A voz dos ciclistas invisíveis de São Paulo

15 jun

Confesso que está difícil escrever algo depois da morte de mais um ciclista na cidade de São Paulo. Na noite desta segunda-feira, onde a vida de Antonio Bertolucci foi interrompida, ciclistas amigos chegavam com os olhos marejados e se abraçavam em silêncio. Não havia palavras para expressar o que sentíamos. A sensação de uma luta em vão pelo respeito à vida… a tentativa de compreender, olhando para aquela curva , perto da faixa de pedestres e do semáforo.. como pôde um motorista atropelar a vida e os sonhos de outra pessoa? As desculpas são as mesmas de sempre, mas a verdade é conhecida: falta respeito à vida, respeito ao próximo.. vemos isso diariamente no trânsito, é só olhar em volta. Pessoas dirigem com uma mão só falando ao celular, aceleram para passar na frente do pedestre antes que ele atravesse a rua, ônibus ignoram a presença de ciclistas e os pressionam na via, já que são maiores, não sofrem nada.. e etc.. e etc..

Difícil traduzir tudo isso em palavras, mas acabo de ouvir a entrevista de uma amiga, Aline Cavalcante, nossa querida @pedaline, que conseguiu dizer tudo que sentia e que estava engasgado até então.

Espero que o desabafo dela, que é também o meu e de muitos, chegue não só aos ouvidos dos motoristas, mas ao coração. Para que deixem de avaliar o preço de uma vida e passem a respeitar as que cruzarem seus caminhos.

Chega de mortes no trânsito. Ninguém precisa perder a vida indo até a padaria, ou ao trabalho, ou para a praia no feriado..

Há os que respeitam, sabemos, e estes apoiam a nossa luta por um trânsito mais humano através de atitudes responsáveis nas ruas (e não com adesivos de coraçãozinho no carro) e até com mensagens de apoio como vimos no último post deste blog, mas falamos aos que ainda não perceberam que um veículo com mais de uma tonelada e que acelera, pode matar.

As pessoas tem vindo até mim comentar o que aconteceu, chocadas com a brutalidade de uma morte como essa, algumas, inclusive, me dizem que temos que fazer alguma coisa.

Pois bem, informo a todos que continuaremos fazendo. Que continuaremos pedalando e ocupando as ruas, cada dia mais. Que nos abalamos e muito, mas que não desistiremos de construir a cidade que sonhamos. Uma cidade mais humana e agradável para todos. Portanto, não pedimos que todos gostem de ciclistas, nem de pedalar, mas exigimos respeito. E vamos continuar a exigi-lo nas ruas, cada vez mais e mais.

Por isso, amigo motorista, se ainda não o fez, aprenda a respeitar. A bicicleta já faz parte do cotidiano da cidade há muito tempo e fará cada dia mais. E mais. E mais. Seja cidadão e compartilhe a via, proteja a vida, amanhã pode ser você a pedalar, ou seu filho, seus pais, ou seu amor. Entenda: sua pressa não vale uma vida. Pratique a tolerância. Chega de “fé em Deus e pé na tábua”. Tenha fé NA VIDA. Na sua, e na dos outros. Eu só quero chegar viva em casa.

Esse post vai sem foto, já que somos invisíveis, que ao menos a nossa voz tenha vez..

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2 Respostas to “A voz dos ciclistas invisíveis de São Paulo”

  1. Pedaline 16/06/2011 às 4:57 PM #

    belas palavras, camila. é exatamente isso: EU NAO VOU ABRIR MAO DA MINHA FELICIDADE, DA MINHA ALEGRIA, SATISFAÇÃO E SAÚDE QUE A BICICLETA PROPORCIONA, POR CAUSA DO EGOISMO DE MOTORISTA MESQUINHO.

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