Nunca sei por onde começar, por isso protelei tanto esse relato, mas não digo apenas por este relato, como tudo, em geral, na minha vida. Talvez por uma dificuldade enorme de acreditar em mim, talvez por “esperar” apoio de pessoas importantes (meus familiares principalmente) que raramente concordam com minhas ideias e meus ideais, ou simplesmente por pensar demais em 500 possibilidades, hehehe…Bom, este aqui deve ser um começo. Devo avisar que minha noção de síntese não coincide com o sentido do dicionário. E que em alguns momentos pode conter emoções singulares, no entanto, dentro do meu contexto, fica impossível omiti-las.

o horizonte
Pré-Audax
Também não soube por onde começar e não houve planejamento algum. Afinal, já havia lido algo sobre o Audax e sabia que aconteceria no segundo semestre, mas minha cabeça estava tão confusa com meus problemas pessoais que não pensei mais nisso, era algo que tinha em mente participar, porém não cheguei a me programar. Muito repentinamente, e cá entre nós, num momento mais que necessário, surgiu um email informando que o evento seria dentro de uma semana.
Definitivamente eu pirei, – e dessa vez, num bom sentido – fixei meus pensamentos, energias, dinheiros e até conversas no “planejamento” de última hora. Confesso que devo ter ficado um pouco insuportável, mas as pessoas percebiam o brilho da minha vontade, algumas outras desconfiadas, encararam como mais uma tentativa autodestrutiva. O mais importante nesse passo inicial foi ter percebido uma oportunidade de fazer desse desafio não apenas um teste físico de ciclismo ou de resistência. Além dessas intenções interessantes, vi no Audax uma possível ferramenta complementar para o meu processo e projeto de tratamento para a depressão desesperadora que estava mergulhada há meses e estava me afundando rápida e intensamente, por isso me referi ao tempo que fui informada sobre o Audax ser muito oportuno, pois estava mesmo seguindo em uma direção negativa.
Todos os meus pensamentos ruins ficaram “aguardando na sala de espera”, enquanto me ocupei integralmente com as correrias pré-Audax. Precisei de muitos acessórios que eu não tinha, fiz as contas e percebi que se eu comprasse tudo ficaria lesada e então, tive a magnífica ideia de pedir emprestado a pessoas generosas alguns deles e outros eu acabei comprando mesmo:
-pneu mais grosso (só deu pra colocar na roda da frente ¬¬)
-comidinhas (acabei não comendo quase nada no final das contas)
-fita de guidão (feia)
-velocímetro (falho)
-fita anti-furo (urru!)
-short de performance (vergões nas coxas)
-ferramenta decente (um dia usarei)
-câmaras reserva (ainda vou precisar)
-pastilha de freio (tá lá)
-pilhas (ok)
Sem contar os dinheiros do hotel, passagens, happy hour…
E emprestado:
-bomba de ar (Célia)
-mochila de hidratação (André)
-luz dianteira (André)
-luz traseira (Edu e Jeanne)
-colete e bolsa de hidratação (Verônica)
-protetor solar (mamis)
-ipod (titio)
-capa-de-chuva (Salada)
(tenho que dar os créditos né…)
As luzes eram obrigatórias apenas para quem faria os 300km, não era certo de que iria tentar esse percurso, não treinei com antecedência, mas a vontade de me desafiar a isso era pulsante. Daí me veio a ideia (de girico) de comprar um velocímetro, pois poderia perceber se agüentaria mais de 150km e menos de 300km, então faria 200km por minha conta e como não havia essa marcação nesse Audax, meu velocímetro me indicaria o momento de voltar (que bagunça, deu para entender?). No final das contas ainda bem que não precisei dele, pois falhou na volta.
Enfim, me atrapalhei demais nessa semana pré-Audax porque além de ter que comprar muitas coisas em lugares diferentes e pegar os emprestados nas casas diferentes, havia os afazeres cotidianos. Apesar da correria danada e tudo em cima da hora, deu certo. Não foi diferente na sexta-feira, dia que teríamos de viajar, deixei muitos compromissos para a pobre sexta e chegou um momento que estava tão atrasada que bloqueei. Por um tempo não consegui fazer nada de tantos múltiplos medos e ansiedades, minha cabeça repetia: “não vou conseguir, não vai dar certo, melhor desistir, etc…” Minha mochila ficou hiper pesada, mas lá fui eu pedalando, desajeitada para a bicicletada, encontrar a Aline que já me ligava ameaçando de ir sem mim, para completar a minha agonia, hahaha. Chegando na bicicletada ofegante, a Aline ainda me diz para esperar porque o namorado da Jeanne estava vindo nos entregar o capacete que ela esqueceu, quase mastiguei a cabeça da Aline nessa hora, hahaha. Fomos pedalando muito felizes para a Barra Funda e compartilhando as ansiedades. Chegamos antecipadas e de tão pilhadas que estávamos, colocamos as bikes no ônibus errado.
A largada
Quando chegamos em Boituva sentimos um friozinho na barriga (do tipo, pronto estamos aqui e agora?) e um sorriso largo abrimos quando nos olhamos, daí fomos pedalando até o hotel. Encontramos a Jeanne e por incrível que pareça ela estava ansiosa também, que coincidência, hahaha. Nenhuma estratégia nos ajudou a aliviar a ansiedade, nem “vaca-amarela”. Estávamos fora de controle e de tanto conversar, em alguma hora bem tarde da madrugada, acho que cochilamos finalmente.
Pela minha percepção se passaram apenas alguns míseros minutos esse cochilo e logo quando abri os olhos, a pilhada da Aline estava no banho! E do outro lado a companheira Je balbuciava algumas palavras que não entendi. Estava frio e deu preguicinha de levantar, nem estava clareando ainda. Mas me senti intimidada a levantar quando a Je levantou e em seguida começou a yogar, pensei: “preciso disso!”. Ela muito opostamente a Aline estava aparentemente calma e relaxada, claro que era só aparência, então nós decidimos imitar os movimentos dela e nos alongar. Foi muito precioso! Tomamos café-da-manhã, checamos se nada faltava e voamos até a praça.
Lá encontrei os outros amigos, mas como estávamos todos tão agitados, não deu para papear muito. Achei que a organização teria que checar os meus equipamentos mesmo sendo “pipoca”, ou seja, não inscrita, mas não precisou. Quando vi todo mundo saindo, pensei: “ih, caramba, já?”. Lenta até para pensar, como sempre, fui uma das últimas a sair. A Je me deu um isotônico e super inteligentemente coloquei no elástico da minha bolsinha de guidão, assim que comecei a pedalar, com ela e com o Márcio gentilmente dando algumas dicas, a garrafinha caiu e saiu rolando em outra direção. Pedalei em busca dela e quando me voltei para a rua: “oh-ow, cadê todo mundo?”. Nem sabia em qual pista foram, e os pedestres que passavam por mim comentavam sem piedade “Corre moça, todo mundo já passou faz tempo!”. Peguei o mapa, entendi errado, mas fui certo. De repente me dou conta de que estava indo errado pelo que eu havia entendido do mapa. A neblina era tão intensa que não dava para ver ciclista em lado algum da estrada. Então fiquei na paranóia de que precisava voltar porque estava errada. Voltando, parei num posto e perguntei se haviam visto ciclistas passarem por ali, disseram que sim, rezei muito para ser verdade isso e continuei pelo mesmo caminho que tinha voltado um pouco. Que confusão! Depois de um tempinho pedalando já me deparo com alguns ciclistas consertando seus pneus, ufa!
Mais a frente encontro a Je parada, colocando seus fones e contemplando a paisagem, parei, trocamos algumas palavras e segui em frente, o sol nascendo e eu pedalando-despertando, que sensação! Depois de um tempo, ouço um grito: “Sarinhaaaaa!”, quando olhei para o lado era a Aline num posto, dando tchauzinho, não sei como ela me reconheceu de longe. Continuei, o sol começava a apertar, assim que passei por um pedágio decidi fazer uma parada para tirar o corta-vento, nesse momento a Aline chegou e também decidiu fazer uma parada, comemos, conversamos e lubrificamos a corrente. Voltamos a pedalar e fomos juntas até o PC1 a partir disso, sem nos forçar a manter o mesmo ritmo, estávamos mesmo em sincronia, foi a parte mais gostosinha do meu percurso. Tiramos fotos, cantamos, gritamos, filmamos, interagimos com outros ciclistas, demos muitas risadas, tudo sem parar de pedalar.

eu e Aline (foto: Facebook do Audax)
Numa descida um speedeiro passou por mim e me informou: “Você não precisa ficar pedalando na descida mocinha, é melhor economizar suas energias.” Respondi: “No meu caso preciso sim, minha bicicleta não me dá outra opção, hehehe”, ele olhou com um ar de dúvida eu pedalando e depois de uns minutos, muito surpreso: “Nossa, a sua bike é de velódromo! Você é corajosa, não é boa pra esse tipo de coisa, porque não veio com uma de marcha?”, expliquei que gostava da minha bike assim, quando ele soube que estava cogitando tentar os 300km então… Mas de fato, comecei a não pedalar mais nas descidas e apoiava os pés no quadro.
Chegou uma subida árdua justamente quando o sol não estava mais nem um pouco carinhoso, era a primeira vez que estava usando a bermuda de performance e posso dizer que não me aliviou muito, a minha virílha parecia ter vontade de fugir do meu corpo!
Finalmente no PC1, por volta das 11h., a organização foi gigantescamente solícita, me ofereceram tudo como se eu fosse uma digna participante, mas a verdade é que eu era clandestina e eles sabiam. Encontramos o Gola, o Leandro e o Shadow num descontraído picnic. O Denis, da organização, ficou indignado por eu e o Gola estarmos de bicicleta fixa, perguntou onde costumo treinar e a Aline, muito bondosa, respondeu que no bar do Pedrão, hehehe.

Aline e eu
Enquanto ela enchia seu pneu, disse a ela: “Amiga, me sinto bem para tentar os 300km, acho que vamos ter que nos separar aqui, não quero voltar agora”. Nesse momento o caminho não seria mais o mesmo para quem faria cada tipo de percuso e ela estava inscrita para os 150km. Ela implorou para eu mudar de ideia, dizendo que era loucura, que ela ficaria preocupada e etc. O Gola falou com aquela calma dele: “_Deeeeixa ela, qualquer pepino a organização pega ela de carro, deixa ela tentar, de boa.” e a Aline ainda que com um ar de mãezona concordou. Apesar de ter tentado me ludibriar com um caminho hipotético, que seria o mesmo que o dela inclusive, eu já estava bem atenta com os mapas e realmente me separei da safadinha. Não me sentia completamente segura nesse novo rumo, mas me alegrava ao pensar na imensa ousadia que estava prestes a cometer, e muito mais se ela desse certo.
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