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A Rua é de Todxs! Caminhada, Pedal e Piquenique – 25/03

20 mar

Andar na rua sem ninguém te atormentar deveria ser um direito de todo mundo. Mas não é. Algumas pessoas são assediadas. Por serem mulheres. Por serem transexuais. Por serem gays, lésbicas. Outras, correm risco de morrer ou ser atropeladas. Porque são ciclistas. Porque estão a pé, atravessando a faixa de pedestres.

Entendemos que isso não pode continuar. E nesse domingo, vamos nos encontrar para falar sobre isso, entre a gente e com as pessoas que encontrarmos no caminho. Um pedal e uma caminhada até o parque, aonde faremos um piquenique. E conversaremos. E trocaremos experiências. E nos afofaremos em virtude dos acontecimentos tristes do último mês – a perda de uma mulher e ciclista. Março é o mês da mulher, e um bom mês para lembrarmos que não queremos rosas, e sim, direitos. Como andar na rua. Sem ninguém encher o saco. Ou tentar nos matar.

A rua é de todxs. 😉

Imagem

p.s.: flyer lindo que a Gabi Kato fez.

p.s.s.: não esqueçam de levar comida para o piquenique!

p.s.s.s.: na Praça dx Ciclista, faremos cartazes e enfeitaremos as bikes com fitás lilás (a cor do feminismo). Mais ideias e iniciativas são muito bem-vindas. 🙂

Pedalina de primeira viagem – um relato do encontro de fevereiro de 2011

7 fev

Minha bicicleta foi embora junto com minha infância. Lembro de ter vivido “horrores” com ela: sem uma mão! Sem a outra! Agora de pé! Manobras que já acabaram até num lago, ladeiras sem freio. Livre, livre, livre. Eu corria mais que os moleques (e por que não poderia?), e sentia que podia fazer qualquer coisa.

Esse tempo passou. Nem sei o que aconteceu àquela bicicleta. Junto com as responsabilidades, e as contas para pagar, veio um apartamento minúsculo, no centro de São Paulo, onde vivo sozinha. Fiz na parede um desenho para lembrar de não me deixar aprisionar nunca: passarinhos que escapam de uma gaiola aberta e voam rumo à janela.

Minha relação com a cidade não é das piores: já cheguei a demorar três horas para chegar à faculdade, mas hoje moro bem perto do trabalho, não tenho carro, faço tudo a pé, ou de ônibus. Só que depois de morar um ano em Lyon, na França, sempre achei que poderia ser melhor. Ali começou a experiência da Velo’v, bicicletas espalhadas pela cidade que você pode pegar, de graça, com o mesmo cartão do transporte público. Eu cruzava a cidade com elas, margeando o rio Ródano…

Eu achava que, no centro de São Paulo, aquilo seria impossível. Só os loucos se arriscam. Até que o meu presente de natal de 2010 – que meu namorado me ajudou a comprar – foi uma bicicleta. Ele reformou a sua, já parada há muitos anos. Foram precisos dois fins de semana para entendermos que sim, era difícil, mas possível. Primeiro, o minhocão de domingo, o centro velho, a Luz. Depois, a deliciosa descida ao Ibirapuera e a (argh!) dura subida de volta.

Sábado, 5 de fevereiro

Um passeio pela internet me fez cair no blog das Pedalinas, e ver que, justo no dia seguinte, havia um encontro (como todo primeiro sábado do mês) na Praça do Ciclista. Embalada pelas minhas recentes descobertas, resolvi conhecer de perto esse coletivo. E aí está o barato da bicicleta. A relação com a cidade, com as pessoas. Moro no mesmo apartamento há mais de um ano, e me envergonhava de não conhecer nenhum vizinho. Pois no sábado, ao pegar minha bicicleta na garagem, conheci um morador ciclista que também saía para um passeio. Subimos um pedacinho da Augusta juntos.

Na Praça do Ciclista, me dei conta da diversidade do grupo. Uma menina circulava livros de mecânica de bicicletas, que acabara de comprar nos Estados Unidos. Outras diziam que, pela primeira vez, pedalavam na rua. Nara, médica, não recebeu exatamente um incentivo do marido ao sair de casa (“Cuidado! Você viu que um ciclista atropelou um velhinho na rua, no Rio, e morreram os dois?”), mas estava tão orgulhosa da conquista de chegar até ali pedalando que ria alto da preocupação do companheiro.

E as cerca de 30 meninas (mais tarde, quando algumas outras se juntaram a nós no Ibirapuera, contei 31) tomaram a pista central da Avenida Paulista. Algumas, bem experientes, seguiam na frente e paravam um cruzamento, quando necessário. Outras se extasiavam com a primeira vez logo ali, naquela avenida enorme e hostil às bicicletas. O coletivo chamava a atenção de todos na calçada. Muitos sacavam suas máquinas fotográficas e clicavam a cena – turistas? Jornalistas? Curiosos? Alguns acenavam contentes, e outros homens faziam comentários machistas que reafirmam não só a necessidade de grupos como o Pedalinas, mas a luta constante das mulheres por uma relação de gênero mais justa.

Piquenique e bate-papo

Na Praça da Paz, no parque do Ibirapuera, um piquenique permitiu agradáveis bate-papos, em que ouvi as mais inesperadas histórias. Reconheci, no colar da italiana Michela, um pingente com a figura do Handala, um menino descalço, virado de costas e com as mãos para trás, símbolo da resistência palestina. Conversamos sobre isso, nossas relações com o tema, e também sobre a cidadezinha de Campagnano di Roma, de meus antepassados, que Michela conhecia (descobri por ela que há um grande festival de artistas de rua lá!).

Em uma rodada de apresentação, veio a pergunta: quantas de vocês vêm pela primeira vez? Para minha surpresa, quase metade das meninas eram novatas. E conhecemos muitos motivos que as levaram até ali: uma se apaixonou por um ciclista, terminou com ele e ficou com a bicicleta; outra incentivou o namorado a andar; outra precisava de uma alternativa ao ônibus que, lotado, fazia um caminho estúpido para chegar ao seu trabalho; outra, que tem uma deficiência visual, descobriu na bicicleta a melhor forma de se locomover pela cidade.

Na volta, subindo o morro rumo à Paulista, contava para Laura, francesa, sobre o – desigual – sistema educacional brasileiro. Com o fôlego e o francês enferrujados, tive uma agradável subida, devagar e sempre, que eu ainda não tinha conseguido completar sem parar. As mulheres foram se separando aos poucos, até que a última se despediu de mim, na Rua Frei Caneca. Segui sozinha até minha casa.

Nessa noite, recebi uma amiga e ouvi surpresa que, em sua família, nem ela, sua irmã ou sua mãe sabem pedalar. Acha que já está velha demais para isso… mas de jeito nenhum! Por histórias como essas, as Pedalinas organizam desde oficinas de mecânica para mulheres (só de conversar neste sábado, aprendi uma coisa tão trivial quanto olhar no pneu a quantidade de libras para enchê-lo) a passeios para iniciantes. Que nenhuma mulher que tenha vontade de pedalar desista, por falta de companhia, coragem, ou por excesso de proteção e preocupação de seus companheiros.

Redescobri o gostinho de liberdade de andar de bicicleta como fazia na minha infância, e estou descobrindo as dores e delícias de fazê-lo em uma cidade caótica como São Paulo. Espero que a emergência de coletivos como o Pedalinas, tão criativos e engajados, estimulem cidadãos e poder público a construir uma cidade mais sustentável. Estou nessa. Até o próximo encontro!

*Fotos de Camila e Aline. Veja mais aqui.

Assédio nas Ruas

28 set

Foi ao fazer um outro post que cheguei ao assunto e à sua possível ligação com a pequena proporção de mulheres que utilizam a bicicleta como meio de transporte. Me deparei com a hipótese nesse blog, e agora, após fazer uma pequena pesquisa e organizar os pensamentos, volto a desenvolver o tema.

Pois então, a que me refiro quando falo em “assédio”? A resposta é bem ampla, e vai desde estupro até os mais “inocentes” assovios bem conhecidos por qualquer mulher que transita nas ruas desta e outras grandes cidades. Mas minha intenção agora é focar nessa segunda maneira de assédio, que me preocupa justo por ser tão comum, ter relativa aceitação social e por sua falsa aparência inofensiva.

Tais assédios expõem a mulher publicamente, independente de sua vontade, e a coloca numa situação constrangedora, quando não humilhante. O espaço individual é violado ao momento em que ocorre uma interação forçada. Alem do que, declara que  a pessoa abordada é um objeto a ser utilizado pelo outro. Trata-se de um objeto sexual, e nada mais.

Seguindo essa linha de pensamento, não fica difícil entender porquê o assédio nas ruas pode ser um dos motivos pelos quais há menos mulheres do que homens pedalando. Como pode alguém se apropriar tranquilamente de um espaço no qual não se sente à vontade, onde há o risco de ser constrangida a quase qualquer momento? Sobre a bicicleta isso parece mais difícil ainda, já que ciclistas destacam-se visualmente. Alem, é claro, de chamar atenção pela  imagem “excêntrica”: a mulher pedalando se mostra forte e corajosa ao encarar certas avenidas movimentadas, atitude não muito esperada do tal “sexo frágil”. Parece papo de décadas atrás, mas, acreditem, esse valor ainda está vigorando fortemente hoje em dia.

A mulher sair de casa sozinha e ir trabalhar já não é novidade; entretanto, quando pisa a rua, comumente é tratada de maneira hostil, como não pertencente ao espaço público –  “se o faz, é por sua conta e risco”, como citado nesse artigo –  ainda relegada ao espaço privado, à proteção do lar ou mesmo do local de trabalho, mas não à rua.

A esfera privada – seja a casa ou o carro – oferece uma (questionável) sensação de privacidade e segurança que não se tem no ônibus, na calçada, nem sobre a bike. E isso tudo é somado à vigente carrocracia, opressora a qualquer ser não motorizado. É de se esperar que alguem queira alienar-se de um mundo que lhe parece hostil.

(acima, video da campanha Stop Street Harassment)

O medo tambem é um fator de peso nessa história toda. Dependendo da abordagem, algumas mulheres podem se sentir ameaçadas. A propósito, uma pesquisa mostra que é comum estupradores provocarem verbalmente uma vítima potencial para avaliar se ela reagiria a um ataque físico. Seria exagero dizer que um mero “ê, lá em casa” pode soar como uma ameaça para uma pessoa que a maior parte dos dias é publicamente afirmada como objeto sexual? Por mais clara que seja a não-intenção de que a ameaça seja efetivada, uma “brincadeira” dessas não é brincadeira.

Tá. Diante disso, o que fazer?

Podemos começar pela conversa com amigos homens. Muitas vezes pessoas queridas têm dificuldade em se colocar no lugar dos outros, não sabem o quanto algumas atitudes são violentas e prejudiciais. E cabe a nós ajudá-los a entender. Contar como se sente, mostrar que isso não é bacana…

Para o momento do assédio, há uma série de dicas aqui. Eu geralmente respondo, diferentemente da maioria das mulheres, que prefere apenas ignorar. Por um lado, entendo que essa é uma postura conivente com a violência; por outro, às vezes é melhor se preservar, e desenvolver um trabalho emocional para se deixar atingir o mínimo possível, já que não há como criar uma barreira absoluta que não seja sair da rua. Mas sair da rua não é uma possibilidade, nem um desejo, nem seria uma solução.

reação de algumas mulheres - "aqui pra voces, ó"

Não vou me inibir em ir para onde e como quero. Deixar de sentir os espaços, ver os detalhes, ter acesso à cidade sem precisar de motor nem dinheiro está fora de cogitação. Esconder não vai ajudar em nada, pelo contrário. Aliás,  sabe aquele papo de “não pedalar pelo canto da rua, e sim próximo ao centro da faixa”? Pois é, isso é se impor, é tomar o espaço que é seu! Essa postura é importantíssima para uma mulher que pedale ou mesmo caminhe pela cidade. É não se deixar inibir; é dizer, com o corpo, “Estou aqui e não vou me desviar tão fácil”. A rua é nossa!

Gentilezas, sempre?

21 set

Mas e quando esse “ajudar”, que às vezes é “fazer pelo outro”, acaba por convencê-lo de que é incapaz? Lembro-me de uma pesquisa que fiz para a faculdade, em que descobri que a grande maioria dos idosos fica debilitado fisicamente bem mais cedo porque os jovens não permitem que eles executem muitas atividades das quais seriam capazes. O envelhecimento dos músculos, ossos, articulações, sistemas respiratório e circulatório é acelerado – e muito – graças ao exercício poupado pela gentileza alheia.
O caso das mulheres é outro, mas ainda cabe a comparação. É assustador parar e prestar atenção em como é frequente ver mulheres desacreditarem de seus corpos e habilidades braçais. A pequena proporção das que encaram a rua sobre duas rodas é uma clara manifestação disso.

Acho que esse comportamento é alimentado ciclicamente. Não acreditamos que podemos porque não temos costume de tentar; não tentamos porque não acreditamos que podemos, e alem do quê, existe uma (atraente) zona de conforto oferecida pela sociedade que nos poupa desses desafios. E ainda assim, quando por qualquer motivo arriscamos uma tentativa, frequentemente não somos tão bem sucedidas… mas porque?

Melhor que fazer por alguem: ensinar a fazer ( foto do "Mão na Graxa" de maio)

Ora, se alguém nunca carrega peso, ou faz qualquer outro tipo de trabalho braçal, terá dificuldades em aprender a executá-lo bem; além do quê, se em suas raras tentativas uma pessoa se vê desajeitada e com dificuldades, a tendência é o constrangimento e a conclusão de que “não tem jeito pra isso, mesmo”; e daí o desânimo, a sensação de incapacidade, a dependência.

Por isso, creio que gentilezas nem sempre são benéficas, por melhor que seja a intenção. Realmente não é fácil negar o conforto, e muito menos recusar uma gentileza – especialmente se ofericida com um sorriso sincero – quando, por exemplo, nos querem dar uma carona de carro ou mesmo recolocar a corrente da nossa bicicleta quando ela cai. Resistir a ofertas atraentes que nos levam para longe do desafio e da autonomia, às vezes é necessário… Pode parecer bobo falar nisso, mas não é se considerarmos o quanto essas situações corriqueiras representam e alimentam algumas crenças prejudiciais e equivocadas.

Vivi um crescimento enorme ao inserir a bicicleta no meu dia-a-dia, e já testemunhei o mesmo em outras mulheres.  Prática é aquilo que mais nos convence de qualquer realidade. A gente precisa se posicionar, experimentar, agir  com o corpo, efetuar. Nos sentimos engrandecidas mas, na verdade, apenas redescobrimos nosso tamanho.

Percebo que isso tudo faz parte de um processo lento e profundo que acontece não apenas na sociedade, no mundo externo, mas principalmente dentro da gente, em nossos corpos.

Autonomia, independência, e a certeza de que podemos fazer as coisas sem alguém olhando por nós nos dá mais plenitude, prazer e liberdade nessa vida.

Mas e quando esse “ajudar”, que às vezes é “fazer pelo outro”, acaba por convencê-lo de que é incapaz?

Lembro-me de uma pesquisa que fiz para a faculdade, em que descobri que a grande maioria dos idosos fica

debilitado fisicamente bem mais cedo porque os jovens não permitem que eles executem muitas atividades das quais seriam capazes. O envelhecimento dos músculos, ossos, articulações, sistemas respiratório e circulatório é acelerado – e muito – graças ao exercício poupado pela gentileza alheia.

O caso das mulheres é outro, mas ainda cabe a comparação. É assustador parar e prestar atenção em como

é frequente ver mulheres desacreditarem de seus corpos e habilidades braçais. A pequena proporção das que encaram a rua sobre duas rodas é uma clara manifestação disso.

Acho que esse comportamento é alimentado ciclicamente. Não acreditamos que podemos porque não temos costume

de tentar; não tentamos porque não acreditamos que podemos, e alem do quê, existe uma (atraente) zona de

conforto oferecida pela sociedade que nos poupa desses desafios. E ainda assim, quando por qualquer motivo

arriscamos uma tentativa, frequentemente não somos tão bem sucedidas… mas porque?

Ora, se alguém nunca carrega peso, ou faz qualquer outro tipo de trabalho braçal, terá dificuldades em

aprender a executá-lo bem; além do quê, se em suas raras tentativas uma pessoa se vê desajeitada e com

dificuldades, a tendência é o constrangimento e a conclusão de que “não tem jeito pra isso, mesmo”; e daí o

desânimo, a sensação de incapacidade, a dependência. Há coisas que O CORPO tem que acreditar; e isso, só

experimentando.

POr isso, creio que gentilezas nem sempre são benéficas, por melhor que seja a intenção. Realmente não é

fácil negar o conforto, e muito menos recusar uma gentileza quando, por exemplo, nos querem dar uma carona

de carro, ou recolocar a corrente da nossa bicicleta quando ela cai. Resistir a ofertas atraentes que nos

levam para longe do desafio e da autonomia, às vezes é necessário… Pode parecer bobo falar nisso, mas não

é se considerarmos o quanto essas situações corriqueiras representam e alimentam algumas crenças

prejudiciais e infundadas.

Vivi um crescimento enorme em mim ao inserir a bicicleta no meu dia-a-dia, e já testemunhei o mesmo em

outras mulheres. A prática é aquilo que mais nos convence de qualquer realidade. A gente precisa se posicionar, experimentar, por a mão na massa, trabalhar com o corpo, efetuar. Assim, nos sentimos engrandecidas; na verdade apenas redescobrimos nosso tamanho.

Percebo que isso tudo faz parte de um processo lento e profundo, tanto na sociedade quanto dentro de nós.

Autonomia, independência, e a certeza de que podemos fazer as coisas sem alguém olhando por nós nos dá mais

plenitude, prazer e liberdade nessa vida.

Bate-papo com as Pedalinas

4 jul

Esse mês, uma das atividades que vamos tocar vai ser esse bate-papo, participando de um evento no espaço Impróprio.

Pra variar um pouco, dessa vez não vai ter oficina. A proposta é expandir  a conversa para a questão do gênero,  não nos limitando apenas à questão do transporte. Haverá show com algumas bandas tambem.

Espaço, público e proposta dessa vez são diferentes daqueles a que estamos acostumadas… Acredito que para nós  será uma experiência nova e enriquecedora.

Para quem quiser somente ir à atividade ou ao bar/lanchonete do impróprio, a entrada é gratuita!

Meninas e meninos convidadxs =)

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