O que sustenta seu efeito “cômico”?

10 ago

Post-resposta, o texto referido pode ser encontrado aqui.

***

Recurso discursivo torpe, os estereótipos abundam em textos de “humor ácido”, “humor despudorado”. Mesmo autores incapazes de sugerir formas que ganhem contorno para além de um texto (reticências discursivas dependem de alguma competência) podem obter resultados fáceis ao lançar mão de algumas sombras do conjunto dos estereótipos.

E não precisa ir longe para encontrar o estereótipo que aqui foi traçado no ar: a lésbica, andrógena, que adota animais e se engaja em causas políticas. Sugerida em fragmentos, a imagem ajuda a compor o pano de fundo contra o qual Falzoni é acusada de destoar do comum, do aceitável. Só a recusa ao papel de “avó modelo” parece não bastar para caracterizar toda sua (suposta) excentricidade.

Agora, num universo de toques contados, é de se indagar o motivo que move toda essa caracterização. Suspendendo a hipótese da simples má-redação, pode-se vislumbrar um esquema “humorístico”: um estereótipo é ativado, ele é afastado (sem nunca sair realmente de cena), depois se acrescentam outros elementos “cômicos” – cabelo incomum, comportamento impertinente para a idade, furor conservacionista – e se obtém novo estereótipo, a “fundamentalista amalucada”. Imagem que servirá para ornar o resto do texto, bem como para ilustrar como é uma das pioneiras do movimento ciclístico em São Paulo. Eis uma forma bem visual de se começar a desacreditar entrelinhas a causa que será criticada.

Pondo de lado as questões pessoais que se referem à Renata Falzoni, já respondidas por ela, opto por focar esse comentário no uso desses estereótipos e desse “humor”. Pois quando palavras alcançam um veículo de ampla divulgação, acredito que deveriam ser devidamente ponderadas e pesadas. Antes e depois. Nesse âmbito, é justa a cobrança por uma parcela de responsabilidade, ainda sabendo que alguns insistirão em acrescentar o “i” na frente do termo.

E acredito que essa reflexão é válida não pelo fato de julgar que a coluna mereça maiores atenções por si (pessoalmente não aprecio esse tipo de “humor”, nem seus autores-trapezistas, sempre saltando de polêmica em polêmica). Mas pelo fato do texto cristalizar certas ideias, atitudes e posturas que se encontram nas ruas. Essas sim merecem atenção e, creio, devem ser contestadas em todas as formas que adquirem.

O que se revela aqui é um ideário sedimentado em maior ou menor escala, mas sempre nocivo, em diferentes campos: ideário que tenta deslegitimar o direito de se locomover com a bicicleta; ideário que busca desmerecer e ridicularizar os que defendem esse meio de transporte; ideário que se alimenta de imagens pré-concebidas do que deve ser a mulher e de como ela deve se portar em cada faixa etária, em cada fase de sua vida e família; ideário que busca classificar pessoas pela sua apresentação estética; ideário que esbanja estupidez em questões de orientação sexual, que insiste em forçosamente coincidir aspectos físicos com uma determinada orientação sexual, que insiste em apontar a homossexualidade como um desvio, uma impostura que se refletiria em diferentes traços definíveis. Isso tudo tem que ser combatido, desbastado até o último grão.

O “humor”, aparente pique universal, não pode continuar como refúgio seguro para os que compartilham desse ideário. Ainda que fácil, o abrigo é curto: na medida de pessoas pequenas e covardes, que não são obrigadas a arcar todos os dias com o real peso das coisas com que brincam e o impacto de suas “graças”. Arcar implicaria reconhecer que o conjunto de signos usados para construir esse tipo de texto “engraçado” é calcado em múltiplas violências. Violências de gênero, de orientação sexual, ao direito de se locomover de bicicleta etc. Violências que se manifestam diariamente em palavras e atos, agressões físicas e morais. Não sou partidária do humor acima de tudo: piadas com lastro em violência não me interessam.

Por último, palavras, atitudes e pessoas não surgem do nada. Resultam de uma combinação complexa de coisas como um local cultural (que não é necessariamente relacionado com a localização geográfica, econômica ou social); da construção de uma percepção pessoal sobre o mundo; uma forma de expressá-la, materializada em ditos e atos; e um modo de se relacionar com o outro, seus direitos e suas diferenças. Nesse sentido, alguns solos são mais férteis, alguns cultivadores mais hábeis, e em alguns, ainda, reside coragem na exata medida para a mudança sempre que necessário. Já outros se contentam em ficar na janela, a torcer o dito popular, agarrando-se tenazmente à crença estéril de que a grama do vizinho não é a mais verde.

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13 Respostas to “O que sustenta seu efeito “cômico”?”

  1. acruzcosta 10/08/2010 às 8:16 AM #

    Belo, como uma luva. Sem mais o que falar.

  2. Lívia Araújo 10/08/2010 às 9:20 AM #

    Perfeito, elegante e certeiro.

  3. Aline Cavalcante 10/08/2010 às 9:51 AM #

    vc tocou em pontos chave, quase imperceptiveis a olho nú
    o texto daquela “jornalista” passa mensagens tão subliminares que tenho até medo do reflexo que isso pode ter causado
    obrigada pelos esclarecimentos, dri!

  4. Dezporhora 10/08/2010 às 10:02 AM #

    Olá garotas, tudo bem? Muito bom o texto e o blog de vocês. Gostaria de convidá-las para conhecer nosso blog, o 10porhora. Também demos uma resposta a Ganância. Vamos fazer uma parceria? Somos um grupo de ciclistas com integrantes em Mato Grosso, Brasília e Santarém. Cordiais saudações!

    • Aline Cavalcante 10/08/2010 às 10:42 AM #

      olá!!
      tinha lido a resposta de vcs.. tb ficou muito legal
      =)
      que tipo de parceria vc fala?

  5. marina chevrand 10/08/2010 às 11:04 AM #

    lamentavel o episodio ocorrido. se podemos tirar alguma coisa boa disso tudo, esse texto e as questões por ele levantadas é uma. Driele, obrigada por essa resposta em nome das Pedalinas. bjos

  6. Laura Sobenes 10/08/2010 às 11:43 AM #

    Faço das palavras da Marina, as minhas: “Drielle, obrigada por essa resposta em nome das Pedalinas”… e assino embaixo.

  7. KARARYU - O DRAGÃO FANTASMA 10/08/2010 às 12:01 PM #

    Examinando com atenção, vemos no comecinho do polêmico texto o verdadeiro motivo do inconformismo de Barbaroxa (de inveja) K. Gancia, A.K.A. Capitão Gancia, que passou despercebido da maioria. É que a Falzoni será merecidamente contemplada com a Medalha José de Anchieta, próximo dia 3, congratulations are in order.

    Como o sucesso alheio incomoda os invejosos, né?

    E não podemos negar que “a polêmica é o atalho para o sucesso”. Capitão Gancia quis trollar e causar pra obter visibilidade e conseguiu. No mais, é tudo recalque de mal-amada.

    #INVEJAPURA #VAILAVARROUPA #GETALIFE

  8. Marcelo Mig 10/08/2010 às 12:03 PM #

    Quanta inteligência, profundidade e elegância em texto que comenta o seu contrário / oposto / inverso!

  9. Lan 10/08/2010 às 12:49 PM #

    Grande resposta, Dri!!

    Quando li o texto da B. Gancia fiquei descrente de que aquilo era sério de tão absurdo! humpf…

  10. Felipe Aragonez 10/08/2010 às 1:11 PM #

    Parabéns guerreiras. Continuem a luta contra o Apocalipse Motorizado!

  11. renatagramos 10/08/2010 às 3:23 PM #

    Inacreditável tanto absurdo dessa B.Gancia!

    Obrigada, Drielle, por responder em alto nível.

    Assino embaixo.

  12. anabadue 13/08/2010 às 4:06 PM #

    Assino embaixo também, umas vinte vezes!

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