Sobre uma notícia de jornal

30 mar

 

 

A reserva que um ovo inspira

é de espécie bastante rara:

é a que se sente ante um revólver

e não se sente ante uma bala.

(João Cabral de Melo Neto, “O ovo de galinha”)

 


O ovo insiste em aparar suas quinas mecânicas. Um ovo distinto, negro. Esse ovo toma forma de carro tateando no escuro; ele encerra em si expectativas. Dentro dele, feixes de reflexos de seus espelhos cruzam o interior em plasmas luminosos. Os vidros escuros, permeáveis à luz, como a fina casca branca do ovo. O miolo firme, prestes a transbordar os limites da película (cercado de uma estranha gosma transparente?), transgride. Chega um porvir imundo ronronando ameaças, bafo apressado em quentura de motor. Cem bicicletas rasgam o frescor, deslizando arritmadas em fluidez inventada. Rodando: o ovo-carro avança, muito rápido. E – os segundos de repente têm o peso da traição pelas costas – atropelamentos. Ciclistas escorrendo feito gema mole sobre seu pára-brisa, subindo, caindo pelas bordas em umidade vermelha. As formas arredondadas – para surpresa do ovo! – ficaram do lado de fora de sua casca de azeviche, girando no vazio, longe do chão.

Alguns dias antes, Ricardo fantasiava. Ele a admirava através do vidro, contemplando-a. Deslizando sensualmente, ela transpirava seus movimentos ágeis como a cheia de um rio, uma manada. Como essas coisas que fazem curvas que escapam da vista. Ele desdenhava a Liberdade todas as vezes em que ela esfregava a sua prisão através dos vidros calculadamente permeáveis. Homens e mulheres lhe privavam do que era seu. Do lado de dentro, ele sem ela. Mas Ricardo não ousava tocá-la. Em espirais, sobre bicicletas, ela continuava a rondá-lo em brisas cada vez mais soltas, sussurrando o silêncio da invisibilidade. Súbito, uma violência metálica e a fragilidade em ferida aberta. A gema (se é que assim podemos chamar aquilo que recheia um ovo inorgânico) teve seus nervos oleosos endurecidos pelo ciúme. A Liberdade sequer poderia ser sua amante enquanto ele cerrasse seu corpo dentro de tão dura matéria, lata quente de motor. Sentindo a pulsão, ele desejou o frescor que emanava de maneira irremediável: o lado de dentro ousou tocar o fora com bastante obscenidade. Rendeu-se aos impulsos despudorados que lhe coravam a face, cuspiu a clara translúcida que nutre a vida e a feriu. Junto com esse disparo, cem pessoas deitavam na secura do asfalto. E foi assim que o ovo negro despedaçou a Liberdade em cacos de bicicleta.

………………………………………………………………………………………………

Em 1935, um jornal mexicano noticiava a morte de uma mulher, encontrada em sua própria cama com dezenas de ferimentos. Próximo à mulher, encontraram seu marido, coberto de sangue, punhal na mão. “Unos cuantos piquetitos” (em tradução livre: “algumas punhaladinhas”) foi a expressão utilizada pelo assassino para justificar-se para a polícia. Frida Kahlo pintou um quadro com este título, inspirada por este brutal acontecimento. A moldura da obra está toda manchada de sangue e marcada por golpes de punhal, o que sugere que Frida teria arrancado esta imagem da realidade. E a realidade sempre nos ultrapassa. O fragmento acima é, por assim dizer, a imagem que voou na minha direção no dia 25 de fevereiro de 2011.

(Neste momento, Ricardo Neis está preso fora de seu automóvel.)

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4 Respostas to “Sobre uma notícia de jornal”

  1. Aline Cavalcante 30/03/2011 às 2:59 PM #

    KELLY!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    que texto fantástico

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