Recordando

19 jul

Adotei a bicicleta como meio de transporte em 2008, mesmo ano em que me formei com um tcc sobre o tema. No início do trabalho, decidi descrever a primeira vez que usei a bicicleta para me locomover em São Paulo, e o que essa experiência me proporcionou. Agora, tomo a liberdade de reproduzir esse texto aqui.

***

PEDALADA INQUIETANTE

2008: este foi o ano em que conheci Isaura. Já fazia algum tempo que não me relacionava, desde que a primeira me tinha sido roubada e a última se apagara lentamente da memória. Mas Isaura enveredou-se por meus pensamentos e me envolveu com toda a sua sinuosidade e seu despretensioso ar de “deixe estar”. Assim, após um longo flerte, decidi convidá-la a passear e subimos juntas a rua de minha casa. Isaura movia-se com leveza e graça, eu planava acima do solo. Ela deslizava, eu pedalava.

Seguimos pelas simpáticas ruas da Vila Madalena, percorrendo as mesmas distâncias de sempre. Mas agora, sob suas rodas, interpusera-se um novo caminho, completamente estranho, onde me reencontrei surpresa com uma parte que havia muito esquecera, suspensa na catraca do ônibus ou contida pelos vidros do carro: os meus sentidos. A cidade era outra através desse campo de percepções estendido.

No entanto, a agradável sensação foi dando espaço à angústia, à medida que se intensificavam o fluxo e a velocidade dos carros, retomando a cidade seus contornos originais, em um misto de hostilidade e indelicadeza. Diante de meu despreparo para lidar com essa situação, não encontrei alternativa: à altura da Doutor Arnaldo com a Consolação, tive que abandonar a via e empurrar Isaura pela calçada. O passeio só foi retomado com uma aprazível pedalada da Paulista até a Vila Mariana.

Essa primeira experiência, em sua alternância de repressão e liberdade, me fez refletir sobre a situação do ciclista na cidade de São Paulo e, desde então, tenho observando como a bicicleta se tornou o ponto focal em torno do qual gravitam novas organizações sociais e calorosas discussões sobre direitos individuais e coletivos. Um universo de relações, diálogos, intervenções urbanas, manifestações e embates que vêm se estendendo por toda a cidade, encontrando na internet um importante meio de comunicação.

Assim, a produção deste trabalho se apresentou a mim como uma oportunidade de assentar esta visão caleidoscópica, buscando seus encaixes internos, na tentativa de compreender melhor os processos que impulsionam e sustentam o movimento do ciclista paulistano em sua relação curiosa com a cidade e o ambiente digital – não como realidades antagônicas, mas como espaços complementares, reivindicados e usufruídos.

***

A volta para esse início me deixa feliz por revelar algumas mudanças. Sem ilusões: ainda falta muito para que exista o respeito devido à vida, dentro e fora dos veículos. Mas nas vias, já se começam a ver mais motoristas respeitosos e mais ciclistas do que naqueles dias. Hoje, não me falta a segurança na Doutor Arnaldo, mas sei que para algumas mulheres ainda falta, e é por isso que compartilho essa lembrança. Pois o que parece complicado no início – talvez até improvável, impossível -, aos poucos se torna natural. 😉

*Se alguém tiver interesse, o nome do trabalho é “Uma bicicleta nasceu no asfalto: novas visibilidades do ciclista em São Paulo”. Tentarei disponibilizar nos nossos arquivos no futuro.

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3 Respostas to “Recordando”

  1. alinizinhazona 19/07/2010 às 3:48 PM #

    dri… vc escreve bem demaaaais!!! ave mariaaaa!!! põe umas fotos suas pra eu twittar.. beijo

  2. Camila 20/07/2010 às 2:14 PM #

    Somente belas palavras como as suas para conseguir demonstrar um pouquinho da felicidade que é se deslocar pela cidade em cima de uma bicicleta.
    Estou ansiosa pra ler o trabalho todo!
    bjs

  3. Alexandre Hosken 21/07/2010 às 2:26 AM #

    Olá! Sou monitor de um grupo de ciclismo de BH chamado Le Vélo, fundado por um grupo de meninas há cerca de 6 anos e liderado pela Andréa Marcellini. Promovemos todas as quartas-feiras pedais noturnos voltados para quem estiver a fim de dar um “rolé” por BH, sem aquela coisa toda de treino, etc, etc. Dou todo o meu apoio à esta iniciativa fantástica de vocês e espero que sigam firme nos pedais, incentivando cada vez mais a prática do ciclismo como meio de transporte e, principalmente, como exemplo de respeito à vida e ao meio-ambiente. Parabéns, abraços e ó: usem capacete, viu? 😉
    PS: Que nome bacana vocês arranjaram, hein? Pedalinas… Show!

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