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Pedalinas na Revista Voto

20 jun

A revista Voto, publicação online que fala sobre política, cultura e negócios, em sua última edição fala da relação das mulheres e a bicicleta na atualidade e as Pedalinas não ficaram de fora.

O resultado você pode ler aqui (páginas 8 e 9).

Minha primeira vez com as Pedalinas

10 maio

Mudar a forma com que fazemos as coisas pode ser um processo mais longo ou mais curto, depende de um monte de coisas. Às vezes depende de uma coisinha de nada que finalmente te empurra na direção do que você realmente queria.

Quando eu abandonei o carro – 05 anos atrás – eu precisei de um empurrão para também abandonar o táxi, o ônibus e começar a caminhar. Dá onde ele veio? Não sei ao certo, acho que foi um daqueles dias em que o trânsito para, você desanima de olhar aquele monte de carro, um atrás do outro, do outro, do outro, e simplesmente sai andando.

O descobrindo da bicicleta, como eu já disse aqui, foi mais um lance de lógica que de descobrimento: “poxa, porque eu não pensei nisso antes?”

Por uma dessas coincidências desta vida, faz pouco mais de um ano em que a lógica venceu e eu comecei a juntar a grana para a minha bicicleta dobrável. E faz um ano que a Penélope Jones (ela aí em cima, na estação Vila Madalena do metrô) entrou em definitivo em minha vida.

Depois disso foi um tempo aprendendo a nova gravidade da bicicleta, criando força nas pernocas, melhorando o preparo físico, tudo isso na ciclovia do Parque Villa lobos. Aí vieram os vários blogs sobre o assunto, as pessoas que comecei a conhecer no twitter, aquela coisa do universo conspirar a seu favor e lhe indicar os caminhos.

Conheci as Pedalinas, conversei com algumas no twitter, entrei para a lista de discussão e sempre falava que ia a algum encontro, mas nunca dava certo. Passei a contribuir de vez em quando para o blog, a participar mais ativamente das discussões, enquanto ainda ia criando coragem para ultrapassar a barreira que parecia se erguer nos contornos do meu bairro.

Eu já ia à padaria, ao mercado e ao salão de beleza, dava voltas, subia e descia por aquelas ruas, mas não me sentia preparada para ir mais longe. O lado “racional” repetindo: é que você ainda não tem preparo físico, vai que você vai, mas não consegue voltar? Para ajudar parecia que sempre algo tinha que acontecer e me impedir de ir a algum encontro das Pedalinas.

Mas o universo sabe o que faz e enquanto o grupo de meninas ciclistas se preparava para comemorar 02 anos de aniversário, eu me preparava para comemorar 1 ano com minhas bicicleta. Respirei fundo, encarei o medo e falei: agora vai. Saí de casa em direção do Metrô Vila Madalena, respirei fundo e coloquei força no pedal. Empurrei no final da avenida, mais por medo dos ônibus que se seguiam que pela falta de energia.

Coloquei a Penélope no elevador – psssss, não pode, mas juro que tava vazio! – ouvi do segurança que era a bicicleta da Chapeuzinho Vermelho, me senti um ET dentro do vagão, com todos olhando para mim, e desembarquei na estação Consolação. Lá encarei a escada rolante e contei com uma santa alma amiga para me ajudar a segurar a bike quase do meu tamanho – Quando será que eles vão colocar aqueles frisos na lateral para podermos empurrar a bike?

Empurrei a bike pela calçada da Paulista em direção à Praça d@ Ciclista. Chegando lá encontrei outras meninas que estava lá pela primeira vez. Dividimos experiências, falamos do que nos dá medo, de nossos caminhos. Expliquei que eu não criava coragem de vir pro trabalho de bike, afinal, tem uma Avenida Dr. Arnaldo no meio do caminho.

O grupo foi crescendo, encontrei as garotas que eu só conhecia por suas linhas escritas. Embarquei com elas pela avenida que eu vejo todo dia a pé, que eu cruzo de uma ponta a outra há tanto tempo.

Passamos em frente a Casa das Rosas e então da Starbucks aonde eu compro meu café que me ajuda a enfrentar o dia. Seguimos pela Vergueiro em obras, então ao lado da praça do metrô Liberdade, subimos ao lado do Fórum, descemos a lateral da Catedral da Sé, rodamos como loucas no Marco Zero, fomos ao Patéo do Colégio, passamos em frente ao Mosteiro de São Bento aonde casei, então a Ipiranga, a República, subir a Augusta. As meninas ainda pararam para um sorvete no começo da Augusta, ganhar energia para o resto da subida, sabem?

Mas eu tinha que ir embora por conta de um compromisso da pequena. E agora, como faz? Eu podia subir a Augusta até a Paulista e voltar de metrô. Eu podia dobrar a bike e embarcar em um táxi.

Eu fui seguindo e pensando, seguindo e pensando, seguindo e pensando.. Epa, olha a Dona Antonia aqui, ela já sai na Consolação e a Consolação tem corredor de ônibus no meio, ao contrário da Augusta. Seguindo para a Consolação e pensando… Entrando na Consolação e pensando. Afff, tá difícil essa subida, vou apelar para a calçada… Hum, aqui dá para eu voltar para a avenida… Ah, ali tá a entrada da Dr. Arnaldo, lá tem ponto de táxi… Nossa, a Dr Arnaldo tá livre, será que eu consigo? Hum, acho que vou seguir aquele ciclista ali, ele sabe o que tá fazendo… O farol fechou, vou aproveitar e já ir para a pista do meio, agora eu encosto, olha, mais três ciclistas. Tudo bom? Um motoqueiro buzina, o ciclista fala comigo, já estou na baixada da Dr. Arnaldo. Nossa, tô cansada. Parar e tomar um pouco de água. Continuar, aff, outra subida. Agora a Alfonso Bovero. Hummm, quanto carro, calçada vazia, larga, lá vou eu de novo. Volto para a rua, passo por um ônibus, cumprimento com a campanhia, faço um positivo com a mão, assim ele não me incomoda no resto do caminho. A descida da Alfonso!! O vento no cabelo!! Agora falta pouco, eu vou conseguir! Um carro resolveu disputar espaço comigo, desacelero. Epa, pera aí: EU VIM ATÉ EM CASA DE BICICLETA?!?! EU PEGUEI A DR. ARNALDO DE BICICLETA?!?!?

Quase 20 quilometros pelas ruas de SP!!

Eu aguentei. E a certeza de que fiz a melhor coisa do mundo, a certeza de que estou quase vencendo o medo. Não, não tá faltando perna, tá faltando coragem. Mas falta pouco, vocês vão ver!

Na barra da sua calça…

12 mar

O título tinha o objetivo de fazer graça com aquela música já velhinha que fala da barra de uma saia, mas a verdade é que as meninas que usam a bicicleta no dia a dia enfrentam mais dificuldades com as barras das calças mais largas do que com barras de saia, já que as primeiras podem enroscar na corrente, sujar de graxa, enroscar no pedal.

Para quem não possui o cobre corrente e também não usa apenas leggings, saias e shorts mais curtos, uma alternativa é usar um prendedor de calça. Só que por aqui a bicicleta ainda é mais associada a esporte que ao uso diário e esse não é um acessório fácil de ser encontrado.

Pois a Andrea, do SuperZíper, também andou investindo na vida de ciclista e ensinou no seu blog como fazer um prendedor de calça a partir de uma câmara velha de bicicleta – podia ser mais adequado?

Clica aqui para ver a super dica. Eu estou a procura de uma câmara velha para chamar de minha e fazer o meu próprio prendedor.

Eu e minha bicicleta

23 fev

Definitivamente minha bicicleta precisa de um nome

Lembro como se fosse ontem de quando fiz meus 18 anos. Meus pais realizaram o sonhos de muitos outros pais ao me darem meu primeiro carro, um golzinho azul, daqueles quadradinhos, motor 1.0, a quem eu dei o nome de Frederico.

Naquele tempo, como muita gente faz até hoje, eu associava o carro, a carta de motorista, à liberdade de ir e vir. Adorei todo o processo de aprender a dirigir e, modéstia à parte, aprendi muito bem todos os macetes. E nem poderia ser de outra forma: morando em Guarulhos e trabalhando como auditora eu atravessava a cidade de São Paulo diariamente, quase sempre nos horários mais complicados.

Eu ainda adoro dirigir… Na estrada. Após anos e anos passando em média três, quatro horas por dia parada em alguma avenida, a ideia de que carro e liberdade são equivalente não existe mais. A única exigência feita na escolha do apartamento para mudar após o casamento: no meio de São Paulo, perto de uma estação de metrô. Foi assim que eu fui parar na Vila Pompéia, entre as estações Vila Madalena e Barra Funda. Foi por isso que os dois carros que tínhamos, eu e meu marido antes do casamento, viraram apenas um.

Depois que nasceu a Carol a distância entre eu e o carro só aumentou: passei a buscar solução para tudo perto de casa, do supermercado a escola, passando por médicos, lojas de roupas, petshop, boteco e restaurante. Se for possível ir a pé é a escolha ideal.

Quando voltei a trabalhar, a Carol com um ano de idade, escolhi um emprego na Avenida Paulista. Seis quilometros me separam de meu escritório – quando eu morava em Guarulhos a conta era sempre acima de 30 – que fica ao lado de outra estação de metrô. Sim, eu sei que a maioria não consegue, pelos mais diversos motivos, ter a comodidade que tenho, mas também não agradeço aos céus pelo que consegui: fiz certos sacrifícios na carreira, pago mais pelo financiamento do apartamento, o que significa gastar menos com outras coisas, tudo para realizar o sonho de não depender mais de um carro.

Hoje, 07 anos depois da Carol ter nascido, 08 anos depois de eu ter assinado um caminhão de promissórias e 06 depois de ter escolhido a comodidade como prioridade na opção por um emprego, eu raramente uso o carro. Algumas vezes meu marido viaja e eu poderia vir com o carro para o trabalho, a escolha é deixá-lo próximo a estação de metrô, após deixar a Carol na escola, e pegá-lo apenas no final do dia. Troco 30 minutos de carro por 20 entre metrô e caminhada, mas me sinto muito mais livre e ainda leio um livro.

Não sei ao certo quando eu comecei a olhar para a bicicleta de outra forma. Entendam que eu até tinha certo preconceito: não sou dada a atividades físicas e meu irmão é daqueles obcecado por esporte, que desce a serra de bicicleta como se isso fosse a coisa mais normal do mundo. Mas a questão é que eu olhei e percebi que, antes de ser o objeto de tortura das academias, a bicicleta era um meio de transporte.

Isso é tão óbvio que é até ridículo eu nunca ter pensado nisso antes.

Comecei então a procurar sites que falassem da bicicleta de forma diferente, comecei a prestar mais atenção ao pessoal que usa a bicicleta no dia a dia, aqui mesmo na Avenida Paulista. Descobri que o movimento Cyclechic também existia em São Paulo e coloquei na cabeça de que essa sim era uma opção pela liberdade.

Primeiro de tudo eu tinha que resolver uma questão de ordem prática: eu precisava de uma bicicleta. Tá, eu tinha uma bicicleta, uma Caloi usada para passeios. Mas ela tinha um problema que talvez tivesse me afastado da bicicleta muito antes da ideia de que ela é para esporte: ela era grande demais para mim. Você já parou para pensar que para uma pessoa que tenha menos de 1,60m, tipo eu e os meus enormes 1,54 (meu pai disse que eu tenho horário e não altura), uma bicicleta aro 26 é ENORME? Eu não consigo simplesmente parar a bicicleta e ficar com ela em pé. É impossível.

Foi quando eu descobri as bicicletas da Dahon, uma marca americana que faz bicicletas que dobram – olha que ideia SENSACIONAL – e que tem aro 20, o que torna muito mais fácil a minha relação com a magrela. Problema? Só o preço, não é? Mas teimosa determinada como sou, estabeleci a meta e comecei a guardar um pouquinho por mês. Foi um ano fazendo contas e então pude comprar a minha bicicleta à vista e ainda coloquei uma cestinha linda, de vime, na magrela.

A bicicleta está sendo muito bem usada em todos os finais de semana, temos aproveitado a ciclovia do Parque Villa Lobos em família – no embalo meu marido comprou uma bike nova para ele e a Carol está usando a que ganhou no ano passado – o que me permitiu aprender melhor como controlar a bicicleta, que é mais arisca por conta do corpo ser menor. Não foi só isso que ganhei: a Carol está adorando o programa em família, depois de andar de bicicleta, brincamos de pega pega, fazemos piquenique e empinamos pipa, voltamos todos a ser crianças.

Ah, também tenho dormido muito melhor e ganho novo fôlego, me sentindo mais saudável.

Mas o projeto vai mais longe: eu quero usá-la para vir trabalhar, algo totalmente plausível na distância que tenho, ainda mais se considerarmos que boa parte dela são duas retas seguidas, as Avenidas Dr. Arnaldo e Paulista.

Para poder fazê-lo eu preciso de duas coisas: primeiro convencer meu marido que isso é possível, de que não serei atropelada logo na primeira tentativa (para isso eu tenho contado com os vários blogs e relatos do pessoal que já faz isso todo dia); segundo, preciso acertar a rotina da Carol, já que fica meio complicado levar a pimpolha de 07 anos na garupa com uma mochila enorme.

Por isso em 2011 a rotina muda um pouco: Carol mudará para uma escola mais perto ainda de casa, o que me permitirá levá-la a pé mais cedo e depois pegar minha bike e seguir, seja para o trabalho seja para a estação de metrô – a da Vila Madalena tem até bicicletário, mas minha intenção é dobrar a bike e carregar comigo até a estação Brigadeiro, seguindo então até o escritório com ela.

Ah, sabe o que é mais engraçado? A Carol tem repetido constantemente que, por ela, todo mundo abandonava o carro e usava bicicleta no dia a dia. Acho legal isso porque nunca falei para ela sobre minhas intenções assim, de forma séria ou fazendo a defesa disso, sabem o que eu quero dizer? É claro que crianças são super inteligentes e pegam as coisas a sua volta, mas mesmo assim achei sensacional ela externalizar dessa forma. Isso significa que, para ela, a bicicleta já está muito mais associado ao bem estar do que estava para mim no passado.

Eu prometo contar para vocês aqui da evolução do meu plano de ir de bike para todo lado. E, para quem já adotou a bike de vez, me ajuda aí a convencer meu marido de que é possível, mesmo que você more na terra das cabras, ops Pompéia.

Como uma mulher se sente em uma bicicleta

19 fev

É sobre liberdade. É sobre independência.

Eu posso ir aonde eu quiser, quando eu quiser, rápido ou lento o quanto eu quiser. Eu não fico presa por restrições de riqueza. Eu não fico presa por restrições de status. Eu não fico presa por restrições de tempo.

Eu chego ao meu destino dentro daquele milisegundo que eu previ que estaria lá. Eu posso parar bem em frente ao bar, restaurante ou qualquer outro destino acarpetado sem ter de pagar um manobrista. Sem ter me prendido. Sem ter pisado em um pedal sujo de gasolina. Sem ter feito qualquer pagamento a ninguém.

No caminho até lá, eu sentirei a energia de estar viva. Eu vou encher meus pulmões com ar. Eu vou sentir meu sangue pulsando nas minhas veias. Eu vou sentir meu coração batendo no meu peito.

Abaixo do meu selim eu sinto a conexão com a terra. Em minha aula de yoga, meu professor sempre me diz para sentir a terra tocando o solo com meus pés. Na minha bicicleta, quando eu estou pedalando, eu sinto a energia vindo pelos meus ossos. Meus pés estão pedalando, e a cada rodada, a Terra sobre pelas minhas pernas, minhas coxas, minha pélvis. Eu sei aonde eu estou.

Eu estou nas ruas de São Francisco.

Eu ouço a conversa dos passantes bêbados. Aonde você vai terminar essa noite? Aonde você vai para o próximo drinque? Como será difícil ir ao escritório amanhã? Alguém o vê fora de seu elemento?

Sim, era eu. Eu realmente estava tão perto das pessoas que eu vi aquele olhar roubado, aquele beijo secreto… Você não achava que eu poderia ver ou ouvir você, mas eu estava perto o bastante para testemunhar tudo.

Algumas vezes eu imagino o quanto Ralph Lauren, Betsey Johnson, Karl Lagerfeld, Vivienne Westwood, John Fluevog e (RIP) Alexander McQueen valorizaria este tipo de conexão que eu sinto com as pessoas quando eu estou quando estou guiando minha bicicleta pelas ruas. Não é esta pessoa voltando para casa, bebâda e fabulosa, com renda sobrando, que eles querem alcançar? Seria benéfico para eles tirá-los de seus carrões, limousines, janelas filmadas, para experimentar a vida da forma mais pura e vibrante?

Toda vez que eu me sento em meu selim e vivo essa experiência de vida (meu transporte diário do ponto A para o ponto B) minha bicicleta me lembra o quanto é bom se sentir viva.

Tradução de um belo texto do blog  Vélo Vogue

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