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Assédio nas Ruas

28 set

Foi ao fazer um outro post que cheguei ao assunto e à sua possível ligação com a pequena proporção de mulheres que utilizam a bicicleta como meio de transporte. Me deparei com a hipótese nesse blog, e agora, após fazer uma pequena pesquisa e organizar os pensamentos, volto a desenvolver o tema.

Pois então, a que me refiro quando falo em “assédio”? A resposta é bem ampla, e vai desde estupro até os mais “inocentes” assovios bem conhecidos por qualquer mulher que transita nas ruas desta e outras grandes cidades. Mas minha intenção agora é focar nessa segunda maneira de assédio, que me preocupa justo por ser tão comum, ter relativa aceitação social e por sua falsa aparência inofensiva.

Tais assédios expõem a mulher publicamente, independente de sua vontade, e a coloca numa situação constrangedora, quando não humilhante. O espaço individual é violado ao momento em que ocorre uma interação forçada. Alem do que, declara que  a pessoa abordada é um objeto a ser utilizado pelo outro. Trata-se de um objeto sexual, e nada mais.

Seguindo essa linha de pensamento, não fica difícil entender porquê o assédio nas ruas pode ser um dos motivos pelos quais há menos mulheres do que homens pedalando. Como pode alguém se apropriar tranquilamente de um espaço no qual não se sente à vontade, onde há o risco de ser constrangida a quase qualquer momento? Sobre a bicicleta isso parece mais difícil ainda, já que ciclistas destacam-se visualmente. Alem, é claro, de chamar atenção pela  imagem “excêntrica”: a mulher pedalando se mostra forte e corajosa ao encarar certas avenidas movimentadas, atitude não muito esperada do tal “sexo frágil”. Parece papo de décadas atrás, mas, acreditem, esse valor ainda está vigorando fortemente hoje em dia.

A mulher sair de casa sozinha e ir trabalhar já não é novidade; entretanto, quando pisa a rua, comumente é tratada de maneira hostil, como não pertencente ao espaço público –  “se o faz, é por sua conta e risco”, como citado nesse artigo –  ainda relegada ao espaço privado, à proteção do lar ou mesmo do local de trabalho, mas não à rua.

A esfera privada – seja a casa ou o carro – oferece uma (questionável) sensação de privacidade e segurança que não se tem no ônibus, na calçada, nem sobre a bike. E isso tudo é somado à vigente carrocracia, opressora a qualquer ser não motorizado. É de se esperar que alguem queira alienar-se de um mundo que lhe parece hostil.

(acima, video da campanha Stop Street Harassment)

O medo tambem é um fator de peso nessa história toda. Dependendo da abordagem, algumas mulheres podem se sentir ameaçadas. A propósito, uma pesquisa mostra que é comum estupradores provocarem verbalmente uma vítima potencial para avaliar se ela reagiria a um ataque físico. Seria exagero dizer que um mero “ê, lá em casa” pode soar como uma ameaça para uma pessoa que a maior parte dos dias é publicamente afirmada como objeto sexual? Por mais clara que seja a não-intenção de que a ameaça seja efetivada, uma “brincadeira” dessas não é brincadeira.

Tá. Diante disso, o que fazer?

Podemos começar pela conversa com amigos homens. Muitas vezes pessoas queridas têm dificuldade em se colocar no lugar dos outros, não sabem o quanto algumas atitudes são violentas e prejudiciais. E cabe a nós ajudá-los a entender. Contar como se sente, mostrar que isso não é bacana…

Para o momento do assédio, há uma série de dicas aqui. Eu geralmente respondo, diferentemente da maioria das mulheres, que prefere apenas ignorar. Por um lado, entendo que essa é uma postura conivente com a violência; por outro, às vezes é melhor se preservar, e desenvolver um trabalho emocional para se deixar atingir o mínimo possível, já que não há como criar uma barreira absoluta que não seja sair da rua. Mas sair da rua não é uma possibilidade, nem um desejo, nem seria uma solução.

reação de algumas mulheres - "aqui pra voces, ó"

Não vou me inibir em ir para onde e como quero. Deixar de sentir os espaços, ver os detalhes, ter acesso à cidade sem precisar de motor nem dinheiro está fora de cogitação. Esconder não vai ajudar em nada, pelo contrário. Aliás,  sabe aquele papo de “não pedalar pelo canto da rua, e sim próximo ao centro da faixa”? Pois é, isso é se impor, é tomar o espaço que é seu! Essa postura é importantíssima para uma mulher que pedale ou mesmo caminhe pela cidade. É não se deixar inibir; é dizer, com o corpo, “Estou aqui e não vou me desviar tão fácil”. A rua é nossa!

Gentilezas, sempre?

21 set

Mas e quando esse “ajudar”, que às vezes é “fazer pelo outro”, acaba por convencê-lo de que é incapaz? Lembro-me de uma pesquisa que fiz para a faculdade, em que descobri que a grande maioria dos idosos fica debilitado fisicamente bem mais cedo porque os jovens não permitem que eles executem muitas atividades das quais seriam capazes. O envelhecimento dos músculos, ossos, articulações, sistemas respiratório e circulatório é acelerado – e muito – graças ao exercício poupado pela gentileza alheia.
O caso das mulheres é outro, mas ainda cabe a comparação. É assustador parar e prestar atenção em como é frequente ver mulheres desacreditarem de seus corpos e habilidades braçais. A pequena proporção das que encaram a rua sobre duas rodas é uma clara manifestação disso.

Acho que esse comportamento é alimentado ciclicamente. Não acreditamos que podemos porque não temos costume de tentar; não tentamos porque não acreditamos que podemos, e alem do quê, existe uma (atraente) zona de conforto oferecida pela sociedade que nos poupa desses desafios. E ainda assim, quando por qualquer motivo arriscamos uma tentativa, frequentemente não somos tão bem sucedidas… mas porque?

Melhor que fazer por alguem: ensinar a fazer ( foto do "Mão na Graxa" de maio)

Ora, se alguém nunca carrega peso, ou faz qualquer outro tipo de trabalho braçal, terá dificuldades em aprender a executá-lo bem; além do quê, se em suas raras tentativas uma pessoa se vê desajeitada e com dificuldades, a tendência é o constrangimento e a conclusão de que “não tem jeito pra isso, mesmo”; e daí o desânimo, a sensação de incapacidade, a dependência.

Por isso, creio que gentilezas nem sempre são benéficas, por melhor que seja a intenção. Realmente não é fácil negar o conforto, e muito menos recusar uma gentileza – especialmente se ofericida com um sorriso sincero – quando, por exemplo, nos querem dar uma carona de carro ou mesmo recolocar a corrente da nossa bicicleta quando ela cai. Resistir a ofertas atraentes que nos levam para longe do desafio e da autonomia, às vezes é necessário… Pode parecer bobo falar nisso, mas não é se considerarmos o quanto essas situações corriqueiras representam e alimentam algumas crenças prejudiciais e equivocadas.

Vivi um crescimento enorme ao inserir a bicicleta no meu dia-a-dia, e já testemunhei o mesmo em outras mulheres.  Prática é aquilo que mais nos convence de qualquer realidade. A gente precisa se posicionar, experimentar, agir  com o corpo, efetuar. Nos sentimos engrandecidas mas, na verdade, apenas redescobrimos nosso tamanho.

Percebo que isso tudo faz parte de um processo lento e profundo que acontece não apenas na sociedade, no mundo externo, mas principalmente dentro da gente, em nossos corpos.

Autonomia, independência, e a certeza de que podemos fazer as coisas sem alguém olhando por nós nos dá mais plenitude, prazer e liberdade nessa vida.

Mas e quando esse “ajudar”, que às vezes é “fazer pelo outro”, acaba por convencê-lo de que é incapaz?

Lembro-me de uma pesquisa que fiz para a faculdade, em que descobri que a grande maioria dos idosos fica

debilitado fisicamente bem mais cedo porque os jovens não permitem que eles executem muitas atividades das quais seriam capazes. O envelhecimento dos músculos, ossos, articulações, sistemas respiratório e circulatório é acelerado – e muito – graças ao exercício poupado pela gentileza alheia.

O caso das mulheres é outro, mas ainda cabe a comparação. É assustador parar e prestar atenção em como

é frequente ver mulheres desacreditarem de seus corpos e habilidades braçais. A pequena proporção das que encaram a rua sobre duas rodas é uma clara manifestação disso.

Acho que esse comportamento é alimentado ciclicamente. Não acreditamos que podemos porque não temos costume

de tentar; não tentamos porque não acreditamos que podemos, e alem do quê, existe uma (atraente) zona de

conforto oferecida pela sociedade que nos poupa desses desafios. E ainda assim, quando por qualquer motivo

arriscamos uma tentativa, frequentemente não somos tão bem sucedidas… mas porque?

Ora, se alguém nunca carrega peso, ou faz qualquer outro tipo de trabalho braçal, terá dificuldades em

aprender a executá-lo bem; além do quê, se em suas raras tentativas uma pessoa se vê desajeitada e com

dificuldades, a tendência é o constrangimento e a conclusão de que “não tem jeito pra isso, mesmo”; e daí o

desânimo, a sensação de incapacidade, a dependência. Há coisas que O CORPO tem que acreditar; e isso, só

experimentando.

POr isso, creio que gentilezas nem sempre são benéficas, por melhor que seja a intenção. Realmente não é

fácil negar o conforto, e muito menos recusar uma gentileza quando, por exemplo, nos querem dar uma carona

de carro, ou recolocar a corrente da nossa bicicleta quando ela cai. Resistir a ofertas atraentes que nos

levam para longe do desafio e da autonomia, às vezes é necessário… Pode parecer bobo falar nisso, mas não

é se considerarmos o quanto essas situações corriqueiras representam e alimentam algumas crenças

prejudiciais e infundadas.

Vivi um crescimento enorme em mim ao inserir a bicicleta no meu dia-a-dia, e já testemunhei o mesmo em

outras mulheres. A prática é aquilo que mais nos convence de qualquer realidade. A gente precisa se posicionar, experimentar, por a mão na massa, trabalhar com o corpo, efetuar. Assim, nos sentimos engrandecidas; na verdade apenas redescobrimos nosso tamanho.

Percebo que isso tudo faz parte de um processo lento e profundo, tanto na sociedade quanto dentro de nós.

Autonomia, independência, e a certeza de que podemos fazer as coisas sem alguém olhando por nós nos dá mais

plenitude, prazer e liberdade nessa vida.

Como colocar mais ciclistas nas ruas (matéria traduzida)

19 ago

(Matéria publicada na Scientific American, em tradução livre de @mchevrand e @gabikato e indicada pelo Vitor Leal.)

Ter que convencer as pessoas a trocarem seus carros por bicicletas – um meio de transporte bem mais sustentável – sempre foi uma pedra no sapato para os urbanistas ecologicamente conscientes. Apesar de ciclofaixas demarcadas nas ruas e “caminhos verdes” livres de automóveis terem contribuído para o aumento do número de ciclistas ao longo dos últimos anos, a parcela de pessoas que utilizam a bicicleta para o transporte ainda é inferior a 2 por cento, com base em vários estudos.

Pesquisas recentes sugerem que uma melhor estratégia para ampliar o grupo dos adeptos das pedaladas pode ser fazer uma pergunta bem recorrente: O que querem as mulheres?Nos EUA, viagens de bicicleta feitas por homens superam as feitas por mulheres na proporção de 2 para 1. Esta relação contrasta com o ciclismo nos países europeus, onde o ciclismo urbano é um estilo de vida e atrai tanto mulheres quanto homens – às vezes com predominância feminina. Na Holanda, onde 27% de todos os deslocamentos são feitos de bicicleta, 55% destes são feitos por mulheres. Na Alemanha, 12% dos trajetos são percorridos de bike, e, destes, 49% são por mulheres.

“Se você quer saber se uma cidade apoia o uso de bicicletas, pode esquecer todas as detalhadas tabelas de itens que indicam se ela é ‘pedalável’ –  basta medir a porcentagem de mulheres ciclistas”, diz Jan Garrard, professor sênior da Universidade Deakin, em Melbourne, Austrália, e autor de vários estudos sobre a bicicleta e as diferenças de gênero.

Mulheres são consideradas uma espécie de “indicador” para cidades “bike-friendly”, por diversas razões. Em primeiro lugar, estudos de disciplinas tão díspares como criminologia e educação infantil têm mostrado que as mulheres têm maior aversão a riscos do que os homens. E isso se traduz em demanda por infra-estrutura segura para usuários de bicicleta como um pré-requisito para pedalar. A mulher, na maioria das vezes, é quem faz as compras de casa e cuida das crianças, o que significa que as ciclovias precisam ser pensadas levando em consideração os destinos mais úteis e comuns no dia-a-dia para fazer a diferença.

Ciclovia ao longo da Nona Avenida em Nova York, que mantém os ciclistas fisicamente isolados do trânsito de automóveis. Tais planejamentos tornam os trajetos de bicicleta mais seguros e podem aumentar o número de mulheres ciclistas. (trad. da fonte)

“Apesar de nossa esperança de que as desigualdades entre as funções estabelecidas para cada gênero deixem de existir, elas ainda estão aí”, diz Jennifer Dill,  pesquisadora de planejamento e transporte na Universidade Estadual de Portland. Responder às preocupações das mulheres sobre segurança e praticidade ajudará a aumentar o número de pessoas sobre duas rodas, Dill explica.

Até agora, poucas cidades têm assumido o desafio. Nos EUA, a maioria das estruturas para os ciclistas consiste em ciclofaixas, que exigem do ciclista pedalar no trânsito entupido de veículos, observa John Pucher, professor de planejamento urbano na Universidade de Rutgers e estudioso de longa data do assunto “bicicleta”. E quando as cidades constroem ciclovias protegidas do trânsito das ruas, quase sempre elas são ao longo de rios e parques, em vez de traçarem rotas mais úteis como “para o supermercado, escola ou creche”, diz Pucher.

Embora os pesquisadores estejam examinando a infra-estrutura para a bicicleta na Europa há um bom tempo, eles estão apenas iniciando pesquisas nos EUA. Em um estudo realizado no ano passado, Dill analisou o efeito de diferentes tipos de instalações para bicicletas no ciclismo. O projeto, que utilizou GPS para registrar trajetos individuais de bicicleta em Portland, comparou as rotas mais curtas com aquelas que os ciclistas realmente seguiam na prática. As mulheres eram menos propensas do que homens a seguir em ciclovias de ruas movimentadas e preferiam sair um pouco de seus caminhos para passar pelas “bike boulevards”, tranquilas ruas residenciais com características especiais que tornavam o tráfego mais calmo para bicicletas. “As mulheres se desviavam das rotas mais curtas com mais frequência”, aponta Dill.

Outros dados apoiam tais constatações. Em Nova York, os homens são três vezes mais inclinados a se tornarem ciclistas do que as mulheres. No entanto, uma contagem de bicicletas mostrou que, em uma ciclovia no Central Park, 44% dos ciclistas eram do sexo feminino. “Dentro de uma mesma cidade você encontra disparidades enormes em termos de gênero”, observa Pucher.

Boa infra-estrutura por si só não irá melhorar o índice de mulheres quanto ao uso da bicicleta, os pesquisadores alertam. Em uma cultura dominada pelo automóvel, “iniciativas alternativas” também desempenham um papel, diz Susan Handy, um professor de ciência ambiental da Universidade da Califórnia, Davis. Em um estudo que será publicado em Transportation Research Record, Handy concluiu que “conforto” e “necessidade de um carro”, foram fatores importantes que influenciaram as taxas de ciclismo entre as mulheres, mas não entre homens. A necessidade de um carro é provavelmente ligada às tarefas domésticas comumente desempenhadas pelas mulheres, diz Handy, e isso poderia ser resolvido, em parte, por divulgações mostrando que as mulheres podem “saltar sobre uma bike do mesmo jeito como saltam para dentro de um carro.”

Alguns municípios estão começando a implementar uma “segunda leva” de estratégias que visam ampliar a demografia ciclística. Em Portland, uma cidade já conhecida por seu ciclismo urbano, o programa Women on Bikes é voltado para assuntos como a manutenção de um pneu furado. A cidade também está construindo sua primeira ciclovia em estilo europeu, isolada de carros e pedestres. Ao longo de todo o país, programas estaduais e federais de Rotas Seguras para Escolas estão criando ciclovias para as crianças, para que elas não precisem ser conduzidas de carro por seus pais.

Logo em seguida pode vir a cidade de Nova York, onde foram instalados cerca de cinco quilômetros de ciclovias protegidas do tráfego de automóveis. O crédito vai para a nova Diretora de Transportes Janette Sadik-Khan, que está desfazendo o foco de longa data que o departamento concedia aos caminhões e automóveis. Observações Pucher: “Uma ciclista tornou-se chefe do Departamento de Transportes, e coisas maravilhosas começaram a acontecer.”.

Bate-papo com as Pedalinas

4 jul

Esse mês, uma das atividades que vamos tocar vai ser esse bate-papo, participando de um evento no espaço Impróprio.

Pra variar um pouco, dessa vez não vai ter oficina. A proposta é expandir  a conversa para a questão do gênero,  não nos limitando apenas à questão do transporte. Haverá show com algumas bandas tambem.

Espaço, público e proposta dessa vez são diferentes daqueles a que estamos acostumadas… Acredito que para nós  será uma experiência nova e enriquecedora.

Para quem quiser somente ir à atividade ou ao bar/lanchonete do impróprio, a entrada é gratuita!

Meninas e meninos convidadxs =)

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