Minha primeira vez com as Pedalinas

10 maio

Mudar a forma com que fazemos as coisas pode ser um processo mais longo ou mais curto, depende de um monte de coisas. Às vezes depende de uma coisinha de nada que finalmente te empurra na direção do que você realmente queria.

Quando eu abandonei o carro – 05 anos atrás – eu precisei de um empurrão para também abandonar o táxi, o ônibus e começar a caminhar. Dá onde ele veio? Não sei ao certo, acho que foi um daqueles dias em que o trânsito para, você desanima de olhar aquele monte de carro, um atrás do outro, do outro, do outro, e simplesmente sai andando.

O descobrindo da bicicleta, como eu já disse aqui, foi mais um lance de lógica que de descobrimento: “poxa, porque eu não pensei nisso antes?”

Por uma dessas coincidências desta vida, faz pouco mais de um ano em que a lógica venceu e eu comecei a juntar a grana para a minha bicicleta dobrável. E faz um ano que a Penélope Jones (ela aí em cima, na estação Vila Madalena do metrô) entrou em definitivo em minha vida.

Depois disso foi um tempo aprendendo a nova gravidade da bicicleta, criando força nas pernocas, melhorando o preparo físico, tudo isso na ciclovia do Parque Villa lobos. Aí vieram os vários blogs sobre o assunto, as pessoas que comecei a conhecer no twitter, aquela coisa do universo conspirar a seu favor e lhe indicar os caminhos.

Conheci as Pedalinas, conversei com algumas no twitter, entrei para a lista de discussão e sempre falava que ia a algum encontro, mas nunca dava certo. Passei a contribuir de vez em quando para o blog, a participar mais ativamente das discussões, enquanto ainda ia criando coragem para ultrapassar a barreira que parecia se erguer nos contornos do meu bairro.

Eu já ia à padaria, ao mercado e ao salão de beleza, dava voltas, subia e descia por aquelas ruas, mas não me sentia preparada para ir mais longe. O lado “racional” repetindo: é que você ainda não tem preparo físico, vai que você vai, mas não consegue voltar? Para ajudar parecia que sempre algo tinha que acontecer e me impedir de ir a algum encontro das Pedalinas.

Mas o universo sabe o que faz e enquanto o grupo de meninas ciclistas se preparava para comemorar 02 anos de aniversário, eu me preparava para comemorar 1 ano com minhas bicicleta. Respirei fundo, encarei o medo e falei: agora vai. Saí de casa em direção do Metrô Vila Madalena, respirei fundo e coloquei força no pedal. Empurrei no final da avenida, mais por medo dos ônibus que se seguiam que pela falta de energia.

Coloquei a Penélope no elevador – psssss, não pode, mas juro que tava vazio! – ouvi do segurança que era a bicicleta da Chapeuzinho Vermelho, me senti um ET dentro do vagão, com todos olhando para mim, e desembarquei na estação Consolação. Lá encarei a escada rolante e contei com uma santa alma amiga para me ajudar a segurar a bike quase do meu tamanho – Quando será que eles vão colocar aqueles frisos na lateral para podermos empurrar a bike?

Empurrei a bike pela calçada da Paulista em direção à Praça d@ Ciclista. Chegando lá encontrei outras meninas que estava lá pela primeira vez. Dividimos experiências, falamos do que nos dá medo, de nossos caminhos. Expliquei que eu não criava coragem de vir pro trabalho de bike, afinal, tem uma Avenida Dr. Arnaldo no meio do caminho.

O grupo foi crescendo, encontrei as garotas que eu só conhecia por suas linhas escritas. Embarquei com elas pela avenida que eu vejo todo dia a pé, que eu cruzo de uma ponta a outra há tanto tempo.

Passamos em frente a Casa das Rosas e então da Starbucks aonde eu compro meu café que me ajuda a enfrentar o dia. Seguimos pela Vergueiro em obras, então ao lado da praça do metrô Liberdade, subimos ao lado do Fórum, descemos a lateral da Catedral da Sé, rodamos como loucas no Marco Zero, fomos ao Patéo do Colégio, passamos em frente ao Mosteiro de São Bento aonde casei, então a Ipiranga, a República, subir a Augusta. As meninas ainda pararam para um sorvete no começo da Augusta, ganhar energia para o resto da subida, sabem?

Mas eu tinha que ir embora por conta de um compromisso da pequena. E agora, como faz? Eu podia subir a Augusta até a Paulista e voltar de metrô. Eu podia dobrar a bike e embarcar em um táxi.

Eu fui seguindo e pensando, seguindo e pensando, seguindo e pensando.. Epa, olha a Dona Antonia aqui, ela já sai na Consolação e a Consolação tem corredor de ônibus no meio, ao contrário da Augusta. Seguindo para a Consolação e pensando… Entrando na Consolação e pensando. Afff, tá difícil essa subida, vou apelar para a calçada… Hum, aqui dá para eu voltar para a avenida… Ah, ali tá a entrada da Dr. Arnaldo, lá tem ponto de táxi… Nossa, a Dr Arnaldo tá livre, será que eu consigo? Hum, acho que vou seguir aquele ciclista ali, ele sabe o que tá fazendo… O farol fechou, vou aproveitar e já ir para a pista do meio, agora eu encosto, olha, mais três ciclistas. Tudo bom? Um motoqueiro buzina, o ciclista fala comigo, já estou na baixada da Dr. Arnaldo. Nossa, tô cansada. Parar e tomar um pouco de água. Continuar, aff, outra subida. Agora a Alfonso Bovero. Hummm, quanto carro, calçada vazia, larga, lá vou eu de novo. Volto para a rua, passo por um ônibus, cumprimento com a campanhia, faço um positivo com a mão, assim ele não me incomoda no resto do caminho. A descida da Alfonso!! O vento no cabelo!! Agora falta pouco, eu vou conseguir! Um carro resolveu disputar espaço comigo, desacelero. Epa, pera aí: EU VIM ATÉ EM CASA DE BICICLETA?!?! EU PEGUEI A DR. ARNALDO DE BICICLETA?!?!?

Quase 20 quilometros pelas ruas de SP!!

Eu aguentei. E a certeza de que fiz a melhor coisa do mundo, a certeza de que estou quase vencendo o medo. Não, não tá faltando perna, tá faltando coragem. Mas falta pouco, vocês vão ver!

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7 Respostas to “Minha primeira vez com as Pedalinas”

  1. Phil 10/05/2011 às 10:46 AM #

    HAHAHA!

    Parabéns!! Sem duvida o mais dificil não é ganhar condicionamento… É ganhar coragem! Eu mesmo tem vezes que me falta na hora de pegar uma avenida…

    Mas isso vc vai ganhando com o tempo tem que sempre conquistar de pouco em pouco!

    E parabéns novamente!!!!

  2. Jeanne Callegari 10/05/2011 às 11:32 AM #

    He, Simone, sábado foi um dia de primeiras vezes, né? Hehe.
    Parabéns pela ida pra casa! É muito boa a sensação de ter as distâncias encurtando, né? Ainda hoje me espanto com os lugares a que consigo ir de bicicleta. 🙂

  3. Camila Oliveira 10/05/2011 às 3:33 PM #

    Parabéns Simone!!! Repetindo algumas frases:
    “A cidade vai ficando pequena” – Célia
    “A cidade vai ficando plana” – Verônica
    “Bem-vinda à vida” – Fátima e cia

    bjs!

  4. brunna 11/05/2011 às 1:23 PM #

    eu fiquei emocionadaaaa!
    como queria ter coragem de fazer isso em são paulo. eu acho que temos que começar a andar sem pressa, em um sábado mesmo.. assim vamos nos acostumando e pegamos umas pessoas mais tranquilas no trânsito.
    parabéns, com certeza quando eu voltar pro brasil vou tentar também… o problema é que tem duas descidas+subidas MONSTRUOSAS nas duas pontas da minha rua… é pra tirar a coragem de qualquer um!

    parabéns simonee!!!

  5. Aline 12/05/2011 às 10:42 AM #

    sou de salvador e me delicio lendo esses relatos. eu sou totalmente louca, n precisou de empurrão nenhum. aliás, o empurrão foi minha cunhada me chamar pra pedalar durante a noite pra emagrecer, quando eu comprei minha bike disse “vou pra facu de bike”.. no primeiro dia pedi pra meu namorado me acompanhar de moto ou com outra bike, mas ele n pôde e eu fui sozinha. Subindo e descendo TODAS as calçadas. Me tremendo a cada buzina de ônibus. Mas cheguei tãão feliz, era uma vitoria tãão grande pra mim que virou vício. Nos dias que vou voltar mto tarde pra casa da facu e n posso ir de bike, eu vou mais cedo pro shopping, ou vou em qq outro lugar só pra pedalar.
    Ontem foi o dia mais caótico e mais lindo pq peguei chuva pesada, mas tem nada nao. O joelho tá inchado duma pancada mas ir de bike é um vício.. rs

    Parabéns pedalinas por tar influenciando todo mundo

    • ana elisa 31/05/2011 às 4:17 PM #

      Oi, Aline!

      Eu também sou de Salvador e também uso a bike como transporte. Acho o máximo esse espaço e as iniciativas das Pedalinas!

      Aqui na nossa cidade, inspirada nesse blog e no Pedal de Salto Alto (MG), eu e mais outras garotas, organizamos o Meninas ao Vento – Cycle Chic Tropical, desde fevereiro de 2011.

      Ele é mensal, e esse sábado (04) vamos fazer a primeira Oficina de Marchas, para as meninas que não sabem direito como usar – são muitas, já cosntatamos.

      Na segunda (06), faremos o Meninas ao Vento de junho. Nos encontramos às 19h, no Largo da Mariquita, ao lado do acarajé de Cira.

      Além disso, participamos da Bicicletada Salvador – Massa Crítica (toda última sexta do mês, porém, esse mês será no dia 17, excepcionalmente).

      Vamos pedalar juntas! Encontra a gente no Face ou manda um email: anaelisa.sa@gmail.com

      Obriga, Pedalinas pela possibilidade de contato.
      beijooooooooos

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