Investigação – Um pouco além em “Como Colocar Mais Ciclistas nas Ruas”

20 ago

Lendo o texto “Como Colocar Mais Ciclistas nas Ruas”, que foi postado ontem nesse mesmo blog, senti alguns incômodos que não soube explicar muito bem na hora, mas com um pouco mais de tempo consegui elaborar algumas coisas…

O artigo constata que deve-se dar atenção especial às preocupações das mulheres com relação à segurança e praticidade na locomoção urbana. Não discordo, mas acho importante levar a discussão um pouco adiante, pensando de maneira mais ampla e a longo prazo.  Porque será que um padrão de comportamento se repete mais frequentemente em mulheres, e aquele outro é mais comum entre os homens?

O próprio texto aponta uma hipótese: as mulheres mais frequentemente são incumbidas de afazeres domésticos que

Mulher em Biguaçu, SC, leva três crianças na bicicleta

requerem o uso do automóvel. Levar as crianças à escola e fazer compras seriam bons exemplos. Não conheço a realidade estadounidense, à qual se refere o artigo, entretanto creio que não seja demasiadamente diferente a ponto de impedir a comparação com a realidade no brasil, em que, por exemplo, é maioria a quantidade de mães que assumem a criação dos filhos, como se tal dever lhes coubesse mais que aos pais das crianças. Ou seja, banalizamos e ignoramos questões fundamentais se afirmamos que “faltam ciclovias para o mercado, a escola e a creche, e por isso as mulheres não pedalam.” Não podemos negar que, no geral, a situação atual das mulheres na sociedade seja essa, mas tambem não podemos deixar de fazer essas observações (, que sei que parecem até datadas de décadas atrás mas, como vemos, mudanças muito profundas parecem não ter acontecido).

Vasculhando a internet achei uma outra hipótese nesse post, que fala sobre os assédios de que as mulheres são vítimas nas ruas e sobre como isso influencia a escolha do meio de transporte utilizado.

Ou seriam as mulheres “naturalmente” mais cautelosas, como poderia alguem interpretar ao ler no referido texto a afirmação de que “a mulher é mais aversiva a riscos”?  Ora, pensamento muito perigoso, esse! A suposição de que há comportamentos simplesmente inerentes a um grupo, determinados por fatores como gênero, cor, classe social, etnia, etc, é forte geradora de preconceitos. Não há comportamentos inerentes ou “naturais”. Hoje em dia pode parecer clichê repetir essas idéias, mas infelizmente elas ainda não parecem ter sido muito bem assimiladas: um ciclista não precisa ser esbelto e forte para ser ciclista, um homossexual não é necessariamente afeminado, uma mulher não precisa ser delicada para ser mulher, um homem não precisa saber carregar peso para ser homem, e por aí vai. Assim como não podemos cair na crença de que mulheres são mais cautelosas porque isso é inerente a elas, nem que homens se expõem mais aos riscos porque isso é inerente a eles.

Nossos corpos e personalidades são formados não apenas geneticamente, determinados no momento da concepção. Somos majoritariamente formados no decorrer de nossas vidas, ou seja, tambem cultural e socialmente. Logo, vale questionar essa cultura em que mulheres são formadas de maneira a terem mais receios/cautelas enquanto homens se tornam mais corajosos/ inconseqüentes. O que produz tais comportamentos? Não é muito difícil arriscar alguma resposta se olharmos com mais atenção para crianças de sexos diferentes em seu ambiente familiar ou escolar, para as novelas exibidas na TV, ou para qualquer espaço de convivência. Mas isso é assunto interminável, que fica para uma outra ocasião…

A infra-estrutura segura como pré-requisito para o uso da bicicleta é associada mais à mulher que ao homem. Acredito que é válido, porem, insuficiente apenas focar em atender às preocupações específicas de cada gênero. Alem disso, devemos trabalhar para que, a longo prazo, tais preocupações não possam mais ser identificadas em função de gênero, agindo em busca de uma mudança profunda nos valores da sociedade.

Aliás, essa questão da “segurança como pré-requisito para começar a pedalar” tambem foi uma que me incomodou. Acontece que não podemos esperar que existam meios absolutamente seguros antes de começar a pedalar. É claro que cada um conhece os próprios limites, mas a necessidade de abandonar o automóvel como meio de transporte cotidiano é urgente. (Até porque é ele mesmo o principal gerador dos riscos que enfrentamos no trânsito.) Não podemos continuar destruindo a vida alheia e a nossa própria enquanto esperamos a cidade “ficar pronta para nós”.

Sem iniciativa, não há mudança. Quer dizer, alguém tem que botar a cara.

E porque nós, mulheres, deveríamos delegar esse papel aos homens? Esperar que eles se arrisquem mais do que nós, como se fôssemos “naturalmente” cautelosas (ou receosas?) e assim nos acomodarmos nesse argumento? Não é fácil. Não é fácil para ninguem. Quem já abriu uma trilha no meio do mato fechado, sabe do que estou falando. Arranhões, suor, facão na mão, muito trabalho e o avançar lento.

Assumir um modo de vida no qual acreditamos, mesmo enfrentando dificuldades por estar num meio que nos é hostil, é inevitável no processo de construção do mundo que queremos. Nós todxs abrimos caminhos, independentemente do gênero.

Aliás,  ninguém disse que seria fácil… Mas estamos aqui para mostrar que é menos difícil do que parece.

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8 Respostas to “Investigação – Um pouco além em “Como Colocar Mais Ciclistas nas Ruas””

  1. Lívia Araújo 20/08/2010 às 10:19 AM #

    Diana, achei teu post super relevante. Meu hábito de andar de bicicleta surgiu não porque abriu precedentes para que o fizesse – pelo contrário. Esses dias mesmo, estava desmontada da bicicleta, tentando atravessar um cruzamente engarrafado em que os carros não davam espaço a nada (nem a pedestres nem a eles mesmos), e uma moça a pé me perguntou como eu conseguia andar de bike com esse trânsito. Respondi que “a gente vai tentando, né?”. E ela concordou. “É mesmo. Alguém tem de começar”. Vejo muitas, muitas mulheres em Porto Alegre andando de bike. Mulheres SEMPRE driblam alguma falta de infraestrutura (ou mesmo de estrutura) para viverem suas vidas e no trânsito não seria diferente.

    • Daniel de Andrade 20/08/2010 às 10:36 AM #

      Acho que isso é uma coisa que a mídia impôs, o tal do sexo frágil. Coisa muito boba, as mulheres sempre tendem a superar obstáculos mais rápido que os homens e sempre de forma mais sensata. Fugindo do assunto, eu vejo pela minha mãe que me criou sozinha, e muitas vezes apenas com o apoio da minha avó.

  2. Aline Cavalcante 20/08/2010 às 10:53 AM #

    gostei da reflexao tb! re-li o texto com outros olhos, agora.. parabens diana

    • Rayane Souza 20/08/2010 às 4:25 PM #

      Diana, muito bacana a sua impressão sobre o texto.
      E concordo plenamente com tudo que escreveu.

      O texto discutido se baseia em estastísticas e estudos científicos e a tendência é chegar ao comportamento mais comum no que diz respeito a homens e mulheres.
      Na minha opinião, a diferenciação de gêneros AINDA é a forma mais fácil de se medir algo (homem/mulher, motorista/ciclista/skatista, criança/adulto, etc).

      Porém, a sociedade caminha para “não uso” de generos e sim para comportamentos/tendencias tão interligados que a separação seria impossível e, na minha opinião, chegaria ao ponto de total irrelevancia.
      Não sei se estou “viajando” de mais, mas vejo isso claramente na arte [música, dança, etc…]
      E como a filosofia de um século é a ética do século seguinte… estamos caminhando para materialização disso.

      Bom… creio que a questão de que “isso é coisa de homem”, ou “isso é coisa de motorista”, ou “ciclovia é coisa de mulherzinha” está terminando e não digo somente por estar ouvindo cada vez menos “piadinhas” de gays ou de “mulheres ao volante”, mas que existe uma pressão, mesmo que ainda um pouco tímida, em relação a irrelevância desse tipo de atitude.

  3. Ana Flávia 23/08/2010 às 10:00 AM #

    É isso aí, Diana!
    Um ótimo texto!!

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