Mulheres no trânsito – de bike

19 jul

Reproduzo aqui o texto que escrevi recentemente pro blog Outras Vias escrito pelo amigo-jornalista-ciclista Daniel Santini – Leitura recomendada!

O texto é tipo uma ‘biografia’ sobre como comecei a pedalar em SP, contando um pouco da história e da minha relação com a cidade e a bicicleta. Só tomei a liberdade de colocar fotos diferentes do original:

Mulheres no trânsito – de bike

Já tem tempo que desacredito nessas associações entre mulher e fragilidade. E a inspiração sempre foi minha mãe que enfrenta as dificuldades diárias com mais coragem, força e garra que muitos homens por aí. Largar o colinho dela não foi fácil e encarar a cidade grande – sozinha – menos ainda.

Na luta por uma rotina saudável, acabei trombando com a bicicleta e foi amor à primeira vista. Pedalar na cidade, como meio de transporte, me pareceu a idéia mais genial e idiota que tive ao mesmo tempo: ainda que parecendo óbvia a eficiência da bike em meus trajetos (de 10km no máximo) tava na cara também que ninguém apoiaria, pois o trânsito não é nada convidativo. Mas dane-se! Eu queria experimentar, sentir, formar opinião. E isso ninguém mudaria.

Comecei alugando aquelas bicicletas do Use Bike, no metrô, e fazia os caminhos nos finais de semana para conhecer rotas alternativas e perder o medo dos carros. Pouco tempo depois comprei minha primeira filhota (batizada de Amelie) e conheci os primeiros e fundamentais amigos da magrela – ela aproxima as pessoas. De lá pra cá os tempos de solidão (causados pela readaptação à cidade) e sedentarismo foram pro espaço! De quebra passei a admirar mais  São Paulo, ver beleza e vida onde só enxergava cinza e stress.

Confesso que sempre gostei de praticar esportes, mas utilizar a bike como principal meio de locomoção, definitivamente não estava em meus planos. O carro que ganhei de presente de formatura, perdeu espaço na minha vida e se transformou em outra bicicleta incrível (batizada de Benedito, é bike-menino sim), além de uma poupança no banco mais gordinha.

Fato é, gostar de esportes só ajudou na inquietação frente à acomodação tão estimulada hoje em dia, que fez e faz as pessoas largarem hábitos saudáveis, como caminhar e correr, para viverem atoladas numa bolha de metal pra ir até na padaria da esquina.

Sim, o trânsito de São Paulo é um caos, é perigoso, é machista e injusto. Não vou dizer o contrário, os jornais não deixam. Mas posso dizer com propriedade que É POSSÍVEL ser e fazer diferente!! Basta ter vontade, atitude e iniciativa. O simples ato de deixar o automóvel de lado e encarar as ruas da cidade com uma bicicleta tem força incalculável.

Representa o descontentamento com o modelo de sociedade estabelecido, representa a esperança que um dia o trânsito mate menos pessoas, representa a simples opção de querer me locomover do jeito que eu quiser. E se você prefere sair de carro, moto, ônibus, trem ou avião, respeite quem decidiu ir de bicicleta até o trabalho, escola ou parque. Por que a rua é de todos e o direito de ir e vir também.

Nesse contexto conheci as Pedalinas – coletivo de meninas que pedalam urbanamente em SP – e fez toda a diferença trocar experiências com garotas que sentem os mesmos prazeres e dificuldades que eu. Nos reunimos todo primeiro sábado do mês, a partir das 14:30 na Praça do Ciclista.

Fico feliz a cada nova bicicleta que cruzo, mas fico radiante quando em cima dela tem uma mulher. Espero poder influenciar mais e mais meninas que, assim como eu, acreditam e querem uma vida mais legal, alegre, cheia cores e amigos!

Cada um escolhe por quais rumos seguir e que caminhos trilhar. E independente da opção: Eu vou de bike!

* Aline Cavalcante é ciclista, jornalista, nasceu em Brasília mas é sergipana de coração. Faz pós em Jornalismo Multimídia, mora em São Paulo há 2 anos, é integrante do CicloBR e da Associação de Ciclistas Urbanos de SP (Ciclocidade), e luta por uma cidade mais humana. Pode ser contatada no e-mail pedalinee@gmail.com e no twitter @pedaline

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5 Respostas to “Mulheres no trânsito – de bike”

  1. Camila 20/07/2010 às 2:18 PM #

    Sim, sim, eu conheço a sua história e eu já li ou vi em reportagens algumas vezes, mas eu sempre gosto de reler ou ouvir novamente porque descobrir que fazer diferente é possível e muito mais agradável tem que ser revivida sempre! Só o que lamento todos os dias é não ter feito essa opção antes…
    bjs

  2. Rayane Souza 21/07/2010 às 3:58 PM #

    Nossa, muito bacana a sua vivência.
    Me identifico muito com tudo que escreveu.
    Moro aqui em BH e mesmo eu pedalando todos os dias a mais de 8 meses, vi somente 1 vez uma mulher de bike em meio ao trânsito.
    Isso me deixa um pouco triste, porém me alegra saber que são elas que mais me param na rua para tirar dúvidas em relação ao uso da bike como tranporte.
    Aliás, a vivência com as pessoas é algo incrível. A bike é minha amiga inseparável e tornou-se até mais simpática que eu…ahhha
    Como você disse, somente a o fato da presença feminina no transito, de bike, já é uma revolução.
    Aos poucos, vou convencendo todas as minhas amigas a pedalar, mesmo que seja só no fim de semana. Ainda sou taxada de louca, por andar nesse trânsito desumano que é o da região central de BH (ou toda BH), mas nem ligo.
    Aliás, as críticas e a vivencia que tenho na maneira que usufruo da cidade, me faz acreditar cada vez mais na minha simpática amiga e na revolução que ela pode causar.

    Abraços!

  3. alinizinhazona 21/07/2010 às 4:31 PM #

    pois é raiane…

    mulheres enfrentando situações fortes assim são inspiração pra muita gente…. a maneira como estamos nos inserindo socialmente tem representado cada dia mais uma grande evolução, que nao tem mais volta e é essencial pra exercermos nossos direitos!

    quero muito poder ajudar as meninas que me abordam…. aqui em sp ja tem um monte, mas pode ter certeza que grande parte dessa repercussão toda tem a ver com o estado de calamidade pública que vive SP hoje.

    os congestionamentos e o stress no transito são realmente tristes, doentio.. de verdade!! isso tem feito (na marra) as pessoas repensarem seus hábitos…

    se BH e o restante do brasil continuar seguindo o (pessimo) exemplo de SP, em pouco tempo teremos mais cidades doentes, travadas, e nos corredores um monte de ciclista deslizando no asfalto!

    beijo

    • Rayane Souza 23/07/2010 às 4:29 PM #

      É mesmo, Aline…

      Infelizmente, BH segue o mesmo ritmo de SP…
      Aqui estão implantando um plano de mobilidade urbana em que as principais vias de ligação [bairro-centro] estão sendo apliadas.
      Você acredita que não foi criada nenhuma ciclovia! E nem vão criar.
      E o mais estranho é que essas vias de ligação, que funcionam como as marginais aí em SP, quase não existiam sinais para pedetres, e, depois da ampliação, menos ainda.
      Viraram somente corredores motorizados e, bairros que ficam um em frente ao outro, são verdadeiras cidades distantes, que no mito popular só se “atravessa” de carro.
      Num futuro próximo, tudo vai parando, ficando lendo… vai virando SP.
      Creio que a bike, nesse momento, seja a melhor forma de integração entre esses “distantes” espaços.
      E, com a força da mulher, a visibilidade da bike é muito mais bonita, sutil, atrativa.

      Com a força e convicção chegamos lá!

      Bjos a todas pedalantes!

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