uma garrafa de água porque eu fiquei sem lá atrás”, falei pro Gola, quando soube que a organização tinha liberado que ele fosse de carro levar uma lanterna para mim, de carona com o Flávio, um speedeiro que tinha saído fora do 300 por ter furado 4 câmaras e 2 pneus. [Shadow emprestou a caramanhola, hehe, e as lanterninhas eram do Joel]. Até o Gola chegar, uns 40 minutos, fiquei fazendo yoga no acostamento, pra passar o medinho, alongar e tal. Ele chegou eu estava em Baddha konasana, a postura da borboleta.

A passagem deles foi rápida: lanterna instalada com engasga-gatos, géis doados pelo Flávio, 976.437 palavras faladas por mim (a adrenalina me deixa, digamos, comunicativa), caramanhola na bike e eles foram embora. Eu segui pedalando. Faltando 5 km para completar a prova, tomei um belo tombo em uns cascalhos, que surgiram na minha frente do nada. Segundo Mig, era uma gangue de cascalhos, que ficou escondida atrás de uma árvore esperando para atacar donzelas indefesas… :P Fato é que juntando cansaço, clip, cascalho, noite, estabaquei-me. Primeiro achei que tinha perdido a lanterna, logo soltei um ufa!, por ver que não. Depois, me apavorei porque fui sentar na bike pra seguir pedalando e – cadê selim? Estava torto, com bagageiro e tudo. Desentortei, e o bagageiro começou a pegar na roda. Na hora, fiquei aflita e não atinei em como arrumar aquilo. Fiquei esperando alguém do 300 passar pra me ajudar (uns dois dos mais rápidos já tinham passado por mim, vejam só que ligeirinhos eles são). Meia hora depois passa um cara, pergunta se tá tudo bem e passa reto, mesmo comigo sinalizando loucamente que NÃO estava. Juro que achei que ele ia passar direto, mas creio que ele se arrependeu, pois ele voltou e me ajudou a consertar o bagageiro e subir o banco pra que eu pudesse completar a prova; no fim ele foi bem bacana. Até perguntou se eu queria companhia pra terminar a prova, mas eu é que não ia prender o rapaz, que claramente estava a fim de completar rápido. Agradeci e disse que ele podia ir, o que ele fez mais que depressinha, e segui, ainda meio abobada.

Mostrando o bagageiro torto para a Aline

Os últimos 5 km foram nesse susto do tombo. Parei ainda uma vez em um posto, para dar uma lavada no rosto, tirar a poeira geral, descansar pela última vez, dar uma ajeitada na cara de choro (sim, chorei de susto. Ri, chorei, gritei, cantei, tudo muito emocionante nesse Audax; é uma coisa de auto-crescimento, de auto-desenvolvimento nesse sentido). Dei um up no visu e segui para os dois-últimos-finalmente-quilômetros. Entrei na cidade com a energia ainda meio caída, por causa do tombo. Mas tudo mudou quando vi a galera na praça, fazendo festa porque eu tava chegando. Foi tão bacana eles estarem ali! Audax é talvez a única prova de ciclismo em que quem chega por último é mais celebrado do que quem chega em primeiro, porque conseguiu. Recebi mil congratulações. Não consegui completar os 150 km nas dez horas que eram as estipuladas, fiz em mais de treze; em compensação, consegui completar. E o dobro do que eu tinha me proposto, que eram os 75 km. Fiz sem me acabar, no meu tempo, e foi muito legal.

Vi que consigo ficar muitas horas em cima da bici sem surtar. E que se eu consigo fazer isso, consigo fazer praticamente qualquer coisa. Foi um marco, uma coisa incrível. Dali já mandamos uma cervejinha, um janta gostosa, um papo com os amigos, cada um contando como foi a sua experiência audaciosa… Outras duas Pedalinas, Aline e Sarah, têm histórias pra contar aqui no blog. Aline fez o 150 no tempo, na maior tranquilidade, com o pé nas costas. É a capitã do time pedalino. Sarah fez o 300 de fixa, e completou no tempo! Poucos fazem o que essas mulheres fazem. São garotas audaciosas. E por ter sido tão legal é que dia 21, semana que vem, estou indo de novo, fazer mais uma vez o Desafio 150. Vou ver que emoções o percurso de Boituva me reserva dessa vez. ;)

Gola me filmando na chegada. Reparem na curvatura da coluna cansada, hoho

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 120 outros seguidores

%d bloggers like this: