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A Rua é de Todxs! Caminhada, Pedal e Piquenique – 25/03

20 mar

Andar na rua sem ninguém te atormentar deveria ser um direito de todo mundo. Mas não é. Algumas pessoas são assediadas. Por serem mulheres. Por serem transexuais. Por serem gays, lésbicas. Outras, correm risco de morrer ou ser atropeladas. Porque são ciclistas. Porque estão a pé, atravessando a faixa de pedestres.

Entendemos que isso não pode continuar. E nesse domingo, vamos nos encontrar para falar sobre isso, entre a gente e com as pessoas que encontrarmos no caminho. Um pedal e uma caminhada até o parque, aonde faremos um piquenique. E conversaremos. E trocaremos experiências. E nos afofaremos em virtude dos acontecimentos tristes do último mês – a perda de uma mulher e ciclista. Março é o mês da mulher, e um bom mês para lembrarmos que não queremos rosas, e sim, direitos. Como andar na rua. Sem ninguém encher o saco. Ou tentar nos matar.

A rua é de todxs. ;)

Imagem

p.s.: flyer lindo que a Gabi Kato fez.

p.s.s.: não esqueçam de levar comida para o piquenique!

p.s.s.s.: na Praça dx Ciclista, faremos cartazes e enfeitaremos as bikes com fitás lilás (a cor do feminismo). Mais ideias e iniciativas são muito bem-vindas. :)

Paixão passada de MÃE para FILHO

8 mai

"Partilhamos o gosto pela bicicleta, conversamos sobre rotas, roteiros de viagem... Quantas mães têm esse privilégio?"

 

Considero a Fátima, além de amiga, uma inspiração! Foi ela quem me acompanhou em minha primeira pedalada pela emblemática Avenida Paulista.

Quando a conheci, em meu primeiro passeio ciclístico, eu já ía de bike pro trabalho, perto de casa, mas não ousava ir além. Logo surgiu o convite para a minha primeira cicloviagem, até Embú das Artes, pertinho, mas um desafio transformador.

Sempre achei o máximo a Fátima pedalar com o filho, Thiago (mais uma pessoa especial que conheci pedalando). A história deles com a bicicleta merece ser contada nas palavras da própria Fátima:

 

“Comecei a pedalar em São Paulo em 1997, após dezoito anos sem pedalar, quando meu filho Thiago (23 anos), na época com 9 anos, ganhou uma bicicleta aro 24. Próximo de casa não tinha espaço seguro para ele andar, então íamos até o Parque do Ibirapuera.

No início levava ele sentado no quadro, depois instalei um bagageiro. Até a nossa cachorrinha pincher, a Minie, ia junto. De vez em quando eu alugava outra bicicleta lá, para andar com ele.
 
 
Isso foi um retorno ao ciclismo, pois comecei a pedalar (em duas rodas) aos 7 anos, levando meu irmão, José, na “garupa” da bicicleta. Ao mesmo tempo em que segurava, para que eu não caísse, ele ia de carona. Esperto ele, não?!
 
Nessa época morávamos com minha avó, em Votorantim, interior de São Paulo, e não tínhamos bicicleta. Mas tínhamos os triciclos, que inclinávamos, tirando uma roda traseira do chão, para parecer bicicleta (molecagem). Ou então andávamos na bicicleta de meu tio quando ia nos visitar. Isso tudo pelas ruas do bairro.
 
Dos 12 aos 16 anos passei a andar numa “Monaretta” (aro 20) da minha prima Rosana, depois em outra da minha tia e também em uma “barra circular” (quase maior que eu). Aí as distâncias ficaram menores para nós. Pedalávamos até o centro da cidade, e outros bairros. Em ruas de terras, avenidas asfaltadas ou trilhas.  Como meio de transporte e por lazer.
 
 
Thiago e as bicicletas
 

Desde cedo: Um carrinho pra brincar, uma bicicleta pra se locomover

     Ele ganhou sua primeira bicicleta quando tinha quase dois anos e meio, no Natal de 1989 (21 anos atrás). Ele nem se lembra. Para ele, já nasceu sabendo.
 
Quando decidi dar um brinquedo que lhe desse mobilidade, pensei em algo que fosse para mais que uma curta fase, é o caso dos triciclos de plástico que usaria no máximo dois anos. Eu quis dar algo que fizesse parte de sua vida, então (em setembro) decidi comprar a bicicleta – aro 12, com rodinhas, é claro, mas suas perninhas, ainda curtas, não conseguiam girar os pedais.
 
Empurrei da loja até em casa, aproximadamente dez quarteirões, e ele foi sentado, apoiando os pés nos pedais, com tranqüilidade, como se fosse algo habitual, curtindo seu primeiro passeio nas calçadas das ruas e avenidas de São Paulo. (Mas só ganhou o presente no Natal!)
 
Aos 4 anos pediu que tirasse as rodinhas, pois estavam atrapalhando. Então lhe disse que se tirasse, não colocaria novamente. Ele concordou e eu tirei. E na, pracinha, após algumas quedas, sem grandes marcas aprendeu a pedalar sua bicicleta.
 
Além disso, desde essa época ele se interessou em conhecer a mecânica e o funcionamento, aprendendo a fazer a manutenção das bicicletas.  
 
Em 2002 dei outra bicicleta para o Thiago, uma aro 26, pois a outra já estava “pequena” pra ele. Nesse momento nossas aventuras pelas ruas das cidades e rodovias, começaram participando de passeios ciclísticos ou indo aos parques Ibirapuera e Villa Lobos.
 
Conhecemos outros ciclistas nos passeios ciclísticos, começamos a andar em grupo e de lá pra cá, logo que alguém fica sabendo de outros passeios, já divulgamos pra todos, combinamos como e para onde vamos.
 
 
Juntos, de bicicleta
 
Geralmente aos domingos e feriados participamos de passeios ciclísticos organizados por instituições ou bicicletarias, em alguns, colaboramos na organização durante a realização do evento.  Já participamos de passeios em diversos bairros e municípios de São Paulo, ABCD, Guarulhos, Mauá, Osasco e Ribeirão Pires.
 
Quando não há passeios, combinamos com os amigos algum roteiro, dentro ou fora da cidade.
 
Também participamos de encontro de cicloativistas, como a Bicicletada, para conscientizar os motoristas de que existem ciclistas utilizando as ruas e devem ser tratados com respeito, permitindo que transitem com segurança.   
 
 
O significado da bicicleta 
 
   
Um meio (além das pernas e pés) para o movimento com liberdade, boa para o físico, para a mente e para o bolso…
 
Uma paixão, hábito saudável! Encurta as distâncias. Aproxima as pessoas, ciclistas e não ciclistas, pois muitos se sentem atraídos para ver um passeio ciclístico passando ou chegar próximo a um grupo de ciclistas e conversar sobre a época  que andava ou bicicleta que teve.
 
Nós representamos o incentivo e para os pequenos que estão começando, podemos ser referência em postura e atitude. 
 
Também a alternativa para o trânsito caótico das grandes cidades. Uma forma rápida, prática e econômica. E mais, é ecologicamente correta, não polui.
 
Senti muita falta no período que fique sem pedalar, mas pensava que não conseguiria pedalar numa cidade com trânsito tão movimentado, como São Paulo.
 
 
Relação mãe e filho (+ pedais)
 
Partilhamos o gosto pela bicicleta, conversamos sobre o uso, o funcionamento, ajustes, peças, desempenho, rotas e roteiros de viagem.  Quantas mães têm esse privilégio?
 
 
E mais: é uma satisfação, pois eu a apresentei a ele e ensinei algumas coisas, mas ele aprendeu muito mais porque adquiriu o gosto pela bicicleta.  
  
Há muitas histórias, como as das quedas da infância e adolescência e as marcas que ficaram na pele, quando andava com minha prima e meu irmão. Às vezes andávamos os três em uma monark “barra circular” dele (eu sentava no quadro e minha prima no bagageiro).
 
Dois momentos inesquecíveis: um quando eu aprendi e o outro quando o Thiago aprendeu a se equilibrar e dar as primeiras pedaladas.
 
Um susto quando minha prima prendeu o dedo entre a corrente e a coroa, quase atravessou. E alguns anos mais tarde aconteceu o mesmo com o Thiago, com menor gravidade.
 
Num aniversário do Thiago, de 7 anos, me atrevi a fazer um bolo e decorá-lo com uma bicicleta. O bolo ficou gostoso…bom, a bicicleta mais ou menos.
 

Bolo especial aos 7 anos

 
Fomos a lugares bonitos como Solo Sagrado, na zona sul à beira da represa Guarapiranga, vencemos dificuldades para chegar a Santana de Parnaíba e agora por último Salesópolis, na nascente do Rio Tietê, onde há quatro anos eu esperava ir.
 
Ultrapassar seus próprios limites, isso é especial.”
 
 
 
 
Sabemos que dia das mães é todo dia, mas já que temos uma data para celebra-las, vamos aproveitar e, pedalando ou não, homenagear essas mulheres que fizeram de nós muito do que somos hoje!

Às que estão longe (como a minha) ou que já se foram, todo nosso carinho, os mais lindos pensamentos e lembranças.

 PS: Arrisco um palpite: A Fátima e o Thiago vão pedalar juntos hoje:)

Pedalina de primeira viagem – um relato do encontro de fevereiro de 2011

7 fev SAM_0864

Minha bicicleta foi embora junto com minha infância. Lembro de ter vivido “horrores” com ela: sem uma mão! Sem a outra! Agora de pé! Manobras que já acabaram até num lago, ladeiras sem freio. Livre, livre, livre. Eu corria mais que os moleques (e por que não poderia?), e sentia que podia fazer qualquer coisa.

Esse tempo passou. Nem sei o que aconteceu àquela bicicleta. Junto com as responsabilidades, e as contas para pagar, veio um apartamento minúsculo, no centro de São Paulo, onde vivo sozinha. Fiz na parede um desenho para lembrar de não me deixar aprisionar nunca: passarinhos que escapam de uma gaiola aberta e voam rumo à janela.

Minha relação com a cidade não é das piores: já cheguei a demorar três horas para chegar à faculdade, mas hoje moro bem perto do trabalho, não tenho carro, faço tudo a pé, ou de ônibus. Só que depois de morar um ano em Lyon, na França, sempre achei que poderia ser melhor. Ali começou a experiência da Velo’v, bicicletas espalhadas pela cidade que você pode pegar, de graça, com o mesmo cartão do transporte público. Eu cruzava a cidade com elas, margeando o rio Ródano…

Eu achava que, no centro de São Paulo, aquilo seria impossível. Só os loucos se arriscam. Até que o meu presente de natal de 2010 – que meu namorado me ajudou a comprar – foi uma bicicleta. Ele reformou a sua, já parada há muitos anos. Foram precisos dois fins de semana para entendermos que sim, era difícil, mas possível. Primeiro, o minhocão de domingo, o centro velho, a Luz. Depois, a deliciosa descida ao Ibirapuera e a (argh!) dura subida de volta.

Sábado, 5 de fevereiro

Um passeio pela internet me fez cair no blog das Pedalinas, e ver que, justo no dia seguinte, havia um encontro (como todo primeiro sábado do mês) na Praça do Ciclista. Embalada pelas minhas recentes descobertas, resolvi conhecer de perto esse coletivo. E aí está o barato da bicicleta. A relação com a cidade, com as pessoas. Moro no mesmo apartamento há mais de um ano, e me envergonhava de não conhecer nenhum vizinho. Pois no sábado, ao pegar minha bicicleta na garagem, conheci um morador ciclista que também saía para um passeio. Subimos um pedacinho da Augusta juntos.

Na Praça do Ciclista, me dei conta da diversidade do grupo. Uma menina circulava livros de mecânica de bicicletas, que acabara de comprar nos Estados Unidos. Outras diziam que, pela primeira vez, pedalavam na rua. Nara, médica, não recebeu exatamente um incentivo do marido ao sair de casa (“Cuidado! Você viu que um ciclista atropelou um velhinho na rua, no Rio, e morreram os dois?”), mas estava tão orgulhosa da conquista de chegar até ali pedalando que ria alto da preocupação do companheiro.

E as cerca de 30 meninas (mais tarde, quando algumas outras se juntaram a nós no Ibirapuera, contei 31) tomaram a pista central da Avenida Paulista. Algumas, bem experientes, seguiam na frente e paravam um cruzamento, quando necessário. Outras se extasiavam com a primeira vez logo ali, naquela avenida enorme e hostil às bicicletas. O coletivo chamava a atenção de todos na calçada. Muitos sacavam suas máquinas fotográficas e clicavam a cena – turistas? Jornalistas? Curiosos? Alguns acenavam contentes, e outros homens faziam comentários machistas que reafirmam não só a necessidade de grupos como o Pedalinas, mas a luta constante das mulheres por uma relação de gênero mais justa.

Piquenique e bate-papo

Na Praça da Paz, no parque do Ibirapuera, um piquenique permitiu agradáveis bate-papos, em que ouvi as mais inesperadas histórias. Reconheci, no colar da italiana Michela, um pingente com a figura do Handala, um menino descalço, virado de costas e com as mãos para trás, símbolo da resistência palestina. Conversamos sobre isso, nossas relações com o tema, e também sobre a cidadezinha de Campagnano di Roma, de meus antepassados, que Michela conhecia (descobri por ela que há um grande festival de artistas de rua lá!).

Em uma rodada de apresentação, veio a pergunta: quantas de vocês vêm pela primeira vez? Para minha surpresa, quase metade das meninas eram novatas. E conhecemos muitos motivos que as levaram até ali: uma se apaixonou por um ciclista, terminou com ele e ficou com a bicicleta; outra incentivou o namorado a andar; outra precisava de uma alternativa ao ônibus que, lotado, fazia um caminho estúpido para chegar ao seu trabalho; outra, que tem uma deficiência visual, descobriu na bicicleta a melhor forma de se locomover pela cidade.

Na volta, subindo o morro rumo à Paulista, contava para Laura, francesa, sobre o – desigual – sistema educacional brasileiro. Com o fôlego e o francês enferrujados, tive uma agradável subida, devagar e sempre, que eu ainda não tinha conseguido completar sem parar. As mulheres foram se separando aos poucos, até que a última se despediu de mim, na Rua Frei Caneca. Segui sozinha até minha casa.

Nessa noite, recebi uma amiga e ouvi surpresa que, em sua família, nem ela, sua irmã ou sua mãe sabem pedalar. Acha que já está velha demais para isso… mas de jeito nenhum! Por histórias como essas, as Pedalinas organizam desde oficinas de mecânica para mulheres (só de conversar neste sábado, aprendi uma coisa tão trivial quanto olhar no pneu a quantidade de libras para enchê-lo) a passeios para iniciantes. Que nenhuma mulher que tenha vontade de pedalar desista, por falta de companhia, coragem, ou por excesso de proteção e preocupação de seus companheiros.

Redescobri o gostinho de liberdade de andar de bicicleta como fazia na minha infância, e estou descobrindo as dores e delícias de fazê-lo em uma cidade caótica como São Paulo. Espero que a emergência de coletivos como o Pedalinas, tão criativos e engajados, estimulem cidadãos e poder público a construir uma cidade mais sustentável. Estou nessa. Até o próximo encontro!

*Fotos de Camila e Aline. Veja mais aqui.

Como foi bom pedalar

21 out

Esse relato foi escrito pela minha mãe, a Marisa, que mora em Uberaba, lá em Minas Gerais, onde nasci. Ela me mandou por e-mail, depois de me ligar toda feliz, com uma novidade especial. Agora ela é uma Pedalina também. :)

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Como foi bom pedalar

Chegamos ontem à tarde. Teria sido apenas mais uma viagem de férias, comum, mas para mim teve um sabor especial: realizei inesperadamente um velho sonho: consegui pedalar uma bicicleta sozinha! Bem, pra quem não me conhece pode parecer uma grande bobagem, mas é preciso que se saiba que tenho uma limitação física no quadril desde a infância. Essa deficiência se agravou com o tempo, de modo que ultimamente não consigo caminhar por grandes distâncias (mais que um quarteirão…), o que levou meu marido a adquirir um triciclo com banquinho para passageiro… E neste triciclo, que acabou se revelando uma excelente compra, pude aproveitar melhor nossos passeios pela praia. Mas sempre na carona. Dessa vez, após presenciar tentativas hilárias de nossos amigos tentando conduzir nossa “Zafira”, e percebendo que seria praticamente impossível cair dela, arrisquei! Primeiro com meio pedal, depois percebi que conseguia pedaladas completas, ainda que com a velocidade de uma tartaruga… Para mim foi uma grande vitória! Foi muito bom! E pude perceber, então, a sensação de liberdade que com certeza os ciclistas sentem… De frente pro mar, na areia, contra o vento… E a paixão que minha pedalinazinha possui não é sem fundamento. Filha, pedale por nós duas! Por aqui continuarei tentando, devagarzinho…

por Marisa Callegari

Pedalando a Zafira

Dessa vez, o banco do carona ficou vazio

De Bike na Paulista

6 out

Choveu na sexta. Choveu no sábado de manhã. O convite dizia que mesmo com chuva o encontro de Outubro das Pedalinas aconteceria, às 14h:30.
Apesar de não ter bicicleta (quer dizer, eu tenho uma, só que o pneu está furado) não dava para eu levá-la no trem. Mas isso é o que eu pensava até então.

 

Pedalinas na Paulista

 

Depois de 1h e pouquinho de viagem cheguei à Praça do Ciclista, que fica na travessa da Paulista com a Consolação. Cheguei cedo até.
De longe vi uns carros de uma emissora de TV, câmeras e maquiadores. Pensei que era algo com as Pedalinas, mas não era. Todo esse “âue” era para uma gravação de uma novela.
Cheguei e a primeira que encontrei foi a Sílvia.
Conversamos um pouco, perguntei se vinham mais meninas e ela disse que sim. Contou um pouco de sua relação com a bike e há quanto tempo estava pedalando.
Logo foi chegando mais e mais gente. Cada uma com seu estilo e suas bikes personalizadas. Cestinha, flores, capacete rosa, adesivos como “1 carro a menos” e assim por diante.
Aquela reunião foi me deixando com mais vontade de participar. Mas o problema era a falta de uma bike. Até que a Aline resolveu meu problema.
Sacou o cartão de crédito e alugou uma magrela pra mim. Confesso que fiquei com medo.
Mogi é uma cidade tranqüila. Em São Paulo eu só ando de ônibus ou metrô. Nunca me passou pela cabeça andar de bike em plena Av. Paulista um dia. Mas a vida é assim mesmo.
Coloquei o capacete, a mochila nas costas comprei uma garrafinha de água e segui o comboio que saiu lá pelas 15h  da praça.


A primeira pedalada dá uma sensação de liberdade. Pode parecer piegas isso, mas é verdade. O vento batendo no rosto, as pernas em sintonia com a bicicleta, me senti feliz naquele momento. Tão simples, mas tão simbólico.
As pessoas nas calçadas, nos pontos de ônibus ou até mesmo de dentro dos carros estranham. É curioso perceber a expressão deles. Alguns olham com cara feia, outros dão um leve sorriso de aprovação.
Os taxistas _não todos_ são um pouco grosseiros. Não só eles, mas os que estão dirigindo qualquer veículo que tenha quatro rodas ou mais. Parece que a rua foi feita só para carros. A grande maioria, enxerga os ciclistas com um estorvo no trânsito. Senti na pele.
Uma coisa interessante…
Pude reparar com mais calma as paisagens ao meu redor. Tudo bem, que no começo a insegurança de ser atropelada a qualquer momento me deixou um pouco apreensiva,  ainda assim, me deparei com situações que no cotidiano passam despercebidas.
Achei o percurso super simples. Eu que não faço exercício físico agüentei numa boa. Ok, ok. A subida da Al. Campinas me fez saltar da bike e sair empurrando. Mas não fui só eu… Outras pedalinas me acompanharam. E quando chegamos ao ”topo” lá estavam todas esperando a gente.
Nunca tinha ido até o Pq. Ibirapuera. Achei demais andar de bike lá dentro.
Quando mandei um e-mail solicitando uma reportagem às pedalinas, escrevi que gostaria de entender o espírito do grupo. E me surpreendi. Há uma camaradagem presente. Apesar de muitas irem ao pedal pela 1º vez, parece que se conhecem há tempos. Existe uma sintonia muito boa.

 

Mãos na Graxa!

 

Foi fácil comprovar isso quando o pneu da Celina furou. Uma emprestou as ferramentas, a outra se propôs a ajudar e num minuto a bike estava pronta novamente. Pedalinas com a mão na graxa, literalmente.
No Parque, instalamos as magrelas próxima a uma lanchonete, juntamos umas mesas e começamos a conversar. Ouvi atentamente. Cada uma possui uma história bacana pra contar. Isso acaba motivando de certa maneira.
Não existe aquele discurso moralista. Ande como achar melhor. Não há regras nem fórmulas. O começo pode ser complicado, mas tudo se ajeita.
Já de noite e, sem previsão de chuva, voltamos à praça.  O retorno foi tranqüilo, tirando o morro (rs).
Entregamos a bike e eu parti pra Mogi. Antes peguei o metrô com uma pedalina e o amigo dela. Os dois de bike. Gostei da cena! Aí sim, hein!

 

Próxima estação...

 

* O passeio me instigou a trocar o pneu da minha bike. Quem sabe!

Assédio nas Ruas

28 set

Foi ao fazer um outro post que cheguei ao assunto e à sua possível ligação com a pequena proporção de mulheres que utilizam a bicicleta como meio de transporte. Me deparei com a hipótese nesse blog, e agora, após fazer uma pequena pesquisa e organizar os pensamentos, volto a desenvolver o tema.

Pois então, a que me refiro quando falo em “assédio”? A resposta é bem ampla, e vai desde estupro até os mais “inocentes” assovios bem conhecidos por qualquer mulher que transita nas ruas desta e outras grandes cidades. Mas minha intenção agora é focar nessa segunda maneira de assédio, que me preocupa justo por ser tão comum, ter relativa aceitação social e por sua falsa aparência inofensiva.

Tais assédios expõem a mulher publicamente, independente de sua vontade, e a coloca numa situação constrangedora, quando não humilhante. O espaço individual é violado ao momento em que ocorre uma interação forçada. Alem do que, declara que  a pessoa abordada é um objeto a ser utilizado pelo outro. Trata-se de um objeto sexual, e nada mais.

Seguindo essa linha de pensamento, não fica difícil entender porquê o assédio nas ruas pode ser um dos motivos pelos quais há menos mulheres do que homens pedalando. Como pode alguém se apropriar tranquilamente de um espaço no qual não se sente à vontade, onde há o risco de ser constrangida a quase qualquer momento? Sobre a bicicleta isso parece mais difícil ainda, já que ciclistas destacam-se visualmente. Alem, é claro, de chamar atenção pela  imagem “excêntrica”: a mulher pedalando se mostra forte e corajosa ao encarar certas avenidas movimentadas, atitude não muito esperada do tal “sexo frágil”. Parece papo de décadas atrás, mas, acreditem, esse valor ainda está vigorando fortemente hoje em dia.

A mulher sair de casa sozinha e ir trabalhar já não é novidade; entretanto, quando pisa a rua, comumente é tratada de maneira hostil, como não pertencente ao espaço público -  “se o faz, é por sua conta e risco”, como citado nesse artigo -  ainda relegada ao espaço privado, à proteção do lar ou mesmo do local de trabalho, mas não à rua.

A esfera privada – seja a casa ou o carro – oferece uma (questionável) sensação de privacidade e segurança que não se tem no ônibus, na calçada, nem sobre a bike. E isso tudo é somado à vigente carrocracia, opressora a qualquer ser não motorizado. É de se esperar que alguem queira alienar-se de um mundo que lhe parece hostil.

(acima, video da campanha Stop Street Harassment)

O medo tambem é um fator de peso nessa história toda. Dependendo da abordagem, algumas mulheres podem se sentir ameaçadas. A propósito, uma pesquisa mostra que é comum estupradores provocarem verbalmente uma vítima potencial para avaliar se ela reagiria a um ataque físico. Seria exagero dizer que um mero “ê, lá em casa” pode soar como uma ameaça para uma pessoa que a maior parte dos dias é publicamente afirmada como objeto sexual? Por mais clara que seja a não-intenção de que a ameaça seja efetivada, uma “brincadeira” dessas não é brincadeira.

Tá. Diante disso, o que fazer?

Podemos começar pela conversa com amigos homens. Muitas vezes pessoas queridas têm dificuldade em se colocar no lugar dos outros, não sabem o quanto algumas atitudes são violentas e prejudiciais. E cabe a nós ajudá-los a entender. Contar como se sente, mostrar que isso não é bacana…

Para o momento do assédio, há uma série de dicas aqui. Eu geralmente respondo, diferentemente da maioria das mulheres, que prefere apenas ignorar. Por um lado, entendo que essa é uma postura conivente com a violência; por outro, às vezes é melhor se preservar, e desenvolver um trabalho emocional para se deixar atingir o mínimo possível, já que não há como criar uma barreira absoluta que não seja sair da rua. Mas sair da rua não é uma possibilidade, nem um desejo, nem seria uma solução.

reação de algumas mulheres - "aqui pra voces, ó"

Não vou me inibir em ir para onde e como quero. Deixar de sentir os espaços, ver os detalhes, ter acesso à cidade sem precisar de motor nem dinheiro está fora de cogitação. Esconder não vai ajudar em nada, pelo contrário. Aliás,  sabe aquele papo de “não pedalar pelo canto da rua, e sim próximo ao centro da faixa”? Pois é, isso é se impor, é tomar o espaço que é seu! Essa postura é importantíssima para uma mulher que pedale ou mesmo caminhe pela cidade. É não se deixar inibir; é dizer, com o corpo, “Estou aqui e não vou me desviar tão fácil”. A rua é nossa!

Gentilezas, sempre?

21 set

Mas e quando esse “ajudar”, que às vezes é “fazer pelo outro”, acaba por convencê-lo de que é incapaz? Lembro-me de uma pesquisa que fiz para a faculdade, em que descobri que a grande maioria dos idosos fica debilitado fisicamente bem mais cedo porque os jovens não permitem que eles executem muitas atividades das quais seriam capazes. O envelhecimento dos músculos, ossos, articulações, sistemas respiratório e circulatório é acelerado – e muito – graças ao exercício poupado pela gentileza alheia.
O caso das mulheres é outro, mas ainda cabe a comparação. É assustador parar e prestar atenção em como é frequente ver mulheres desacreditarem de seus corpos e habilidades braçais. A pequena proporção das que encaram a rua sobre duas rodas é uma clara manifestação disso.

Acho que esse comportamento é alimentado ciclicamente. Não acreditamos que podemos porque não temos costume de tentar; não tentamos porque não acreditamos que podemos, e alem do quê, existe uma (atraente) zona de conforto oferecida pela sociedade que nos poupa desses desafios. E ainda assim, quando por qualquer motivo arriscamos uma tentativa, frequentemente não somos tão bem sucedidas… mas porque?

Melhor que fazer por alguem: ensinar a fazer ( foto do "Mão na Graxa" de maio)

Ora, se alguém nunca carrega peso, ou faz qualquer outro tipo de trabalho braçal, terá dificuldades em aprender a executá-lo bem; além do quê, se em suas raras tentativas uma pessoa se vê desajeitada e com dificuldades, a tendência é o constrangimento e a conclusão de que “não tem jeito pra isso, mesmo”; e daí o desânimo, a sensação de incapacidade, a dependência.

Por isso, creio que gentilezas nem sempre são benéficas, por melhor que seja a intenção. Realmente não é fácil negar o conforto, e muito menos recusar uma gentileza – especialmente se ofericida com um sorriso sincero – quando, por exemplo, nos querem dar uma carona de carro ou mesmo recolocar a corrente da nossa bicicleta quando ela cai. Resistir a ofertas atraentes que nos levam para longe do desafio e da autonomia, às vezes é necessário… Pode parecer bobo falar nisso, mas não é se considerarmos o quanto essas situações corriqueiras representam e alimentam algumas crenças prejudiciais e equivocadas.

Vivi um crescimento enorme ao inserir a bicicleta no meu dia-a-dia, e já testemunhei o mesmo em outras mulheres.  Prática é aquilo que mais nos convence de qualquer realidade. A gente precisa se posicionar, experimentar, agir  com o corpo, efetuar. Nos sentimos engrandecidas mas, na verdade, apenas redescobrimos nosso tamanho.

Percebo que isso tudo faz parte de um processo lento e profundo que acontece não apenas na sociedade, no mundo externo, mas principalmente dentro da gente, em nossos corpos.

Autonomia, independência, e a certeza de que podemos fazer as coisas sem alguém olhando por nós nos dá mais plenitude, prazer e liberdade nessa vida.

Mas e quando esse “ajudar”, que às vezes é “fazer pelo outro”, acaba por convencê-lo de que é incapaz?

Lembro-me de uma pesquisa que fiz para a faculdade, em que descobri que a grande maioria dos idosos fica

debilitado fisicamente bem mais cedo porque os jovens não permitem que eles executem muitas atividades das quais seriam capazes. O envelhecimento dos músculos, ossos, articulações, sistemas respiratório e circulatório é acelerado – e muito – graças ao exercício poupado pela gentileza alheia.

O caso das mulheres é outro, mas ainda cabe a comparação. É assustador parar e prestar atenção em como

é frequente ver mulheres desacreditarem de seus corpos e habilidades braçais. A pequena proporção das que encaram a rua sobre duas rodas é uma clara manifestação disso.

Acho que esse comportamento é alimentado ciclicamente. Não acreditamos que podemos porque não temos costume

de tentar; não tentamos porque não acreditamos que podemos, e alem do quê, existe uma (atraente) zona de

conforto oferecida pela sociedade que nos poupa desses desafios. E ainda assim, quando por qualquer motivo

arriscamos uma tentativa, frequentemente não somos tão bem sucedidas… mas porque?

Ora, se alguém nunca carrega peso, ou faz qualquer outro tipo de trabalho braçal, terá dificuldades em

aprender a executá-lo bem; além do quê, se em suas raras tentativas uma pessoa se vê desajeitada e com

dificuldades, a tendência é o constrangimento e a conclusão de que “não tem jeito pra isso, mesmo”; e daí o

desânimo, a sensação de incapacidade, a dependência. Há coisas que O CORPO tem que acreditar; e isso, só

experimentando.

POr isso, creio que gentilezas nem sempre são benéficas, por melhor que seja a intenção. Realmente não é

fácil negar o conforto, e muito menos recusar uma gentileza quando, por exemplo, nos querem dar uma carona

de carro, ou recolocar a corrente da nossa bicicleta quando ela cai. Resistir a ofertas atraentes que nos

levam para longe do desafio e da autonomia, às vezes é necessário… Pode parecer bobo falar nisso, mas não

é se considerarmos o quanto essas situações corriqueiras representam e alimentam algumas crenças

prejudiciais e infundadas.

Vivi um crescimento enorme em mim ao inserir a bicicleta no meu dia-a-dia, e já testemunhei o mesmo em

outras mulheres. A prática é aquilo que mais nos convence de qualquer realidade. A gente precisa se posicionar, experimentar, por a mão na massa, trabalhar com o corpo, efetuar. Assim, nos sentimos engrandecidas; na verdade apenas redescobrimos nosso tamanho.

Percebo que isso tudo faz parte de um processo lento e profundo, tanto na sociedade quanto dentro de nós.

Autonomia, independência, e a certeza de que podemos fazer as coisas sem alguém olhando por nós nos dá mais

plenitude, prazer e liberdade nessa vida.

Meus primeiros 300km (Parte 3)

15 set

A noite, a estrada, o frio…

A volta foi a parte mais dolorosa, ouso afirmar que até ali tinha sido um passeio agradável e os 150km da volta equivaleram a 300km de verdade. Enquanto o sol se punha estava ótimo, a lua nascendo foi deslumbrante, pena que a máquina de foto estava morta. O frio começou a dar as caras e em seguida o vento contra queria me intimidar, coloquei o corta-vento novamente. No meio da noite uma amiga me ligou, a Diana, havia esquecido que eu estava no Audax e provavelmente ia me convidar para algum rolê, quando eu disse que estava nos 150km da volta ela ficou contente e desejou sorte, foi bom falar com alguém naquele momento de breu e deu uma reanimada.

Cheguei no PC3, o cara que disse que minha bike era de velódromo, bem no começo, estava lá, mas havia sido resgatado pelo carro no meio do caminho porque seus joelhos doíam, ele pediu repetidamente para eu desistir, eu resisti, ele ficou apavorado e ao mesmo tempo deslumbrado. A senhora gentil que carregava minhas coisas no carro também estava lá e disse que seu marido estava a caminho, que desistiu de desistir quando me conheceu no PC2, achei isso muito bacana. Não senti vontade de comer nada a não ser algo bem quentinho, uma sopa seria divina, mas a única coisa de quente que tinha era café puro, tomei uns goles e comi uma banana. Essa foi a parada mais rápida que fiz, 20min., as outras eu tinha descansado por 1h, mas sabia que meu ritmo ia diminuir consideravelmente nos últimos 75km e cada minuto que se passasse seria crucial para atingir a meta de chegar antes das 3h. da manhã.

Quando a madrugada chegou, meus dentes batiam de frio, eu tremia, por dentro do corta-vento não suava mais, passei por várias nuvens de neblina e, quanto mais eu pedalava, parecia que eu estava numa velocidade de pedestre, pois olhava nas placas achando que haviam passado 10km e eu completava apenas mais um. Quando eu pedalava em pé, o movimento central fazia um barulhão de máquina de lavar velha e o pedal dava um pulinho pra trás, comecei a ficar apavorada, afinal de repente a questão nem seria apenas se eu aguentaria, mas se a bike me deixaria na mão. As subidas e descidas pareciam não fazer mais diferença, o esforço era tão grande que agora era impossível tirar o pé do pedal, porque se eu tirasse, a bike parava. Decidi não olhar mais as placas para não desanimar, só olharia os km que eu estava de hora em hora, a partir dali. Apareceu um posto e fiz uma parada rápida lá, quando voltei a pedalar, me arrependi demais de ter parado, porque pedalando estava sim doendo tudo, mas ter parado e voltado os movimentos acentuou bem mais as dores, a lei da inércia é tudo!

Nos últimos 20 e poucos km, percebi uma iluminação forte atrás de mim, olhei de relance e achei que era um motoqueiro parado no acostamento, mas a luz não parava de me seguir, olhei de novo e me perguntei: “que diabos estaria fazendo um motoqueiro tão devagar atrás de mim”, fiquei bem desconfiada e apesar de saber a capacidade de uma moto, comecei a pedalar muito mais rápido, tirando forças de não sei onde. Logo parou um carro à minha frente e pessoas saíram dele, como que me esperando, reconheci o pessoal da organização e fiquei aliviada, quando cheguei, disse a eles que achava que uma moto estava me seguindo e estava com medo, eles riram e disseram que era apenas um velho ciclista tentando me alcançar, aquele que tinha desistido de desistir. Enquanto esperava ele chegar, o pessoal da organização me informava terem decidido me dar o certificado mesmo sem eu ter feito a inscrição, (será que eu podia por isso aqui?) por eu ter feito um esforço maior com uma bike inapropriada, e blás, mas que não valeria para os brevets porque eu teria que ter o certificado dos 200km primeiro, no entanto, ficaria como uma lembrança. Perguntaram se eu queria voltar de carro, se precisava de água, foram muito incríveis mesmo. Assim que eles saíram, umas lagriminhas começaram a descer no meu rosto, porque começava a me dar conta de que estava tornando realidade os meus 300km, fiquei emocionada com o que eles disseram para mim, como se eu fosse uma heroína, e estava mesmo começando a sentir um certo orgulho do que estava fazendo, não iria desistir por nada nesse mundo naquele momento.

Realização transcendental

Pedalamos, eu e o senhor juntos até o final nesses últimos km, e agora sim eu comemorava quando completava cada km, de tão difícil que estava. Quase nos perdemos chegando na cidade e então apareceu um senhor da organização de carro e nos guiou até a praça. Chegamos, às 02h55, como sempre eu estava em cima da hora, ainda não assimilava que tinha completado, só no dia seguinte me dei conta, pois estava muito exausta. O pessoal da organização que esperava na praça, nos parabenizou, agradeci todos os auxílios, peguei o resto das minhas coisas com a Eliane, esposa do ciclista. Ouvi a seguinte frase de um deles da organização: “Fazer 300km de fixa é coisa de macho hein, foi foda, parabéns!”, sabia que era uma boa intenção, um elogio que ele queria fazer, mas não resisti e disse que não era só de “macho” e eu estava ali como prova disso.

>300km depois... (Foto: Facebook do Audax)

E ainda ganhei uma carona até o hotel, porque não sentia mais minhas pernas, parecia que estava com pés de pato para andar. Mal aguentei subir as escadas do hotel, entrei no quarto, estava imunda, as meninas estavam dormindo, mas acordaram, perguntaram se eu havia conseguido e me parabenizaram, logo tornaram a dormir, hehehe. Tomei um banho dos deuses, deitei na cama com um sorrisão, achei que ia dormir no mesmo milésimo de segundo, mas apesar de estar imensamente esgotada, minha mente rodava todo o percurso de novo na minha cabeça como se fosse um filme e o corpo gritava de dor em qualquer posição na cama, depois de muito tempo consegui dormir um pouco.

no hotel, metade pra cima: imunda! (Foto: Jeanne-sonâmbula)

Acordamos, estávamos todas muito felizes, satisfeitas, e compartilhando as dores no corpo. Chamamos os meninos para almoçar conosco e fomos embora tod@s no mesmo ônibus.

vergão pra quê te quero (Foto: Bruno Gola)

Sentia uma auto-suficiência, determinação e uma capacidade para acreditar em mim, inéditas. Liguei para minha mãe para contar o feito, ela não deu a mínima, ainda disse que preferia um diploma da faculdade, mas não me abati pela primeira vez, de tão segura que estava, (ela tinha sido contra eu viajar pra Boituva desde o começo, me deixando tão pra baixo que quase desisti de ir) não deixei de me sentir feliz dessa vez; depois ela percebeu que me fez bem significativamente. Ela costumava me dizer, antigamente, que precisamos apenas de 3 “a” para sobrevivência: água, ar e alimento, e eu acrescento mais um: afeto, o restante são valores que criamos. => to pensando em tirar isso, ou uma parte da frase, não sei, acho que dá uma discussão grande e tá simplificado demais…

Bom, a “ferramenta” Audax como um passo inicial em meu tratamento, me fez dar uma grande avançada e fui progredindo depois disso, as mudanças foram também intensas, não é fácil conhecer a si mesm@, até porque mudamos constantemente, e continuo conforme meu ritmo, meu limite, como foi no Audax. Quando voltei a SP, a repercussão d@s amig@s foi tão maluca que me deixou tímida, e feliz, claro. É lindo pedalar, é transgressor e sublime, é descobrir autonomia dentro de si, é emancipador, é inspirador para a vida ser experimentada de novas formas e conhecer pessoas, é se perceber forte e frágil ao mesmo tempo, é completamente familiar e novo, é perceber além, é singular como cada gênero musical, é sedutor e é tesão, é quebrar mitos, objetiva e subjetivamente nos traz outros ares, e raramente é entediante, mesmo sendo o mesmo trajeto.

a fixa bike fixa

Reparei que entre eu e a bicicleta existe um cordão umbilical invisível, por isso estando com e sem qualquer companhia, por quaisquer caminho é sempre muito bom pedalar! Quando não pedalo, (como estou há várias semanas, tal como diz Dostoiévski, em Crime e Castigo, endomingada, devido a uma fratura) parece que estou deixando de alimentar meu corpo-mente de alguma necessidade vital. Como pensava há muito tempo em tatuar uma bike, mas esperava um motivo especial, além dos já conhecidos, achei que esse era o momento ideal, pois foi marcante, e semanas depois tatuei uma bike fixa. E me atrevo a nomear esse feito como meus “primeiros” 300km, porque não pretendo que seja o único, quero repetir a dose e quem sabe superá-la mais e mais. Que venham os próximos Audax! E outras cicloviagens, passeios, amizades, caminhos, descobertas, lutas, façanhas, ventos que acariciam os cabelos, aromas, dilemas, paisagens, sons, sabores, saberes, gentilezas, cores, etc. Pronto, acabei o relato, plin.

Meus primeiros 300km (Parte 2)

14 set

PC 2

O sol do meio-dia fritava até o meu DNA, então peguei meus óculos de sol, porque já me doía enrugar tanto o rosto para enxergar e os óculos quebraram sem eu entender como, mas tudo bem, pensei, “bola pra frente”. Logo imaginei que esse seria um momento propício para me distrair com as músicas, afinal como o aparelho tinha poucas horas de capacidade, guardei o uso dele para um momento difícil, e misteriosamente o salvador da pátria não estava querendo ligar, oh céus! Comecei a tirar fotos e inicialmente me distraí assim, no entanto, muito mais misteriosamente ela parou de funcionar, acho que a bateria não aguentou o sol, não sei, mas ela estava carregadíssima e não tinha tirado nem dez fotos ainda, hunf. Com tantas surpresas chatas, cheguei a me perguntar se tudo isso não seria um “sinal” para eu deixar a minha tentativa pra outra era, em outra vida.

Depois de passar por vários postos e não haver mais nenhumzinho, começa a me surgir uma vontade brutal de fazer xixi, tive de me enfiar num matinho, deixei minha bike encostada numa árvore e lá fui eu, agora, sim, me sentindo corajosa. Engraçado é que todo o percurso foi assim, os postos pelos quais eu passei, nenhuma vontade e depois de muitos km à frente deles… matinhos aliviadores.

Encarando o sol e a solidão, fui que fui, contemplando a paisagem, refletindo sobre a vida e os momentos ali, admirando meu corpo e minha escolha, me perguntando se um dia haveria respostas a todas as dúvidas que já tive – incluindo essa, poderia dizer que meditei, se não fosse os mantras que as buzinas dos caminhões berravam, sem pudores à audição alheia.

Antes de chegar no PC2, um ciclista na estrada do outro lado gritou, fazendo gestos para eu parar. Achei no mínimo curioso uma pessoa que já está fazendo os seus 150km da volta querer ajuda de alguém que ainda está indo. Parei, esperei ele atravessar as duas pistas, me perguntou se eu tinha algum remendo, disse que sim e lhe dei junto com minhas ferramentas, ele abriu um sorrisão e se desculpou por estar me fazendo esperar, mas eu teria carregado em vão essas parafernalhas caso ele não existisse no meu caminho, porque não precisei delas do começo ao fim, aliás: #infitasanti-furoIbelieveforeverandever! Quando o perguntei sobre os seus 300km, veja que inusitado, o moço nem sabia a quê eu me referia, disse que treina todos os dias uns 50km naquela estrada, ele é da cidade vizinha e até havia reparado na quantidade incomum de ciclistas por ali essa tarde, mas, como todos estavam com pressa e nenhum tinha remendo para emprestá-lo, ele não tinha tido ainda a oportunidade de saber o que estava acontecendo.

Cheguei ao PC2 com as costas em pedaços e super cansada daquele sol, não sentia vontade de comer nem beber nada, mas me forcei a tomar uns goles para não desidratar. Uma senhora, esposa de um dos participantes que ainda não tinha chegado ali, reparou que minha mochila de hidratação estava absurdamente pesada, de tanto carregar já tinha me acostumado, achando normal, mas ela insistiu para eu esvaziar um pouco, pois ela deixaria no carro dela e me entregaria no final, aceitei a gentileza dela e, nooooooossa, que diferença maravilhosa quando voltei a pedalar! Estava carregando milhões de gramas de guloseimas à toa, porque não sentia vontade de comer nada daquilo desde o PC1, pois, inclusive, comi muito mais as frutas do pessoal, mas deixei uma ou duas comidas, para garantir alguma urgência no meio do caminho. O marido dela chegou quando eu estava pronta para sair, desanimado, disse que ia desistir porque pegou gripe uns dias antes do Audax e sentia-se mal, porém quando se deu conta do tipo de bicicleta que eu estava pretendendo completar os 300km, ficou perplexo e me aconselhou a desistir também, porque segundo ele, eu não iria aguentar, ainda mais com as minhas “perninhas mixurucas” – denominação dele (só porque eu não tenho master músculos ciclísticos nas coxas será?), então eu disse que ainda sentia energia para continuar e iria tentar até sentir o contrário.

Meus primeiros 300km (Parte 1)

13 set

Nunca sei por onde começar, por isso protelei tanto esse relato, mas não digo apenas por este relato, como tudo, em geral, na minha vida. Talvez por uma dificuldade enorme de acreditar em mim, talvez por “esperar” apoio de pessoas importantes (meus familiares principalmente) que raramente concordam com minhas ideias e meus ideais, ou simplesmente por pensar demais em 500 possibilidades, hehehe…Bom, este aqui deve ser um começo. Devo avisar que minha noção de síntese não coincide com o sentido do dicionário. E que em alguns momentos pode conter emoções singulares, no entanto, dentro do meu contexto, fica impossível omiti-las.

o horizonte

Pré-Audax

Também não soube por onde começar e não houve planejamento algum. Afinal, já havia lido algo sobre o Audax e sabia que aconteceria no segundo semestre, mas minha cabeça estava tão confusa com meus problemas pessoais que não pensei mais nisso, era algo que tinha em mente participar, porém não cheguei a me programar. Muito repentinamente, e cá entre nós, num momento mais que necessário, surgiu um email informando que o evento seria dentro de uma semana.

Definitivamente eu pirei, – e dessa vez, num bom sentido – fixei meus pensamentos, energias, dinheiros e até conversas no “planejamento” de última hora. Confesso que devo ter ficado um pouco insuportável, mas as pessoas percebiam o brilho da minha vontade, algumas outras desconfiadas, encararam como mais uma tentativa autodestrutiva. O mais importante nesse passo inicial foi ter percebido uma oportunidade de fazer desse desafio não apenas um teste físico de ciclismo ou de resistência. Além dessas intenções interessantes, vi no Audax uma possível ferramenta complementar para o meu processo e projeto de tratamento para a depressão desesperadora que estava mergulhada há meses e estava me afundando rápida e intensamente, por isso me referi ao tempo que fui informada sobre o Audax ser muito oportuno, pois estava mesmo seguindo em uma direção negativa.

Todos os meus pensamentos ruins ficaram “aguardando na sala de espera”, enquanto me ocupei integralmente com as correrias pré-Audax. Precisei de muitos acessórios que eu não tinha, fiz as contas e percebi que se eu comprasse tudo ficaria lesada e então, tive a magnífica ideia de pedir emprestado a pessoas generosas alguns deles e outros eu acabei comprando mesmo:

-pneu mais grosso (só deu pra colocar na roda da frente ¬¬)
-comidinhas (acabei não comendo quase nada no final das contas)
-fita de guidão (feia)
-velocímetro (falho)
-fita anti-furo (urru!)
-short de performance (vergões nas coxas)
-ferramenta decente (um dia usarei)
-câmaras reserva (ainda vou precisar)
-pastilha de freio (tá lá)
-pilhas (ok)

Sem contar os dinheiros do hotel, passagens, happy hour…

E emprestado:

-bomba de ar (Célia)
-mochila de hidratação (André)
-luz dianteira (André)
-luz traseira (Edu e Jeanne)
-colete e bolsa de hidratação (Verônica)
-protetor solar (mamis)
-ipod (titio)
-capa-de-chuva (Salada)

(tenho que dar os créditos né…)

As luzes eram obrigatórias apenas para quem faria os 300km, não era certo de que iria tentar esse percurso, não treinei com antecedência, mas a vontade de me desafiar a isso era pulsante. Daí me veio a ideia (de girico) de comprar um velocímetro, pois poderia perceber se agüentaria mais de 150km e menos de 300km, então faria 200km por minha conta e como não havia essa marcação nesse Audax, meu velocímetro me indicaria o momento de voltar (que bagunça, deu para entender?). No final das contas ainda bem que não precisei dele, pois falhou na volta.

Enfim, me atrapalhei demais nessa semana pré-Audax porque além de ter que comprar muitas coisas em lugares diferentes e pegar os emprestados nas casas diferentes, havia os afazeres cotidianos. Apesar da correria danada e tudo em cima da hora, deu certo. Não foi diferente na sexta-feira, dia que teríamos de viajar, deixei muitos compromissos para a pobre sexta e chegou um momento que estava tão atrasada que bloqueei. Por um tempo não consegui fazer nada de tantos múltiplos medos e ansiedades, minha cabeça repetia: “não vou conseguir, não vai dar certo, melhor desistir, etc…” Minha mochila ficou hiper pesada, mas lá fui eu pedalando, desajeitada para a bicicletada, encontrar a Aline que já me ligava ameaçando de ir sem mim, para completar a minha agonia, hahaha. Chegando na bicicletada ofegante, a Aline ainda me diz para esperar porque o namorado da Jeanne estava vindo nos entregar o capacete que ela esqueceu, quase mastiguei a cabeça da Aline nessa hora, hahaha. Fomos pedalando muito felizes para a Barra Funda e compartilhando as ansiedades. Chegamos antecipadas e de tão pilhadas que estávamos, colocamos as bikes no ônibus errado.

A largada

Quando chegamos em Boituva sentimos um friozinho na barriga (do tipo, pronto estamos aqui e agora?) e um sorriso largo abrimos quando nos olhamos, daí fomos pedalando até o hotel. Encontramos a Jeanne e por incrível que pareça ela estava ansiosa também, que coincidência, hahaha. Nenhuma estratégia nos ajudou a aliviar a ansiedade, nem “vaca-amarela”. Estávamos fora de controle e de tanto conversar, em alguma hora bem tarde da madrugada, acho que cochilamos finalmente.

Pela minha percepção se passaram apenas alguns míseros minutos esse cochilo e logo quando abri os olhos, a pilhada da Aline estava no banho! E do outro lado a companheira Je balbuciava algumas palavras que não entendi. Estava frio e deu preguicinha de levantar, nem estava clareando ainda. Mas me senti intimidada a levantar quando a Je levantou e em seguida começou a yogar, pensei: “preciso disso!”. Ela muito opostamente a Aline estava aparentemente calma e relaxada, claro que era só aparência, então nós decidimos imitar os movimentos dela e nos alongar. Foi muito precioso! Tomamos café-da-manhã, checamos se nada faltava e voamos até a praça.

Lá encontrei os outros amigos, mas como estávamos todos tão agitados, não deu para papear muito. Achei que a organização teria que checar os meus equipamentos mesmo sendo “pipoca”, ou seja, não inscrita, mas não precisou. Quando vi todo mundo saindo, pensei: “ih, caramba, já?”. Lenta até para pensar, como sempre, fui uma das últimas a sair. A Je me deu um isotônico e super inteligentemente coloquei no elástico da minha bolsinha de guidão, assim que comecei a pedalar, com ela e com o Márcio gentilmente dando algumas dicas, a garrafinha caiu e saiu rolando em outra direção. Pedalei em busca dela e quando me voltei para a rua: “oh-ow, cadê todo mundo?”. Nem sabia em qual pista foram, e os pedestres que passavam por mim comentavam sem piedade “Corre moça, todo mundo já passou faz tempo!”. Peguei o mapa, entendi errado, mas fui certo. De repente me dou conta de que estava indo errado pelo que eu havia entendido do mapa. A neblina era tão intensa que não dava para ver ciclista em lado algum da estrada. Então fiquei na paranóia de que precisava voltar porque estava errada. Voltando, parei num posto e perguntei se haviam visto ciclistas passarem por ali, disseram que sim, rezei muito para ser verdade isso e continuei pelo mesmo caminho que tinha voltado um pouco. Que confusão! Depois de um tempinho pedalando já me deparo com alguns ciclistas consertando seus pneus, ufa!

Mais a frente encontro a Je parada, colocando seus fones e contemplando a paisagem, parei, trocamos algumas palavras e segui em frente, o sol nascendo e eu pedalando-despertando, que sensação! Depois de um tempo, ouço um grito: “Sarinhaaaaa!”, quando olhei para o lado era a Aline num posto, dando tchauzinho, não sei como ela me reconheceu de longe. Continuei, o sol começava a apertar, assim que passei por um pedágio decidi fazer uma parada para tirar o corta-vento, nesse momento a Aline chegou e também decidiu fazer uma parada, comemos, conversamos e lubrificamos a corrente. Voltamos a pedalar e fomos juntas até o PC1 a partir disso, sem nos forçar a manter o mesmo ritmo, estávamos mesmo em sincronia, foi a parte mais gostosinha do meu percurso. Tiramos fotos, cantamos, gritamos, filmamos, interagimos com outros ciclistas, demos muitas risadas, tudo sem parar de pedalar.

eu e Aline (foto: Facebook do Audax)

Numa descida um speedeiro passou por mim e me informou: “Você não precisa ficar pedalando na descida mocinha, é melhor economizar suas energias.” Respondi: “No meu caso preciso sim, minha bicicleta não me dá outra opção, hehehe”, ele olhou com um ar de dúvida eu pedalando e depois de uns minutos, muito surpreso: “Nossa, a sua bike é de velódromo! Você é corajosa, não é boa pra esse tipo de coisa, porque não veio com uma de marcha?”, expliquei que gostava da minha bike assim, quando ele soube que estava cogitando tentar os 300km então… Mas de fato, comecei a não pedalar mais nas descidas e apoiava os pés no quadro.

Chegou uma subida árdua justamente quando o sol não estava mais nem um pouco carinhoso, era a primeira vez que estava usando a bermuda de performance e posso dizer que não me aliviou muito, a minha virílha parecia ter vontade de fugir do meu corpo!

Finalmente no PC1, por volta das 11h., a organização foi gigantescamente solícita, me ofereceram tudo como se eu fosse uma digna participante, mas a verdade é que eu era clandestina e eles sabiam. Encontramos o Gola, o Leandro e o Shadow num descontraído picnic. O Denis, da organização, ficou indignado por eu e o Gola estarmos de bicicleta fixa, perguntou onde costumo treinar e a Aline, muito bondosa, respondeu que no bar do Pedrão, hehehe.

Aline e eu

Enquanto ela enchia seu pneu, disse a ela: “Amiga, me sinto bem para tentar os 300km, acho que vamos ter que nos separar aqui, não quero voltar agora”. Nesse momento o caminho não seria mais o mesmo para quem faria cada tipo de percuso e ela estava inscrita para os 150km. Ela implorou para eu mudar de ideia, dizendo que era loucura, que ela ficaria preocupada e etc. O Gola falou com aquela calma dele: “_Deeeeixa ela, qualquer pepino a organização pega ela de carro, deixa ela tentar, de boa.” e a Aline ainda que com um ar de mãezona concordou. Apesar de ter tentado me ludibriar com um caminho hipotético, que seria o mesmo que o dela inclusive, eu já estava bem atenta com os mapas e realmente me separei da safadinha. Não me sentia completamente segura nesse novo rumo, mas me alegrava ao pensar na imensa ousadia que estava prestes a cometer, e muito mais se ela desse certo.

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