Uma espiã na casa da bicicleta

17 nov



Quando eu era pequena, morria de medo da lenda do Boi Tatá. Essa lenda nos conta que, em tempos imprecisos, havia uma enorme cobra, o boiguaçu, que habitava a floresta. Uma noite, essa cobra foi despertada por uma inundação e começou e perseguir os animais que fugiam. Ele queria comê-los, mas não desejava seus corpos: o boiguaçu comia apenas seus olhos.

O boiguaçu comeu tantos olhos que se tornou luminoso – uma luz transparente e clara que provinha dos olhos devorados. Apesar de olhos lhe darem luminosidade, não lhe davam substância. E boiguaçu morreu. Após a morte do boiguaçu, a luz intensa que estava presa em seu corpo saiu e começou a errar pelos campos e florestas. Essa luz é conhecida como Boi Tatá (serpente de fogo, em tupi) e ele protege as florestas dos incêndios. Sua vingança é queimar a carne daqueles que incendeiam a floresta e as árvores com a mesma crueldade e ardor.

O Boi Tatá surgiu na minha frente naquela noite da bicicletada. Uma enorme nuvem de vaga-lumes vermelhos e brancos, iridescente, confusa. Centenas de rodas roçando no asfalto, estarrecendo os carros confusos que paralisavam como rãs diante de uma lanterna. A cena me parecia quase absurda, como se fôssemos todos nos emaranhar em algo único, maior, visível. E foi assim que aconteceu. Era impossível permanecer impassível àqueles que estavam fora do turbilhão, pedestres e motoristas com respeito curioso, espiando parados. Espiando como eu achei que estaria fazendo. Investigando as máscaras que as pessoas usam neste grande teatro de horrores que é o trânsito paulistano. Espiando as bicicletas como Anaïs Nin espiou a casa do amor.

Esperei ansiosamente os dias para ir à tal bicicletada do Dia Mundial Sem Carro, sem saber o que esperar. Havia apenas três semanas que estava observando a bicicleta e os ciclistas, mas bem de perto. O melhor modo de espiar, às vezes, é se fundir com o objeto, vivendo com ele e como ele. O início foi tímido e covarde, com algumas pedaladas pelo bairro e no parque. A bicicleta era apenas uma suspeita de possibilidades secretas. O primeiro dia mais ousado foi com as Pedalinas, com direito a girar pelo centro, e ser buscada e depois devolvida em casa. Havia feito meu primeiro trajeto longo sozinha pela cidade havia menos de uma semana. A sensação que tive foi, por um lado, de me jogar no abismo do desconhecido e, por outro, de emancipação, pois não temia mais a vertigem que esse abismo me causava. A bicicletada parecia um sonho remoto.

Quando a nuvem luminosa chegou à 23 de Maio, achei que aquele fluxo de bicicletas era natural, então fui escorrendo junto com as pessoas para dentro da avenida. Muitas pessoas erguiam suas bicicletas e paravam carros, ônibus e motos com seus risos incontroláveis por estarem sendo visíveis para as pessoas que existem por detrás de suas pesadas máscaras de lata, seus fardos. Então chegamos dentro do túnel Ayrton Senna, e aquela foi uma das coisas mais belas que já vi. Nesse momento, senti que não estava mais espiando, mas que havia me apaixonado completa e irremediavelmente por minha suspeita. A bicicleta deixou, neste momento, de ser um objeto distante, avulso, e passou a ser uma força criativa, uma pulsão de vida. Muitos acreditam, como eu acreditava, que a bicicleta era uma pulsão de morte, um risco, uma exposição excessiva. Mas a máscara caiu e eu desvendei o segredo: a bicicleta sempre revela novos segredos íntimos.

Durante aquelas poucas horas, não havia senão bicicletas nas ruas em que passávamos. Guardo esta imagem precisa, uma pequena fagulha que guardei da minha primeira bicicletada. Vez em quando espio esse ponto luminoso, esse ocelo de Boi Tatá perdido nos quartos empoeirados e escuros onde habita a memória, traiçoeira como uma serpente. Me perco no movimento sensual da cobra luminosa, em seus olhos de luzes de bicicletas, em sua força criativa. E fico em dúvida se alguém foi queimado pelo Boi Tatá neste dia.

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13 Respostas to “Uma espiã na casa da bicicleta”

  1. Daniel de Andrade 17/11/2010 às 10:42 AM #

    Maravilhoso esse relato.
    Sabe que senti algo semelhante na minha primeira bicicletada, algo magico, como se naquele momento o mundo fosse diferente.
    Mas realmente a bicicletada do DMSC ficara na memoria de todos. Afinal eramos o transito.
    Abraços

  2. Felipe Aragonez 17/11/2010 às 11:57 AM #

    Muito interessante a sua relação feita com a Bicicletada e com o Boi Tatá!

    Gostei! Parabéns!

  3. Jeanne 17/11/2010 às 2:11 PM #

    Lindo, incrível! Que texto bom de ler, Kelly! Sempre difícil inovar na forma de contar essas emoções todas que pedalar desperta na gente…
    E tu estás certa: bicicleta é pulsão de vida! ^^

  4. Jeanne 17/11/2010 às 2:12 PM #

    Lindo, incrível! Texto super bom de ler! É difícil inovar na forma de descrever as mudanças que a bicicleta desperta, mas você foi bem feliz nisso… ^^
    E tá certo: bicicleta é pulsão de vida!

  5. Camila Oliveira 17/11/2010 às 5:10 PM #

    Uau, que texto lindo!
    Revivi um pouco do que foi aquela linda noite de 22 de setembro (como se fosse possível esquecer que fluimos pela 23 de maio…)

    bjs

  6. Guilherme 18/11/2010 às 12:41 PM #

    Que inveja que dá neste bicicleteiro veterano ver o deslumbramento de uma pessoa que descobre a bicicleta desta maneira. Belo relato, vou espalhar pela aí.

  7. diana 18/11/2010 às 12:57 PM #

    muito belo relato.
    (e um pouco dessa invejinha tb, rsrsrs)

  8. Kelly 18/11/2010 às 2:47 PM #

    Pois é, pessoal, realmente me apaixonei! Mas ainda saio muito pouco com a bicicleta, preciso de um pouco mais de tempo… mas depois de dois meses “espiando”, já tô cara de pau o suficiente pra dar umas cortadas no trânsito. hehehe

    E Jeanne, talvez você nem se lembre, mas você é a maior culpada de todas! Só fui nessa bicicletada porque te perguntei, uma semana antes do dmsc, na saída do Mão na Roda, o que você achava. Você falou que era tão incrível que tive que ir lá espiar… 😉

  9. Aline Cavalcante 18/11/2010 às 3:05 PM #

    lindo relato!! liiiiiiindo.. essa bicicletada do dmsc foi algo sem explicação.. contagiante.. arrematador!! muitos dias sem carro pra todas nós

  10. Drielle 19/11/2010 às 11:04 AM #

    Que texto foda, Kelly ^^

  11. lan 20/11/2010 às 2:17 PM #

    Wow!! Ótimo texto!! Adorei a analogia, sensível, poético… =D
    Pena q perdi essa bicicletada do DMSC, mas a minha 1ª bicicletada tb foi emocionande ;D

  12. Márcio Campos 21/11/2010 às 11:45 AM #

    Kelly

    Contar sem emoção, sem poesia, é “boletim de ocorrência”. Gostoso demais te ler, nas linhas está sua sensação evidente, me remeteu direto à minha primeira bicicletada de sexta num dezembro de 2007.

    Bom ver novos olhos chegando, trazendo novamente a empolgação, e esse descontrole que tira o fôlego como criança brincando com brinquedo novo.

    Seja bem vinda

    bjos

    Márcio Campos

    • Sarinha 11/12/2010 às 3:01 AM #

      10 décadas depois…Kelly, só li agora seu texto, estou muito muito atribulada com as atividades da facu e ando meio distante, assim que terminei já pensei nas pessoas que adorariam seu texto e que não pedalam ainda para enviar, llindo, contagiante, encantador, parabéns! Continue escrevendo moça, você domina!!!
      um beijo e qq coisa estou ae para mais pedaladas!

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