Bicicleta

3 jan

Estava aqui folheando um livro incrível sobre as imagens arquetípicas. Elas surgem nos nossos sonhos, fabricadas espontaneamente pelo inconsciente e – o mais maluco e poético – é que essas imagens ou símbolos estão presentes no inconsciente de diferentes pessoas, em diversas culturas e épocas. Claro que o significado dos símbolos varia bastante de acordo com a personalidade e o contexto das sonhadoras e sonhadores em questão, mas existem traços comuns e interpretações muitas vezes semelhantes desses arquétipos nos sonhos. O estudo dos arquétipos na psicanálise foi iniciado por Carl G. Jung, mas as pessoas nunca deixaram de sonhá-los…

Bom, aí eu tive um ímpeto irresistível de espiar o que disseram sobre a bicicleta. Aqui está:

“As abas do casaco levantadas pelo vento a desaparecer em direção ao horizonte na fotografia Em direção à luz, de Georg Oddner, captam por si só a alegria que a conquista da velocidade despertou no século XIX, a era frenética de possibilidades de expansão, quando a bicicleta se tornou popular. Funcionando sem motor, escape nocivo ou ruído poluente, a bicicleta é considerada a invenção mais eficiente alguma vez concebida para a propulsão humana, especialmente após quase dois séculos de aperfeiçoamentos experimentais. Tal como o avião, a bicicleta encontrou rapidamente um lugar duradouro na imaginação popular e na paisagem dos sonhos. Em particular, a bicicleta evoca simbolicamente um veículo de energia psíquica e progressão (a bicicleta não anda para trás) que é pessoal e não coletiva, e que está sob o comando do ego individual. A exceção é a antiquada “bicicleta feita para dois”, que sugere o movimento de um romance propulsionado para a frente através do Eros sincronizado do casal. Para alguns, o pedalar rítmico da bicicleta sugeriu energias sexuais que fazem andar a roda da vida. A bicicleta sempre significou independência e liberdade na orientação do curso diário de uma pessoa e o desvio das suas aventuras ocasionais. Susan B. Anthony – refletindo sobre o seu papel no desaparecimento da armação da saia e do espartilho – afirmou que “a bicicleta tinha feito mais pela emancipação da mulher do que qualquer outra coisa no mundo” (Bly, 10).

 

Bicicleta livro dos simbolos

Em direção à luz, de Georg Oddner (1999, Suécia).

 

Atualmente também associada às corridas profissionais e esportes radicais, a bicicleta, enquanto veículo intimamente pessoal, tornou-se igualmente emblemática de velocidade, de desafios arriscados e de transcendência dos limites conhecidos das capacidades de um indivíduo. Nós estamos tão habituados às maravilhas da bicicleta que é necessário uma rara demonstração da elegância acrobática de um monociclo para nos lembrar que andar de bicicleta é, acima de tudo, um feito de equilíbrio. Sem movimento e equilíbrio entre mente e corpo, o ciclista não avança suavemente e cai no chão. O encanto visível na cara de uma criança que dá os primeiros passos é revisitado quando aprendemos a andar de bicicleta. A sensação inicialmente anti-natural de encontrar o equilíbrio nos pés reaparece quando um ciclista se lança numa instável viagem virginal, virando comicamente o guidão de um lado para o outro antes de, por fim, se afastar com a elegante facilidade para a qual a engenhosa bicicleta foi concebida numa era de arrojadas invenções.”

[Referência do artigo da Nellie Bly, que citou a Susan Anthony: “Champion of her sex”, publicado pelo New York Sunday World, em 2 de fevereiro de 1896.]

Pra quem quiser saber mais sobre os símbolos, o livro é esse aqui, ó: Kathleen Martin (Ed.). O livro dos símbolos: reflexões sobre imagens arquetípicas. Colônia: Taschen, 2012.

Anúncios

3 Respostas to “Bicicleta”

  1. ana rüsche 03/01/2013 às 9:22 PM #

    oi, kelly,
    que texto ótimo, adorei. bem sensível.
    enviarei pra pessoas que querem se animar a pedalar.
    um beijo

  2. Junior 07/01/2013 às 5:55 PM #

    Pessoal, tudo bem? Eu preciso da ajuda de vocês para algo especial! Encontrei o site em uma busca no Google pois vi em vocês uma saída para meu noivado. Isso mesmo: pretendo pedir minha namorada em casamento! Ela não sabe andar de bike e achei muito boa a iniciativa de vocês. Acho que a ideia de fazer esse pedido relacionado com “ensinar minha namorada a andar de bicicleta” seria bem original e de um romantismo sutil bem bonito! Enfim, se vocês puderem me ajudar nessa “empreitada”. Seria interessante se fizéssemos isso aos poucos, sei lá… algo como se no momento em que ela aprendesse a andar sozinha eu aparecesse com as alianças. Alguma coisa nesse sentido. Onde e quando será o próximo encontro de vocês? Abraço!

  3. Matiasmm 14/02/2013 às 9:04 AM #

    muito bom o texto!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: