Eu e minha bicicleta

23 fev

Definitivamente minha bicicleta precisa de um nome

Lembro como se fosse ontem de quando fiz meus 18 anos. Meus pais realizaram o sonhos de muitos outros pais ao me darem meu primeiro carro, um golzinho azul, daqueles quadradinhos, motor 1.0, a quem eu dei o nome de Frederico.

Naquele tempo, como muita gente faz até hoje, eu associava o carro, a carta de motorista, à liberdade de ir e vir. Adorei todo o processo de aprender a dirigir e, modéstia à parte, aprendi muito bem todos os macetes. E nem poderia ser de outra forma: morando em Guarulhos e trabalhando como auditora eu atravessava a cidade de São Paulo diariamente, quase sempre nos horários mais complicados.

Eu ainda adoro dirigir… Na estrada. Após anos e anos passando em média três, quatro horas por dia parada em alguma avenida, a ideia de que carro e liberdade são equivalente não existe mais. A única exigência feita na escolha do apartamento para mudar após o casamento: no meio de São Paulo, perto de uma estação de metrô. Foi assim que eu fui parar na Vila Pompéia, entre as estações Vila Madalena e Barra Funda. Foi por isso que os dois carros que tínhamos, eu e meu marido antes do casamento, viraram apenas um.

Depois que nasceu a Carol a distância entre eu e o carro só aumentou: passei a buscar solução para tudo perto de casa, do supermercado a escola, passando por médicos, lojas de roupas, petshop, boteco e restaurante. Se for possível ir a pé é a escolha ideal.

Quando voltei a trabalhar, a Carol com um ano de idade, escolhi um emprego na Avenida Paulista. Seis quilometros me separam de meu escritório – quando eu morava em Guarulhos a conta era sempre acima de 30 – que fica ao lado de outra estação de metrô. Sim, eu sei que a maioria não consegue, pelos mais diversos motivos, ter a comodidade que tenho, mas também não agradeço aos céus pelo que consegui: fiz certos sacrifícios na carreira, pago mais pelo financiamento do apartamento, o que significa gastar menos com outras coisas, tudo para realizar o sonho de não depender mais de um carro.

Hoje, 07 anos depois da Carol ter nascido, 08 anos depois de eu ter assinado um caminhão de promissórias e 06 depois de ter escolhido a comodidade como prioridade na opção por um emprego, eu raramente uso o carro. Algumas vezes meu marido viaja e eu poderia vir com o carro para o trabalho, a escolha é deixá-lo próximo a estação de metrô, após deixar a Carol na escola, e pegá-lo apenas no final do dia. Troco 30 minutos de carro por 20 entre metrô e caminhada, mas me sinto muito mais livre e ainda leio um livro.

Não sei ao certo quando eu comecei a olhar para a bicicleta de outra forma. Entendam que eu até tinha certo preconceito: não sou dada a atividades físicas e meu irmão é daqueles obcecado por esporte, que desce a serra de bicicleta como se isso fosse a coisa mais normal do mundo. Mas a questão é que eu olhei e percebi que, antes de ser o objeto de tortura das academias, a bicicleta era um meio de transporte.

Isso é tão óbvio que é até ridículo eu nunca ter pensado nisso antes.

Comecei então a procurar sites que falassem da bicicleta de forma diferente, comecei a prestar mais atenção ao pessoal que usa a bicicleta no dia a dia, aqui mesmo na Avenida Paulista. Descobri que o movimento Cyclechic também existia em São Paulo e coloquei na cabeça de que essa sim era uma opção pela liberdade.

Primeiro de tudo eu tinha que resolver uma questão de ordem prática: eu precisava de uma bicicleta. Tá, eu tinha uma bicicleta, uma Caloi usada para passeios. Mas ela tinha um problema que talvez tivesse me afastado da bicicleta muito antes da ideia de que ela é para esporte: ela era grande demais para mim. Você já parou para pensar que para uma pessoa que tenha menos de 1,60m, tipo eu e os meus enormes 1,54 (meu pai disse que eu tenho horário e não altura), uma bicicleta aro 26 é ENORME? Eu não consigo simplesmente parar a bicicleta e ficar com ela em pé. É impossível.

Foi quando eu descobri as bicicletas da Dahon, uma marca americana que faz bicicletas que dobram – olha que ideia SENSACIONAL – e que tem aro 20, o que torna muito mais fácil a minha relação com a magrela. Problema? Só o preço, não é? Mas teimosa determinada como sou, estabeleci a meta e comecei a guardar um pouquinho por mês. Foi um ano fazendo contas e então pude comprar a minha bicicleta à vista e ainda coloquei uma cestinha linda, de vime, na magrela.

A bicicleta está sendo muito bem usada em todos os finais de semana, temos aproveitado a ciclovia do Parque Villa Lobos em família – no embalo meu marido comprou uma bike nova para ele e a Carol está usando a que ganhou no ano passado – o que me permitiu aprender melhor como controlar a bicicleta, que é mais arisca por conta do corpo ser menor. Não foi só isso que ganhei: a Carol está adorando o programa em família, depois de andar de bicicleta, brincamos de pega pega, fazemos piquenique e empinamos pipa, voltamos todos a ser crianças.

Ah, também tenho dormido muito melhor e ganho novo fôlego, me sentindo mais saudável.

Mas o projeto vai mais longe: eu quero usá-la para vir trabalhar, algo totalmente plausível na distância que tenho, ainda mais se considerarmos que boa parte dela são duas retas seguidas, as Avenidas Dr. Arnaldo e Paulista.

Para poder fazê-lo eu preciso de duas coisas: primeiro convencer meu marido que isso é possível, de que não serei atropelada logo na primeira tentativa (para isso eu tenho contado com os vários blogs e relatos do pessoal que já faz isso todo dia); segundo, preciso acertar a rotina da Carol, já que fica meio complicado levar a pimpolha de 07 anos na garupa com uma mochila enorme.

Por isso em 2011 a rotina muda um pouco: Carol mudará para uma escola mais perto ainda de casa, o que me permitirá levá-la a pé mais cedo e depois pegar minha bike e seguir, seja para o trabalho seja para a estação de metrô – a da Vila Madalena tem até bicicletário, mas minha intenção é dobrar a bike e carregar comigo até a estação Brigadeiro, seguindo então até o escritório com ela.

Ah, sabe o que é mais engraçado? A Carol tem repetido constantemente que, por ela, todo mundo abandonava o carro e usava bicicleta no dia a dia. Acho legal isso porque nunca falei para ela sobre minhas intenções assim, de forma séria ou fazendo a defesa disso, sabem o que eu quero dizer? É claro que crianças são super inteligentes e pegam as coisas a sua volta, mas mesmo assim achei sensacional ela externalizar dessa forma. Isso significa que, para ela, a bicicleta já está muito mais associado ao bem estar do que estava para mim no passado.

Eu prometo contar para vocês aqui da evolução do meu plano de ir de bike para todo lado. E, para quem já adotou a bike de vez, me ajuda aí a convencer meu marido de que é possível, mesmo que você more na terra das cabras, ops Pompéia.

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9 Respostas to “Eu e minha bicicleta”

  1. Dri 24/02/2011 às 12:47 PM #

    Que história linda, Simone!

    O passo mais importante você já deu: olhou para a bike e pensou nela como um meio de transporte. Aos pouquinhos você consegue encaixar ela na sua vida, o marido vai se acostumando com a ideia e perdendo o medo.

    Morei um bom tempo nesses lados ai, e adoraria ajudar se você quiser companhia para ir ao serviço um dia. É só me procurar lá na lista. 😉

    Bjo,
    Dri

    • Camila Oliveira 24/02/2011 às 9:10 PM #

      Concordo com a Dri! Sua história é linda e o principal já aconteceu! Você está aberta a essa nova possibilidade e quando isso acontece.. a bicicleta vai entrando na nossa vida e tranformando tudo, sempre pra melhor!

      bjs

    • Simone Miletic 26/02/2011 às 7:17 PM #

      Oi Dri,

      Obrigada! Essa semana comecei a ir casa/metro/casa, mas o calorão tem acabado comigo. A ideia é quando a temperatura baixar eu encarar o caminho até a Paulista. certeza que vou chamar uma “bike-anja” do grupo. 😉

      Camila: muda mesmo, eu falo que mesmo quando não estou de bike eu olho o mundo diferente. Eu ando a pé e descubro coisas novas. A cabeça parece ter outro ritmo.

  2. Álvaro Diogo 26/02/2011 às 6:42 PM #

    Não me recordo de como vim parar no seu blog ou no seu twitter.

    Mas não posso negar que as leituras aqui são sempre agradáveis e essa chegou a me emocionar.

    A cidade está precisando de mais pessoas como você. Bem vinda ao clube e vamos pedalar!

    Ri muito com este trecho “Você já parou para pensar que para uma pessoa que tenha menos de 1,60m, tipo eu e os meus enormes 1,54 (meu pai disse que eu tenho horário e não altura)”. Minha namorada também tem um horário e não altura e agora terá mais uma piadinha sobre altura na coleção…rsrs.

    Aliás ela também está precisando de uma bicicleta menor, logo providenciaremos isto.

    Ótimo texto!

    Saudações!

    • Simone Miletic 26/02/2011 às 7:19 PM #

      Álvaro: pobre namorada, entreguei o ouro, risos…

      Eu devo dizer que tenho um orgulho enorme de ter entrado para esse grupo, de ver a vida e essa cidade com outros olhos. É uma luta diária, mas prazerosa.

  3. Letícia 02/03/2011 às 10:13 PM #

    Oi, Simone. Tudo bem?

    Acho muito sucesso, este blog e movimento – quero um dia participar dos encontros!

    Desde q voltei de uma viagem de férias pela Holanda, quero muito comprar uma bike para ser meu transporte urbano. Eu estou em uma dúvida cruel e achei que poderia perguntar aqui… Afinal talvez vocês já passaram por isso.

    Eu definitivamente quero uma dobrável, pq sou do time aí do 1,50m de altura e tb acho que será mais prática. Agora uma Dahon Eco 3 ou uma Blitz Alloy? Será que alguém me ajuda?

    A diferença mais gritante está no preço, é quase metade. Mas será que vale a pena a médio prazo com manutenção?

    Ajudem-me!

    Obrigada,
    Letícia

    • Simone Miletic 13/03/2011 às 6:45 PM #

      Oi Letícia,

      Tudo bom?

      Então, eu quase comprei uma Blitz por conta da diferença de preço. Na época eu pesquisei muito e pelo que vi a Dahon é tipo bicicleta para a vida toda, estou com a minha há um ano e até agora não gastei nada com manutenção.

      Pedi alguns conselhos e acabei optando por ela. Hoje, mesmo apaixonada pela minha, sei que dá para ir mais devagar. Pode até ser que um dia eu conclua que devo trocar ela por um outro tipo de modelo em função do tipo de percurso que faço. Além disso, existe um mercado paralelo das usadas, então não é dinheiro perdido.

      Acho assim, se a grana está apertada, vale investir na Blitz até para ir criando coragem, usando mais, e quando der faz o upgrade.

      beijos

  4. Marcelo 06/04/2011 às 9:25 AM #

    Oi Simone, tudo bem?
    Estou ajudando a selecionar material pra uma nova publicação libertária aqui de Porto Alegre, cujo tema da primeira edição será bicicleta. Será que poderíamos usar esse teu texto e foto?
    Por favor, responde para homem_fluido arroba yahoo.com

    Obrigado!

  5. andrea 03/05/2011 às 11:20 AM #

    Oi Simone ! Há tempos que estou pra te perguntar isso .. voce consegui encaixar bem a cestinha da foto na sua Dahon? Eu comprei uma cestinha igual e é um sufoco para encaixá-la e desencaixá-la. Não sei se é porque a minha veio com algum defeito ou se aquele mecanismo do guidão da Dahon que atrapalha. Estou desistindo de usá-la :/. bjs e ótimos pedaladas !

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