Um palíndromo

31 maio

Um par de portas abertas sussurra à noite, batendo como asas de mariposa – a brisa fresca invade a escuridão clandestina. In girum imus nocte et consumimur igni. Damos voltas pela noite e somos consumidos pelo fogo. Sempre pensei que se tratava de um palíndromo para elogiar a loucura dos uivos noturnos ou um artifício para descrever a beleza dos impulsos. Mas eu estava, por assim dizer, redondamente enganada: trata-se da dança das mariposas. Para transgredir os ciclos dos palíndromos, é preciso girar nas espirais, como os insetos na luz. Basta um simples par de pneus para engrenarmos numa ciranda orgânica, rodopiando como vagabundos pelo asfalto. O círculo, o movimento. Estamos equidistantes sobre a bicicleta. De nós mesmos e de qualquer outro ponto. E damos voltas, como se as rodas se transformassem em um compasso mágico. Com um ponto fixo, de partida, podemos abrir infinitas possibilidades circulares. Mas talvez não precisemos ter um ponto fixo. O compasso pode se desdobrar em ritmo fluido, desenroscando-se das fendas dos caminhos. Ou numa arritmia ensaiada, desguiando os carros que se avizinham como feras.

E girar toca, pela tangente, a beleza do peso e a leveza do movimento. O peso das marchas. O atrito. Os caminhos. A leveza do deslizar, do turbilhão de possibilidades, da fluidez. E é através da leveza que ouço o zumbido da corrente, nas descidas, que desnuda as asas, ainda moles, de mariposas inquietas pela noite. Somos consumidos pelo fogo das constelações selvagens ou pela energia cardíaca nutrindo os movimentos?  Voadores ou terrestres, o ciclo desse palíndromo volta a girar nas rodas.

Sim, as rodas. É preciso tocar estes círculos virtuosos para entrar na ciranda e girar para longe. Ainda criança, acreditava que, se cheirasse as patas de um cão, bem dentro de seus sulcos, poderia descobrir os caminhos por ele percorridos. Como se uma espécie de resquício de seus percursos o acompanhasse na aspereza de suas diminutas almofadas negras. E me pergunto, tentada: o negrume das rodas guarda alguma semelhança com as patas caninas? A escuridão da noite é capaz de impregnar seu odor nas voltas inventadas? Olho para o precipício cor de azeviche, escondido sob o chão, e sinto uma vertigem antecipando o vôo. Mas, girando, sigo enganchada nos paralelepípedos, alto e baixo, trepidando, e relembro que as rodas são terrestres. (E à noite, quando me adivinho mariposa, não deixo rastros no vento.)

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5 Respostas to “Um palíndromo”

  1. Dodô-Ciclista. 31/05/2011 às 2:46 PM #

    Queria ter toda esta sensibilidade p/ falar dos pedais, muito bom seu poema Kelly, merece uma salvaq de palmas. Agradeço pessoas como vc trazer um pouco de reflexão á esta atual modernidade aonde lidamos com vários problemas do dia á dia, e tbm á bicicleta q dão asas ás nossas liberdades de escolhas, de poder girar os pedais e ir aonde nossos corpos e nossas almas desejam, num descompromisso com toda esta realidade ás vezes dura e amarga!

    Bjos, abraços e esternos pedais sempre!

  2. ana elisa 31/05/2011 às 3:20 PM #

    🙂

  3. Nataly 01/06/2011 às 12:18 AM #

    Lindo, lindo, lindo!!! compartilhhei no face!!!

  4. Carolina Pinheiro 01/06/2011 às 12:49 PM #

    Kelly,
    você escreve lindamente. Seu texto está incrível! Um poema em prosa de trançar o peito e tirar o fôlego. Emocionei-me, fechei os olhos e tentei enxergar a mariposa a vagar pela noite enroscada em seus pedais de luz. Percebi que somente a intrépida voadora e aqueles que, como ela, aventuram-se pela penumbra irradiante é que carregam consigo a chave que guarda os segredos de todos os caminhos traçados sobre duas rodas. Você está certa, quem cheirar as patas de um cão não desvendará os traçados percorridos por ele. Nesta jornada, os rastros não se espalham. Só quem viver, verá. Parabéns pelo escrito. Adorei! Beijos

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